Crítica

Debaixo da pele

Tão frustrante como fascinante, o regresso da húngara Ildikó Enyedi depois de 18 anos sem filmar é elíptico, abstracto, cerebral, intrigante.

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Um filme formalista até dizer chega
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Há qualquer coisa de “conto de fadas” no percurso da húngara Ildikó Enyedi – que, depois de 18 anos sem filmar uma longa-metragem, vê o seu regresso com este Corpo e Alma vencer o Urso de Ouro em Berlim e entrar na shortlist das nomeações para Óscar de melhor filme estrangeiro. É um “conto de fadas” que vai de encontro ao percurso discreto mas persistente do cinema húngaro recente pelo circuito de festivais e de distribuição alternativa, que já trouxe a Portugal filmes de Bence Fliegauf, Kornél Mundruczó ou Györgi Pálfi – e, embora Enyedi seja mais contemporânea da geração anterior de Béla Tarr ou István Szábo, Corpo e Alma está muito próximo da estranheza alegórica e urgente destes jovens cineastas. Aliás, o próprio início do filme, que tem como ponto de partida um matadouro, remete para o Deus Branco de Mundruczó (2014), antes de perseguir uma direcção completamente diferente: um quebra-cabeças abstracto, elíptico, que reúne dois solitários, duas almas perdidas que trabalham no matadouro. Endre, o veterano director financeiro, e Mária, a nova inspectora de qualidade, têm feridas profundas que talvez nunca sarem, mas têm também sonhos em comum. Literalmente: à noite, eles sonham exactamente a mesma coisa, como se o universo lhes estivesse a querer dizer qualquer coisa, a eles os dois, a juntá-los, a dizer-lhes que foram feitos um para o outro.

Corpo e Alma é um filme Hanekianamente entomológico, formalista até dizer chega, meticulosamente montado e que atira para o ar uma quantidade de ideias absolutamente fascinantes sobre a condição e as relações humanas. Mas é também um filme profundamente estranho, no duplo sentido da estranheza procurada e de uma estranheza intrínseca com a qual o espectador tem dificuldades em se engajar. Mária, a que Alexandra Borbély dá uma presença quase alienígena, próxima da Scarlett Johansson de Debaixo da Pele, é um ser tão magoado, tão fechado sobre si próprio na sua fastidiosa obsessão pela precisão que contamina todo o filme; Enyedi filma com um virtuosismo que se aproxima do gélido, mas ao mesmo tempo com genuíno interesse e amor pelas suas personagens, e faz o espectador sentir a solidão que lhes vai na alma. O seu filme é, de certo modo, ele próprio um “conto de fadas” moderno, duro, perversamente perturbador, mas contado com uma inteligência artística que deixa muito rapidamente pelo caminho quaisquer medos de que a sua repercussão internacional se devesse apenas ao exotismo da sua origem. Há cabeça em Corpo e Alma, mesmo que o filme apele mais ao cerebral do que ao emocional.