Opinião

5G, como e quem irá financiar as autoestradas

Existem expetativas diferentes para o impacto da quinta geração móvel versus as anteriores.

Desde os anos 80 que a evolução tecnológica tem um desenvolvimento sem precedentes e impacto exponencial em diversas áreas. A mudança dos hábitos, a estratificação com uma clara separação de gerações e os impactos socioeconómicos são o rosto mais visível do avanço e inovação tecnológica.

Quando centramos o nosso olhar nos operadores de telecomunicações, mais concretamente, é percetível um ciclo de dez anos entre a afirmação massiva de novas tecnologias móveis. Com o início da primeira geração na década de 80 e com a massificação da quarta a partir de 2010, é expetável que a quinta geração, 5G, chegue em 2020. De referir que 2020 coincide com o fim do projeto de pesquisa METIS, co-fundado pela Comissão Europeia, e que visa o desenvolvimento estratégico do 5G na Europa.

Existem contudo expetativas diferentes para o impacto da quinta geração móvel versus as anteriores. Tudo por se acreditar que a mesma representa mais uma disrupção tecnológica do que uma evolução do 4G.

Os diferentes “players” do sector afirmam que a redução significativa da latência, o aumento da largura de banda, a capacidade de gerir mais conexões, a evolução significativa da capacidade de “upload”, o aumento da autonomia das baterias dos terminais e, ao mesmo tempo, a garantia de uma maior mobilidade são razões suficientes para entramos numa nova era tecnológica. Ou seja, é esperado que o 5G, além de dar continuidade às gerações anteriores, no sentido de fazer parte da vida diárias das pessoas, impacte todos os sectores, desde a indústria à saúde, passando pelos transportes, “OTTs” ou energia.

A base desta crença é que a tecnologia 5G está mais do que nunca orientada a serviços, ao invés de voz e dados tradicionais, potenciando a transformação dos diferentes sectores e indústrias que à data vivem mais ou menos isolados.

É então neste vértice que se levanta um dos pontos críticos desta mudança e que está relacionado principalmente com modelos de investimento.

Da experiência passada percebe-se que o resultado de um maior ou menor investimento por parte dos operadores impactava diretamente o próprio negócio, oferta e competitividade no mercado. Com este padrão como base, os operadores estavam acostumados a uma análise ROI tradicional, não aplicável a 100% no 5G.

Referir, por exemplo, que a massificação da tecnologia móvel poderá ter um retorno mais imediato em indústrias e sectores paralelos do que no próprio operador, que iniciou e suportará grande parte do investimento.

Se extrapolarmos este cenário por exemplo para um OTT, rapidamente percebemos que existem um sem fim de oportunidades a serem imediatamente exploradas por via da chegada do 5G que permitirão alavancar novas soluções, produtos e, como tal, receitas. Ainda mais quando os OTTs têm o benefício de atuar num mercado totalmente aberto, sem regulação, numa escala verdadeiramente global, sem fronteiras geográficas e com acesso a milhões de clientes.

Da mesma forma, casos como o do sector da saúde, com a possibilidade de acesso a cirurgias remotas em tempo real, da indústria, com a realidade virtual ou aumentada, dos media, com a massificação do 4K e diferentes opções de apresentação, ou transportes, via condução assistida ou autónoma, encontrarão novas formas de se apresentar no mercado e retirar dividendos.

Assumindo estas premissas, e centrando-nos novamente nos modelos de negócio dos operadores, antevê-se a necessidade clara de atuação a dois níveis. Por um lado, procurar novas formas de monetização da tecnologia “per si” junto das várias indústrias e sectores, e por outro lado abrir espaço a parcerias estratégicas para adoção em tempo útil de soluções de “IoT”, automação, realidade aumentada/virtual, segurança ou “analytics” que rapidamente enriquecerão o portefólio de oferta.

Assim fica assente a necessidade de transformar os modelos de negócio mais tradicionais, maioritariamente alavancado pelo negócio residencial ou pela oferta de conectividade, para modelos mais complexos e disruptivos.

Ao percorrer este caminho, os operadores garantem também que o segmento residencial manterá a sua competitividade, sem impacto nos orçamentos familiares, sendo uma boa notícia para todos nós.  

Certo é que a partir de 2020, e com a massificação do 5G, os carros têm a possibilidade de ser autónomos e não precisarão de nós. Possivelmente os mais irreverentes deixar-nos-ão alguns anos após a chegada do 5G. Resta saber como e quem pagará as autoestradas de acesso, o 5G.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico