Reportagem

Ferry Madeira-Lisboa? "Se fôssemos de barco, perderíamos logo à partida dois dias de férias"

Durante uma viagem até à Madeira, o PÚBLICO falou com alguns madeirenses e tentou perceber a opinião sobre o regresso do ferry que irá reestabelecer ligações marítimas entre o arquipélago e o continente português.

Foto
A maior parte dos turistas que passam pela Ilha da Madeira fazem-no através dos cruzeiros Enric Vives-Rubio

E se, em vez do avião, a viagem de Portugal continental até à Madeira fosse feita de ferry? O cenário voltou a ganhar força, é bem visto por alguns madeirenses mas há muitos outros que não estão dispostos a trocar o avião pelo barco, especialmente pela duração da viagem (quase um dia) e pelo facto de o Algarve ser o ponto de partida previsto para o ferry.

O PÚBLICO ouviu alguns estudantes madeirenses que foram a casa no Natal e poucos disseram que ponderariam utilizar o ferry em vez do avião. A duração da viagem (de quase um dia), a deslocação de Portimão para pontos do país onde estudam — em particular para Lisboa e Porto — e o preço das viagens foram as principais condicionantes apontadas pelos universitários.

“[O barco] É bom para quem quiser passar férias no Algarve, ou levar o carro e depois percorrer o país, mas sempre em modo férias”, diz Mariana Sousa, madeirense a estudar em Lisboa. “Não acho que seja uma boa opção para os estudantes em Lisboa ou quem tem de lá ir regularmente. Chegamos ao Algarve e depois são mais três horas de carro ou de comboio para Lisboa”, explicou a estudante.

Já para Higino Caires, estudante de engenharia informática, seria “um pouco difícil” viajar de Aveiro até ao Algarve para apanhar o ferry. “Seria caro e cansativo, para não falar que teria mais um dia de viagem”. “Não sei se algum dia iria utilizar”, diz. Acrescenta ainda assim que para parte da sua família, que vive no continente e que costuma passar férias na ilha da Madeira, o barco seria uma alternativa. 

O regresso das viagens de ferry entre a Madeira e o continente foi uma promessa eleitoral de Miguel Albuquerque em 2015. O Governo Regional anunciou, na passada quinta-feira, a abertura de um novo concurso público internacional para reactivar as ligações de ferry entre a região autónoma e o resto do país, depois de os anteriores concursos terem ficado sem propostas. 

Durante o período em que o armador Naviera Armas operou, os produtos chegavam ao arquipélago com valores mais em conta em relação aos preços praticados quando passaram a ser transportados por via aérea. O tempo de entrega das mercadorias também era mais reduzido. E havia a possibilidade de transportar carros de e para Portugal continental, além de o ferry ser uma alternativa para quem tinha medo — ou simplesmente não queria — viajar de avião.

Mas o armador Naviera Armas anunciou em Janeiro de 2012 o fim da ligação com a região, devido aos elevados custos das taxas portuárias praticadas na Madeira. Desde então o Grupo Sousa tem sido o principal operador marítimo-portuário entre a Madeira e o continente, mas apenas no sector das mercadorias. 

Amina Sobirova e Pedro Gomes trabalham no Mar Azul, um restaurante perto do porto do Funchal. Esperam que o barco regresse à região brevemente. “Na altura o Armas fazia diferença”, diz Amina, que já ali trabalhava quando o antigo ferry fazia a ligação entre a ilha e o continente. “Trazia mais pessoas à Madeira”. Amina sabe do que fala, pelo menos no que diz respeito a esta zona da ilha: a sua função é angariar clientes para o restaurante. Pedro nota, no entanto, que “a maior parte dos turistas que passa pela Madeira vem pelos cruzeiros ou através dos aviões”. O que significa que, mesmo que os madeirenses sintam falta do ferry, quem visita a região não se queixa da quebra desta ligação.

Com os novos acordos entre o governo regional e as companhias áreas, relativamente ao subsídio de mobilidade, o barco também não seria a primeira opção para aqueles que viajam frequentemente para o continente. 

Cláudia Lucas, estudante universitária no Porto, reforça o facto de a deslocação até Portimão ser um entrave na compra de uma viagem de barco. "Nós, estudantes, viajamos frequentemente, e estamos habituados a comprar as viagens com alguma antecedência. Se fôssemos de barco, perderíamos logo à partida dois dias de férias". "Para nós, estudantes, não dá", acrescentou Cláudia. 

Com preços do ferry na ordem dos 25 euros por trajecto para residentes (80 para não residentes) e 120 euros para automóveis, estes estudantes continuariam a optar pelo avião. Mesmo com valores fixos de 86 euros para residentes e 65 euros para estudantes, que ultrapassam o preço das viagens de barco, a duração da viagem acaba por ser um factor mais relevante na escolha do meio de transporte. "Apesar de dar jeito para transportar móveis, ou até mesmo o carro, ia demorar imenso tempo", diz Ana Drumond, que já estuda em Lisboa há cinco anos. Há um senão: inicialmente, para comprar os bilhetes de avião, é preciso pagar o valor total da passagem aérea, mas o Governo autónomo da Madeira só reembolsa passagens até 400 euros. Quando ultrapassa esse valor, os beneficiários assumem a diferença. 

O elevado custo das passagens aéreas em épocas como o Natal e fim-de-ano, altura em que os madeirenses a estudar em universidades continentais regressam a casa de férias, pode ser uma oportunidade para o barco. O estudante Pedro Rodrigues admite que optaria pelo ferry, "mesmo tendo em conta a duração da viagem, se o preço fosse tão reduzido como já foi". João Pedro, outro estudante madeirense, também partillha da mesma opinião que Pedro, mas diz que "tudo dependeria dos preços". 

Texto editado por Hugo Daniel Sousa