Picos de interesse sexual coincidem com o Natal

Setembro, nove meses após o Natal, é o mês com mais nascimentos de bebés nos países ocidentais do hemisfério Norte. Estudo foi coordenado por investigadores do Instituto Gulbenkian de Ciência e usou dados das redes sociais e de pesquisa online para demonstrar o aumento do interesse no sexo.

Fotogaleria
Toby Melville/Reuters
Fotogaleria
Em Setembro nascem mais bebés nos países do hemisfério Norte. Porque passaram nove meses desde as épocas festivas do Natal e passagem de ano e o seu, agora cientificamente provado, espírito fértil REUTERS/Jorge Silva

“Amor em tempos de festa” é o título do comunicado de imprensa sobre o estudo publicado nesta quinta-feira na revista Scientific Reports onde uma equipa de investigadores do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC) e da Universidade de Indiana, nos EUA, esclarece algumas questões sobre os padrões de reprodução humana. O artigo científico tem um título menos apelativo mas mais esclarecedor sobre as conclusões desta investigação: “Os ciclos de reprodução humana são guiados pela cultura e coincidem com estados de espírito colectivos”. Ou seja, em Setembro nascem mais bebés nos países do hemisfério Norte. Porquê? Porque passaram nove meses desde as épocas festivas do Natal e passagem de ano e o seu, agora cientificamente provado, espírito fértil.

       Uma investigação com dados de 130 países que incluiu 10% das publicações públicas feitas no Twitter, entre 2010 e 2014, e de pesquisas online de termos relativos a sexo feitas entre 2004 a 2014, afasta uma explicação biológica para o pico de nascimentos registados em Setembro e substitui a raiz deste fenómeno por questões sociais.     

“Analisámos 10% de todos os tweets no mundo durante o período de Setembro de 2010 a Fevereiro de 2014. Durante este período, o Twitter registou em média 500 milhões de tweets por dia. Isto resulta em mais de 80 mil milhões de tweets analisados por nós”, precisa ao PÚBLICO Luís Rocha, investigador do IGC que se encontra a trabalhar também na Universidade do Indiana. No trabalho, adianta ainda o cientista, a equipa  “não seguiu contas de utilizadores específicos, mas sim 10% do volume total de tweets que o próprio Twitter disponibilizou aleatoriamente ao nosso grupo”. 

Em relação às procuras por sexo na Internet, a investigação apoiou-se num serviço oferecido pelo Google, chamado Google Trends, que permite conhecer como variam as pesquisas por determinado termo ou tema, ao longo do tempo e em muitos países. Com a análise dos padrões de pesquisa, foi fácil perceber que o interesse em sexo não é uniforme ao longo do ano. 

“Até agora pensava-se que o pico nas concepções se devia a uma adaptação biológica aos dias curtos e frios de Inverno, uma vez que nos países do Norte o solstício de Inverno ocorre em Dezembro. Contudo, a inexistência de dados precisos de diferentes partes do mundo não permitia testar esta hipótese”, refere o comunicado do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), em Oeiras, sobre o estudo.

A hipótese da adaptação biológica não foi testada neste estudo mas, em vez disso, os investigadores procuraram algo preciso, o interesse por sexo, na maior fonte de informações que existe actualmente: a Internet. “É relativamente fácil encontrar registos de nascimento fiáveis em países ocidentais do hemisfério Norte, mas isso não é necessariamente verdade no resto do mundo. Isto tem enviesado as análises feitas, limitando-as a  uma região e cultura, e condicionando fortemente o nosso conhecimento do mundo. No entanto, hoje em dia toda a gente usa a Internet e as redes sociais, independentemente da sua localização ou cultura. Esta realidade está a gerar dados muito úteis para investigação”, explica Joana Gonçalves Sá, investigadora no Laboratório de Ciência e Política do IGC, no comunicado.

Foi assim que chegaram à conclusão de que, afinal, será a cultura e os estados de espírito colectivos que parecem guiar os comportamentos das pessoas em determinadas alturas mais festivas do ano e que, mais tarde (especificamente nove meses mais tarde), podem ter consequências.

A análise da equipa coordenada por investigadores do Instituto Gulbenkian de Ciência e da Universidade do Indiana não podia ser mais oportuna. A conclusão, que para alguns pode servir de aviso, é que o interesse no sexo atinge um pico nas alturas de celebrações culturais e religiosas e que a prova (teórica) disso está num maior número de pesquisas da palavra “sexo” e outros termos sexuais na Internet. A outra prova, prática, encontra-se – como já dissemos – no aumento de registo de nascimentos em Setembro.

PÚBLICO -
Foto
Guilherme Marques

“Inicialmente fizemos um estudo de muitos termos, mas provámos que procurar apenas pela palavra 'sexo' é um substituto óptimo para procuras sobre sexo, pornografia, isto é, o padrão da procura da palavra 'sexo' está altamente correlacionado com outras procuras relacionadas com sexo, por isso basta usar a procura sobre esta palavra”, explica Luís Rocha. Não sabemos quantas vezes as pessoas pesquisam a palavra sexo nesta altura, porque o Google não publica o volume exacto de procuras sobre determinada palavra, mas apenas a proporção da procura dessa palavra em relação a todas as outras. No entanto, confirma-se “um grande pico na proporção da palavra 'sexo' no Natal em relação a outras semanas”, sublinha Luis Rocha, adiantando ainda que “a diferença entre o Natal e uma semana “normal” está entre os 10 e os 20%”.

