Editorial

Trump sufoca-se a si mesmo

A realidade é preocupante. Os Estados Unidos neste momento têm uma imagem completamente degradada e estão a perder a credibilidade que sempre tiveram.

Donald Trump está cada vez mais acossado pela justiça. O novo livro que relata segredos da vida na Casa Branca, mesmo incluindo relatos duvidosos, deixa completamente exposto um Presidente que tem feito pouco pela credibilização do cargo que ocupa. E isto acontece no mesmo dia em que o Presidente americano fala do tamanho do seu arsenal nuclear, ameaçando usá-lo; e dois dias depois de comparar o aquecimento global ao arrefecimento sazonal, mostrando não compreender um módico de ciência ou sensatez que satisfaça um americano médio.

A realidade é preocupante. Os Estados Unidos neste momento têm uma imagem completamente degradada e estão a perder a credibilidade que sempre tiveram. Não está em causa concordar ou discordar com as políticas que vêm de Washington, está apenas em questão olhar com respeito e aceitar uma dimensão de credibilidade que emane da Casa Branca. Isso desapareceu com Trump, que está a fazer mais mal aos EUA e aos republicanos do que Richard Nixon alguma vez conseguiu. Nixon foi um acidente de percurso num partido sério, Trump é o reflexo da transformação do sistema político americano num reality-show para milionários e da transformação do partido republicano numa plataforma de promoção de ignorância sistemática.

O mais extraordinário é que nem é preciso que a oposição democrata se organize. Os esquemas de Trump e dos seus acólitos bastam-se a si próprios e podem mesmo provocar a própria queda pela via da justiça, que é a melhor esperança de quem ainda acredita nos méritos da América. Os acontecimentos deste ano e meio confirmam os riscos de apostar nos populistas que subvertem o modelo democrático a partir de dentro. Nesse sentido, a presidência Trump pode vir a revelar-se histórica, por permitir tipificar a cartilha de um modelo demagogo que facilita a chegada ao poder mas torna impossível a gestão desse mesmo poder.

Tudo isto pode acontecer em Portugal um destes dias. Já há muitos que, nas plataformas digitais, se dispõem a fazer o trabalho sujo do populismo e degradam o discurso público. Querem a terra queimada para abrir caminho a demagogos que tomem o poder, e para isso precisam de pôr em causa as nossas liberdades civis. É um risco que, como se vê na Hungria e na Polónia, pode acontecer na Europa – mas é garantidamente o pior que nos poderia acontecer.

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