Filho de Bowie vai ler os livros favoritos do pai e quer companhia

Duncan Jones encontrou uma maneira original de prestar tributo ao seu pai, David Bowie, que faria 71 anos esta segunda-feira: criar um clube para ler e comentar os livros que o músico, um leitor furioso, mais prezava.

Foto
DR

Foi com duas breves mensagens no Twitter que o filho de David Bowie, o cineasta e argumentista Duncan Jones, de 46 anos, lançou aquilo a que a imprensa britânica já chama o “clube de leitura David Bowie”, embora ninguém saiba ainda muito bem em que moldes este poderá vir funcionar.

Apesar de as suas declarações não serem particularmente explícitas, o filho do músico parece estar a propor-se ler, e comentar com outros leitores, a lista pessoal de cem livros que Bowie organizou em Outubro de 2013 para a estreia canadiana da exposição David Bowie Is. Nessa mesma ocasião, o autor de Space Oddity ou Ziggy Stardust, que morreu em Janeiro de 2016 (e que faria esta segunda-feira 71 anos), deu uma entrevista na qual assegurava que, a não ter sido músico, teria escrito romances, observando ainda que as suas canções são “pequenas histórias musicadas”.

“O meu pai era um leitor furioso. E uma das suas verdadeiras paixões era a obra de Peter Ackroyd, com as suas incursões na história da Grã-Bretanha e das suas cidades. Tem vindo a crescer em mim o sentimento de que, em tributo ao meu pai, devo empreender a mesma maratona literária”, "tweetou" Duncan Jones a 27 de Dezembro passado. E no mesmo dia voltou à carga: “Muito bem, pessoal! Quem quiser alinhar, já sabe que estamos a ler Hawksmoor, de Peter Ackroyd, como um amuse cerveau [aperitivo mental] antes de entrarmos no material pesado. Têm até dia 1 de Fevereiro”.

Duncan, que ganhou alguma notoriedade enquanto cineasta com a sua longa-metragem de estreia, o filme de ficção científica Moon (2009), não esclarece, no entanto, se a conversa irá processar-se no Twitter, se pretende criar um site, se será ele a abrir o debate, ou mesmo se se revê na designação “clube de leitura de David Bowie”, com que outros baptizaram entretanto a sua iniciativa e que as edições on line dos jornais já utilizam como hashtag.

Um leitor camaleónico

Que um cineasta preste homenagem a um músico, que aliás foi também um actor relevante, com participação em largas dezenas de filmes, não deixa de ser invulgar, mas basta passar os olhos pelos títulos dos cem livros escolhidos por Bowie para se perceber que este não foi apenas um compositor e cantor que gostava de ler: só um leitor tão intensivo quanto ecléctico poderia apresentar uma lista como esta, onde alguns dos romances cruciais da literatura europeia e americana do século XX, como O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald, Berlim Alexanderplatz, de Alfred Döblin, Na Minha Morte, de Faulkner, 1984, de Orwell, O Estrangeiro, de Camus, Lolita, de Nabokov, O Leopardo, de Lampedusa, Pela Estrada Fora, de Kerouac, Herzog, de Saul Bellow, ou Margarida e o Mestre, de Bulgakov, para citar apenas alguns, convivem com o Inferno de Dante ou os Cantos de Maldoror de Lautréamont, mas também com a poesia modernista de T. S. Eliot ou Hart Crane, com o ensaísmo literário de George Steiner ou com as investigações sobre a natureza da loucura e da sanidade mental que R. D. Laing expõe em O Eu Dividido. E há ainda espaço nestas afinidades electivas para três ou quatro obras de referência da história da música popular e para alguma banda desenhada.

Todos os grandes leitores têm livros que se tornam, por razões que nem eles próprios às vezes saberiam explicar, os livros das suas vidas, livros que podem esquecer durante anos, mas que reabrem sempre como quem regressa a casa. Daí que não seja assim tão estranho que o caminho que Duncan Jones escolheu para se sentir próximo do pai tenha sido este de seguir o seu rasto por estas muitas páginas dentro, do mesmo modo que poderia ter sentido a necessidade de peregrinar pelos lugares onde Bowie viveu ou de conhecer os seus amigos de juventude.

É cedo para se saber se Duncan Jones vai mesmo percorrer e comentar publicamente os cem livros da lista, mas com a atenção que a imprensa está a dar aos seus tweets, e a legião de fãs que o génio criativo de David Bowie conquistou no planeta, o mais certo é que não faltem voluntários para o acompanhar na jornada.

E se terá optado por começar com Hawksmoor por achar que um livro passado em Londres, meio romance histórico, meio intriga policial, seria adequado para que todos estimulassem um pouco os neurónios antes de os submeterem a prazeres mais exigentes, a verdade é que é também é uma escolha que presta homenagem à inclassificável singularidade de Bowie. Obcecado por Londres, pela sua história, pelas suas ruas e monumentos, pelas suas figuras ilustres, Peter Ackroyd é também ele um autor particularmente ecléctico (poeta, romancista, ensaísta, biógrafo de Thomas More e William Blake, de Dickens e T. S. Eliot), e Hawksmoor (1985), vencedor de vários prémios, é um dos seus livros mais difíceis de catalogar.

A acção do romance acompanha a construção de várias igrejas londrinas pelo arquitecto inglês Nicholas Hawksmoor (1661-1736), no início do século XVIII, narrando simultaneamente os esforços de um detective homónimo que, nos anos 80 do século XX (quando o livro foi lançado), procura desvendar uma série de crimes perpetrados nessas mesmas igrejas. Com um manifesto gosto em saltar entre géneros e registos, Ackroyd usa aqui as convenções do género policial para as subverter, criando uma espécie de anti-policial que também não se encaixa no cânone do romance histórico. Nada que possa ter desconcertado excessivamente um leitor tão camaleónico como David Bowie.