Dois investidores querem que a Apple ajude os mais novos a largar o telemóvel

Numa carta aberta, defendem que há necessidade de mais opções e ferramentas para os pais.

Foto
Os investidores querem que a Apple monitorize o tempo que os mais novos passam em frente ao ecrã Carlo Allegri / Reuters

Dois dos investidores da Apple querem que a fabricante do iPhone ajude os mais novos a passarem menos tempo agarrados ao smartphone. O objectivo, escrevem, é prevenir uma “crise pública de saúde” com crianças incapazes de se afastar dos pequenos ecrãs, e tornar a empresa um exemplo para outras gigantes tecnológicas.

“Há uma necessidade de a Apple oferecer mais opções e ferramentas aos pais para garantir que os consumidores mais jovens usam os seus produtos da melhor maneira”, lê-se numa carta aberta publicada este fim-de-semana. É assinada pelo fundo de investimento Jana Partners, em Nova Iorque, e pelo fundo de reformas dos professores da Califórnia. Juntos detêm dois mil milhões de dólares em acções da Apple, cerca de 0,2% das acções totais da empresa.

“Acreditamos que a Apple pode ocupar, novamente, um papel pioneiro. Desta vez ao dar o exemplo das obrigações das empresas de tecnologia para com os consumidores mais jovens”, escrevem os investidores, que querem que a empresa crie um grupo de investigação e um grupo de trabalho para monitorizar o impacto da tecnologia da Apple em crianças. 

A Apple respondeu na terça-feira. “Esforçamo-nos muito para criar produtos poderosos que inspiram, entretêm e educam as crianças e, ao mesmo tempo, para ajudar os pais a protegê-las online”, lê-se no comunicado enviado aos órgãos noticiosos. “Qualquer coisa que uma criança possa descarregar ou a que posssa aceder online pode ser facilmente bloqueado ou limitado pelos pais.” A empresa acrescenta que tenta rever todo o conteúdo nas suas plataformas para dar aos pais informação suficiente para decidirem se uma aplicação, música ou filme é adequada à idade dos seus filhos.

Para os investidores, porém, o problema é tempo que os mais novos passam online. No documento, redigido com a ajuda de profissionais dos hospitais de Pediatria de Boston e de Harvard, e de psicólogos da Universidade de San Diego, os investidores notam que os jovens americanos que passam mais de cinco horas por dia em frente a dispositivos electrónicos têm menos probabilidade de dormir o suficiente (em vez de nove horas, dormem menos de sete por dia). A falta de sono está associada a problemas a longo prazo, como o aumento de peso e o aumento da pressão arterial.

“Nos últimos três a cinco anos, desde que as tecnologias pessoais entraram na sala de aula, 90% [dos professores] dizem que o número de estudantes com problemas emocionais cresceu”, escrevem os investidores, com base num inquérito a 2300 professores na Universidade de Alberta. Ao nível do secundário, referem, “os alunos do segundo ciclo que usam muito as redes sociais têm um risco 27% maior de depressão”.

Foi em 2008, com o lançamento da loja online da Apple, que a empresa começou a introduzir o controlo pelos pais. É possível restringir o acesso a algumas aplicações (jogos, música, filmes) ou à Internet através de uma palavra-passe (que só os pais conhecem) nas definições do dispositivo. Há algumas aplicações e produtos independentes que também já fazem isto. A Otomos, por exemplo, é uma capa para iPhone desenvolvida no Japão que permite aos pais desligarem o telemóvel dos filhos à distância. Depois de colocada no telemóvel, a capa não pode ser retirada sem uma chave especial e os pais podem definir limites específicos para os smartphones dos filhos (por exemplo, o tempo de utilização diária ou horas obrigatórias para “desligar”).

Para os investidores, porém, estas funcionalidades têm de ser mais fáceis, óbvias e parte do iPhone. “A Apple percebe melhor do que qualquer empresa que a tecnologia está no seu melhor quando é intuitiva”, lê-se na carta. “Por exemplo, nas definições iniciais do telemóvel, quando os utilizadores estão a escolher a zona e a linguagem, os pais deviam poder introduzir a idade do utilizador do telemóvel e receber recomendações específicas.”

Em resposta, a Apple confirma que tem “novas funcionalidades e actualizações planeadas para o futuro”, embora não avance pormenores. Os investidores acreditam que as alterações não vão influenciar negativamente a Apple. “O modelo de negócio da Apple não depende do uso excessivo dos seus produtos [num dia]”, lê-se nas conclusões da carta aberta. “Acreditamos que abordar este assunto agora, ao oferecer mais ferramentas aos pais, irá estimular o negócio da Apple e a procura dos seus produtos.”

Actualizado a 09/01/2018: foi acrescentada a resposta da Apple.