Opinião

Não há uma segunda oportunidade para causar uma boa impressão

Interessa ao PSD escolher um líder partidário com um perfil de perdedor simpático ou um candidato a primeiro-ministro com algumas “chances” de vencer eleições gerais?

A afirmação que coroa o presente título, atribuída correntemente a Jaime Gama, aplica-se certeiramente à escolha do líder de um partido de poder que se perfile como natural candidato a primeiro-ministro. E na verdade, na Europa, raros são os casos de primeiros-ministros que, tendo liderado más experiências governativas, sejam contemplados com uma segunda oportunidade para governarem. Este cânone politológico tem a maior pertinência, a propósito da candidatura de Pedro Santana Lopes à liderança do PSD e a futuro chefe de Governo nas eleições de 2019.

Santana Lopes é uma figura carismática e incontornável na história do PSD que não deixa os militantes indiferentes. Abrasivo, excêntrico, destemido, tribunício e roturista, foi já quatro vezes candidato à liderança do PSD e por quatro vezes perdeu. Imagem constante em revistas de faits divers, participou em concursos de TV como a “Cadeira do Poder”, chefiou o Sporting, foi comentador televisivo, presidiu às autarquias da Figueira da Foz e de Lisboa e atingiu o topo da sua vida política como primeiro-ministro, no contexto da demissão abrupta de Durão Barroso em 2004, sendo ungido por este, sem oposição interna.

Candidata-se de novo à liderança do PSD contra Rui Rio, numas eleições cinzentas, escassas de entusiasmo e de ideias mobilizadoras. Eleições marcadas pela arregimentação de militantes desmoralizados pela profunda astenia que assomou um partido ferido pelos custos de uma governação em austeridade, na qual lidou com uma crise financeira de que não foi responsável e que, depois de uma vitória eleitoral pirrónica, foi forçado a um tempo de oposição inconformada, azeda e incompreendida.

Reviver o passado em 2004. Se se atentar nas sondagens sucessivas da Aximage, com relevo para a publicada em dezembro de 2017, 71,9% dos inquiridos preferem Rio a Santana. Contudo, não serão eleições primárias, abertas aos cidadãos ou a simpatizantes, que escolherão o novo líder do PSD, mas sim um sufrágio interno envolvendo cerca de 30 mil militantes, com um resultado imprevisível.

Ora, um significativo setor indeciso desses militantes terá de ponderar se lhe interessa escolher um líder partidário com um perfil de perdedor simpático, afetuoso e bem-falante, ou, ao invés, um candidato a primeiro-ministro mais austero, experiente, meticuloso, com um passado ganhador e, ainda, com algumas “chances” de vencer eleições gerais.

Esses militantes decisivos terão de olhar as sondagens e optar entre um Santana Lopes marcado por uma alta taxa de rejeição no eleitorado, suscetível de propiciar uma maioria absoluta do PS em 2019 e um total de seis anos de oposição para o PSD, e um Rui Rio portador de um projeto alternativo orientado para a libertação do país da dependência da extrema-esquerda e para a sedução de um eleitorado do centro e da classe média, que é o universo onde se vencem eleições.

Finalmente, os militantes indecisos terão de recordar, se a experiência governativa de Santana Lopes em 2004 (a qual os seus adversários transformarão em tema-chave da campanha eleitoral de 2019, caso o mesmo seja eleito líder do PSD) constitui um trunfo que glorifique o partido e entusiasme os cidadãos indecisos, ou uma via crucis que o massacrará nas vésperas do sufrágio.

Sem prejuízo da dissolução parlamentar de Jorge Sampaio, em 2004, ter sido decidida à margem de uma crise política grave e poder ser censurada por ter fraturado uma prática constitucional, o facto é que os sete meses do Governo de Santana Lopes não deixaram saudades. Com efeito, as alegadas interferências na comunicação social que criaram em Marcelo Rebelo de Sousa um adversário implacável, a instabilidade do então primeiro-ministro e os casos pitorescos que erodiam a seriedade do Governo (como as narrativas da “incubadora” e do “menino guerreiro”), os erros de casting na constituição do executivo, as demissões estrepitosas de homens de confiança zangados e o agravamento da situação financeira, ainda persistem na memória coletiva, tendo conduzido a um dos piores resultados eleitorais do PSD que abriu o caminho a Sócrates. Com um aquis desta natureza, que custos deveriam ser suportados pelo partido, para atribuir a este esforçado candidato uma segunda oportunidade de altíssimo risco para causar uma boa impressão nos eleitores? Membro da Comissão de Honra de Rui Rio

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico