Mitt Romney tem caminho aberto no Utah e isso não agrada a Trump

O republicano que se atirou a Trump durante a campanha presidencial de 2016 pode agora concorrer ao Senado - e até partir daí para tentar desafiar o Presidente em 2020.

Fotogaleria
Romney pode ter no Utah o relançamento da sua carreira política Brian Snyder/Reuters
Fotogaleria
O ex-governador já tinha admitido que podia concorrer Reuters

Donald Trump fez uma campanha incansável para convencer Orrin G. Hatch a recandidatar-se, mas falhou. A opinião da família e dos amigos acabaram por falar mais alto e o republicano que há mais tempo serve no Senado, com 83 anos, representante do Utah em Washington desde 1977, decidiu mesmo abandonar a política no final do mandato. Uma decisão que abre caminho ao mórmon Mitt Romney, um candidato difícil de bater no estado que é a sede da sua Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

Oficialmente, Romney ainda não anunciou a sua candidatura, mas já tinha admitido essa possibilidade, afastando-a ao convencer-se que Hatch acabaria por ceder às pressões de Trump. O mês passado, o Presidente voou com o senador para o Utah antes de um dia de eventos destinados a garantir que ele se apresentaria de novo em Novembro.

A pedido do senador, Trump anunciou então que reverteria decisões de Barack Obama e de Bill Clinton e diminuiria o espaço ocupado por dois dos maiores monumentos (parques nacionais) do estado. Num discurso em Salt Lake City, afirmou que esperava ver Hatch “continuar a representar o estado no Senado por muito tempo ainda”.

A confirmação da notícia por parte de Hatch, mais um revés para o Presidente, que conta já muitos dos seus apoiantes entre os que decidiram não voltar a apresentar-se ao Congresso, chegou na terça-feira à tarde (noite em Portugal), horas antes de Mitt Romney mudar a sua localização na rede Twitter de Massachusetts (onde foi governador) para Holladay, Utah, onde tem, de facto, uma casa.

“Quando o Presidente visitou o Utah disse que eu sou um lutador. Sempre fui. Fiz boxe amador na minha juventude e levei esse espírito comigo para Washington”, afirmou Hatch. “Mas todos os bons lutadores sabem quando pendurar as luvas. Para mim, esse momento aproxima-se”.

Hatch tornara-se num dos grandes apoiantes de Trump no Senado. A 20 de Dezembro, numa festa na Casa Branca para festejar a aprovação da reforma fiscal, que Hatch ajudara a redigir, o Presidente voltou a chamá-lo para o seu lado e a pedir-lhe que se recandidatasse. O senador elogiou Trump, descrevendo-o como “um líder dos diabos” (“a heck of a leader”). “Vamos transformar esta presidência na maior que já vimos, não só em várias gerações, talvez mesmo de sempre”, elogiou o senador.

Deixar as divergências claras

Ora, em vez deste apoiante ferrenho, Trump arrisca-se agora a ver o Utah eleger um dos republicanos que o criticaram desde o início, desde antes de isso se tornar moda. O candidato derrotado à presidência em 2012, popular num estado com muita população mórmon, chegou a ter a cargo a gestão dos Jogos Olímpico de Inverno no Utah, em 2002. “É um candidato muito difícil de bater no Utah”, diz, citado pelo jornal The New York Times, Michael O. Leavitt, ex-governador republicano do estado.

Romney no Senado é o pior pesadelo de Trump. Durante uma partida de golfe, o ano passado, Trump perguntou ao senador da Carolina do Sul Lindsey Graham o que pensava do ex-nomeado dos republicanos à presidência – Graham garante ter elogiado Romney e antecipado que seria um “senador sólido”.

Em relação a Trump, diz Leavitt, Romney “não tem sido relutante em dizer o que pensa e não imagino que mudasse no Senado”. Um dos seus próximos, angariador de fundos habitual nas suas campanhas, Spencer Zwick, diz que “de todos os possíveis candidatos, Mitt representaria e honraria o legado do senador Hatch como ninguém”. Questionado sobre a sua oposição habitual às políticas e posições de Trump, Zwick diz que “quando houver assuntos em que ele concorda, será um grande apoiante e quando discordar vai deixar isso claro”.

As baixas na Câmara

Ao todo, já 29 republicados da Câmara dos Representantes se demitiram, anunciaram que se vão reformar ou concorrer a outros cargos públicos (entre os democratas são 16), incluindo pesos-pesados, como Bill Schuster, da Pensilvânia, que preside ao Comité da Habitação e Transportes, Robert Goodlatte, da Virgínia, líder do Comité de Justiça ou o texano Jeb Hensarling, do Comité dos Serviços Financeiros.

Trump teme que Romney no Senado reúna à sua volta os republicanos mais cépticos em relação à sua presidência. Ao mesmo tempo, já pensa na rede política que Romney mantém, receando que este tente usá-la como plataforma para uma nova corrida à Casa Branca. Durante a última campanha, Trump disse que Romney “se engasgou como um cão” na corrida de 2012, depois de Romney lhe ter chamado “uma fraude”.

Entre anúncios e mudanças de localizações no Twitter, a igreja de Romney anunciou também na noite de terça para quarta a morte do seu presidente, Thomas S. Monson, com 90 anos, e desde 2008 a liderar os mórmons (foi apóstolo durante 45 anos).