Opinião

Os terroirs da nossa imaginação

A principal tarefa do próximo futuro será a criação de uma inteligência coletiva territorial capaz de enquadrar o rural profundo.

Muito em breve, as tecnologias de informação e comunicação (TIC) e a vaga de inteligência e criatividade protagonizada pelas empresas da economia digital chegarão, também, ao nosso interior mais profundo e remoto. Tudo isto parece um discurso paradoxal no preciso momento em que fazemos, ainda, o luto da tragédia dos incêndios. Ora, é absolutamente necessário contrariar este discurso pessimista e afirmar a vitalidade da agricultura portuguesa, em especial, a essencial policromia dos nossos inúmeros microclimas e ambientes agroecológicos, em abono dos terroirs da nossa imaginação.

Os sinais distintivos territoriais (SDT). Estamos no início de 2018, os terroirs “não estão obrigados” a ser apenas a assinatura de um só produto (o terroir vitivínicola). O universo material e simbólico de uma região contém muitos “sinais distintivos territoriais”, muitos deles ocultos ou ignorados. É a perceção de uma certa iconografia regional que irá revolucionar o conceito de terroir tal como ele é habitualmente entendido. Eis alguns exemplos retirados desse universo referencial e que, no seu conjunto, compõem o ambiente inspirador do terroir: o silêncio do horizonte, a espiritualidade e o génio dos lugares, a inspiração transbordante da natureza, o sentido religioso do recolhimento, a beleza de um quadro pictórico, o encantamento de uma paisagem literária, os mistérios da vida natural, enfim, a nostalgia da vida simples. Os territórios inteligentes e criativos do futuro terão aqui matéria-prima suficiente para trabalhar e produzir novos conteúdos criativos e culturais.

A cenografia de um território-desejado. Os sinais distintivos territoriais e a sua especial iconografia abrem-nos a porta para diferentes cenografias do território. As start-up da economia digital, sobretudo as empresas do marketing digital e da publicidade, aproveitarão a oportunidade e tomarão o mundo rural como um décor para as suas próximas incursões e representações. O naturalismo romântico do nosso rural profundo será um trunfo e um ativo preciosos. Não será apenas a agricultura de precisão com os seus agribots, será, também, uma “agrocultura” que chegará com os neo-rurais neo-românticos. O mundo rural e o campo tornar-se-ão uma espécie de cenário natural para as produções low cost da cibercultura mais variada.

A coreografia e a sociabilidade colaborativa. Com um novo décor e novos atores e protagonistas teremos, seguramente, uma outra coreografia também. Ao lado do capitalismo puro e duro que permanecerá, teremos, cada vez mais, uma economia colaborativa que tornará o capitalismo mais popular e genuíno, no sentido próprio dos termos. Formar-se-ão territórios-rede e atores-rede onde o capital social será tão ou mais decisivo que o capital financeiro. A coreografia política e social será mais complexa e muito diferente da atual, com mais inteligência coletiva e solidariedade social que tomarão, de forma gradual, o lugar da economia mais extrativa e predadora.

A inteligência coletiva, uma plataforma colaborativa para o terroir. Esta será a principal tarefa do próximo futuro, a criação de uma inteligência coletiva territorial capaz de enquadrar o rural profundo. Não tenho dúvidas, haverá mais campo na cidade e mais cidade no campo. Desde a agricultura vertical na cidade, à agricultura acompanhada pela comunidade, às novas agriculturas periurbanas, à agricultura de precisão e às agriculturas de nicho, será cada vez mais um continuum ecológico ao longo de 200 km de largura. Nesses corredores verdes, os terroirs serão a “cereja em cima do bolo” e uma verdadeira atração para os neo-rurais que chegarão curiosos para ocupar o interior do país, que se tornará a prazo, quem diria, um interior verdadeiramente cosmopolita. As plataformas colaborativas serão uma ferramenta fundamental para montar esta inteligência coletiva territorial. Mas esse é apenas o primeiro passo.

De espaços-produção a espaços-produzidos. Os territórios mais remotos e hostis serão um desafio à imaginação tecnológica e digital e aguardamos, a todo o tempo, que as universidades, os centros de investigação e as start-up mais ousadas sejam capazes de nos trazer novidades na forma de ocupar estes territórios. Progressivamente, os terroirs do nosso mundo rural deixarão de ser espaços-produção para serem, cada vez mais, espaços-produzidos, se quisermos, territórios de destino e visitação. O marketing digital irá forjar uma imagem de marca cheia de glamour (e pastiche), os novos embaixadores farão a boa publicidade do place branding, a chegada de muitos neo-rurais talentosos revolucionará os tradicionais terroirs de produção.

Os terroirs do Alentejo Vinhateiro, do Dão e Bairrada, do Alto Douro Vinhateiro, do Minho Verde, entre outros, são um excelente ponto de partida para os futuros terroirs policromáticos do nosso mundo rural. As designadas rotas do vinho são, neste contexto, apenas um embrião simplista do muito que ainda falta fazer. Queremos crer que os neo-rurais de todas as extrações e proveniências já preparam essa grande jornada que nos conduzirá, gradualmente, dos terroirs de simples produção aos terroirs de produção e destino, digamos, aos terroirs mais policromáticos.

Porém, à nova economia digital, para fazer prova de vida, não bastam as comunidades online criadas de geração espontânea em espaços de coworking ou fablab municipais ou cooperativos. Também não bastam as start-up geradas em incubadoras e aceleradoras, que aí vegetam sem um mínimo de sustentabilidade. Há, de facto, um longo caminho a percorrer entre o conforto de uma rede digital gerida por uma comunidade online e o desconforto de um problema real gerido por uma comunidade real, municipal ou associativa.

Os fogos florestais do último verão não afetaram, felizmente, os nossos principais terroirs, mas deixaram um aviso sério à gestão integrada dos territórios rurais do interior. Mais uma razão para estar avisado e não baixar a guarda.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico