Crítica

Linha de montagem

Há o habitual profissionalismo britânico neste olhar sobre a ascensão de Churchill ao poder durante a Segunda Guerra Mundial. Não há é mais nada.

“Qualidade inglesa” formulaica
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Dos tempos em que Joe Wright parecia trazer uma lufada de ar fresco ao filme britânico de prestígio (com a sua versão do Orgulho e Preconceito de Jane Austen, 2005, e a adaptação de Expiação de Ian McEwan, 2007) já só parecem sobrar tiques visuais mais ou menos previsíveis: os travellings laterais que, aqui aplicados à Londres de 1940, ecoam a sua panorâmica da Dunquerque cercada em Expiação, ou a sinalização mais ou menos óbvia da solidão de Winston Churchill quando o vemos, na pele de Gary Oldman, encerrado em caixas iluminadas na escuridão (um elevador, um gabinete), recordando a sua original teatralização da Anna Karenina de Tolstoi (2012).

A Hora Mais Negra desenha um arco de redenção: os dias negros de Maio de 1940, entre a nomeação de Churchill para primeiro-ministro, em plena blitzkrieg nazi sobre a Europa, como “homem para queimar” no qual ninguém confiava, e a sua transformação em farol civilizacional contra a tirania após o resgate de Dunquerque. Mas fá-lo de modo perfeitamente convencional, quase tarefeiro, com todo o profissionalismo que reconhecemos ao savoir-faire britânico a correr em puro piloto automático com a ambição dos Óscares ao fundo do túnel. A Hora Mais Negra é “qualidade inglesa” formulaica de linha de montagem industrial, só que, por uma vez, desprovida da alma que ainda assim estas coisas costumam ter — mesmo um objecto inofensivo como O Discurso do Rei ou a tocante biografia de Stephen Hawking A Teoria de Tudo tinham uma outra espessura que, aqui, está bizarramente ausente.