O comunicado da Universidade do Indiana salienta que as pesquisas de análise sentimental nas publicações no Twitter revelaram que existem alturas do ano em que as pessoas parecem partilhar um sentimento de felicidade, calma e segurança. E que, nessas alturas, o interesse online em sexo também aumenta. Curiosamente, este efeito não terá sido confirmado na época do Dia de Acção de Graças (que se celebra nos EUA na ultima quinta-feira de Novembro) nem na Páscoa.

Este lado fértil das celebrações – ou “disposição para amar”, como refere o comunicado – foi observado em duas culturas diferentes, com picos no Natal, na maioria dos países cristãos, e no Id al-Fitr (que marca o fim do jejum do Ramadão) na maioria dos países muçulmanos. O caso da celebração muçulmana é ainda mais significativo, uma vez que não ocorre na mesma data todos os anos e percebeu-se que o efeito acompanha as variações de data, confirmando um padrão cultural.

Assim, os investigadores “viram que estes padrões cíclicos eram mais semelhantes entre países que partilhavam a mesma tradição cultural do que entre países com a mesma localização geográfica”, nota o comunicado do IGC, adiantando que “países como a Austrália ou o Brasil tinham padrões semelhantes quando comparados com países do hemisfério Norte como Portugal, Alemanha ou EUA”.

PÚBLICO -
Foto
O investigador Luís Rocha Sandra Ribeiro/IGC

Os excessos do fim do ano?

Por outro lado, notam ainda, os padrões da Turquia ou do Egipto diferem de outros países do hemisfério Norte, mas têm um comportamento online semelhante à Indonésia, um país muçulmano do hemisfério Sul. Em resumo, é a cultura (ou as festas, se preferirem) que importa e não a geografia. “Os nossos resultados sugerem que os ciclos de reprodução humana dependem do estado de espírito colectivo das sociedades. O Natal e o Id al-Fitr são feriados religiosos orientados para a família, que geram nas pessoas um estado de espírito mais feliz e calmo, o que provavelmente resulta num maior interesse por sexo”, diz Joana Gonçalves Sá.

No comunicado da universidade norte-americana, Luís Rocha avança com uma hipótese muito semelhante mas ligeiramente mais concreta: “Talvez as pessoas sintam uma maior motivação para aumentar a família durante estes feriados quando a ênfase é colocada no amor e presentes para crianças. A época do Natal também está associada a histórias sobre o menino Jesus e a sagrada família, que poderá colocar as pessoas num espírito mais amoroso, feliz e familiar.”

Apesar das possíveis explicações mais dirigidas para o espírito da época, não será também de desprezar o facto de esta ser uma altura que comprovadamente está associada a outro tipo de excessos, nomeadamente, no consumo de bebidas alcoólicas e que também poderá contribuir para uma disposição mais… “amorosa”. E se o Natal não servir de desculpa, na semana seguinte, surge a festa de passagem de ano. Sendo certo que as crianças concebidas nessa altura também podem nascer ainda em Setembro.

PÚBLICO -
Foto
Joana Gonçalves Sá, investigadora do Instituto Gulbenkian de Ciência Sandra Ribeiro/IGC

Luís Rocha admite que o estudo “não consegue separar muito bem a influência do Natal e do fim do Ano por estarem tão próximos”, até porque, nota, as “pesquisas semanais que usamos, em alguns anos incluem as pesquisas do Ano Novo”. Porém, o investigador separa as águas entre culturas: é que se podemos considerar o Natal e Ano Novo como inseparáveis nos países cristãos, é preciso ressalvar que em países muçulmanos a celebração do Id al-Fitr “não está de todo ligado aos excessos do fim do ano no Ocidente e temos o mesmo fenómeno”.

Assim, seja porque os dias são mais curtos e frios, seja pelos festejos mais ou menos “regados”, seja pela fruição de um espírito mais feliz e calmo nesta altura do ano, o facto é que esta investigação mostra que o interesse por sexo aumenta nesta época. E que tem consequências nas estatísticas, nove meses mais tarde.

Quanto às possíveis reservas de um trabalho apoiado nos dados (que sabemos serem tão frágeis e manipuláveis) que existem na Internet, Luís Rocha responde: “Este é um caso onde as redes sociais e dados de pesquisa online nos ajudaram a resolver uma questão que tem estado em debate no meio científico há muitos anos. Estes novos ‘macroscópios’ online ajudam-nos a olhar para a sociedade a uma grande escala, e isto vai mudar a forma como estudamos o comportamento humano.” 

Exemplos? Luís Rocha que explorar este género de análise para estudar problemas de saúde pública. “Estamos a analisar interacções entre fármacos, bem como factores aliados a determinados problemas neurológicos (depressão, epilepsia, abuso de opiáceos) nas redes sociais (Instagram, Facebook, Twitter). Mas queremos também continuar a aperfeiçoar a medição do sentimento colectivo online, como forma de estudar vários problemas sociais de uma forma mais quantitativa do que tem sido até aqui possível.”

Joana Gonçalves Sá também tem planos para colocar esta ferramenta ao serviço da investigação. “O grupo  que coordeno também tem um grande interesse em saúde pública e tem usado redes sociais e pesquisas no Google para antecipar surtos de doenças (como a gripe)”, adianta a cientista. E deixa ainda uma dica que nos pode despertar a curiosidade: “Estamos agora a desenvolver um projecto que nos permite uma monitorização mais alargada de estados de ansiedade na população em geral, e as suas possíveis consequências a nível político.” A possível sequela do “amor em tempo de festas” com algo como “política em tempo de ansiedade” promete ser uma história interessante mas menos divertida do que a que os cientistas reservaram para nos contar este Natal.