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A app que chegou para ajudar a passar “o papão” da Medicina

Um médico e um estudante de Medicina da Universidade do Porto querem ajudar os colegas a "simplificar o processo de revisão de conteúdos" para o temido Harrison. Com a HarriFlash, uma aplicação gratuita, prometem poupar muitas horas de estudo

Ainda na semana passada, Bruno Guimarães e José Miguel Diniz estavam à conversa com dois estudantes do sexto ano de Medicina. Um deles perguntava: "Então, e tu, quantos dias de férias tiraste?" Ao que o outro terá respondido: "Tirei dois! Um porque fui a um concerto e depois outro no dia dos meus anos”, ri-se Diniz, 21 anos, ao contar a história. O jovem é a metade da dupla de investigadores em Educação Médica do Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (CINTESIS) que ainda não passou pelo ano de estudo para a prova nacional de acesso à formação médica especializada — o temido e muito contestado Harrison.

 

“Estamos a falar de pessoas que ficam mais de um ano isoladas só a estudar, doze horas todos os dias”, continua o estudante do quarto ano da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Bruno Guimarães, 28, médico especialista em Medicina Física e Reabilitação, a especialidade que queria, sabe bem o que isso é. “O meu ano [em que fiz o exame] coincidiu com o primeiro ano em que ficaram colegas de fora no acesso à especialidade. E isso tem causado muitos problemas, até quanto aos níveis de stress que os alunos atingem”, explica. “Com a pressão de não ficar de fora da especialidade que queriam, ou até de todas, estudam mais vezes, mais horas e isso não é necessariamente um estudo melhor”, avisa.

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José Miguel Diniz, 21 anos e Bruno Guimarães, 28, são os criadores da HarriFlash Manuel Roberto

Preocupados “com a forma como os estudantes de Medicina estudam” e à procura de soluções mais eficazes, os dois fundadores da Adhara, uma spin-off do CINTESIS com chancela da Universidade do Porto, criaram a HarriFlash, uma aplicação gratuita, para iOS e Android, que promete poupar horas de estudo a quem se prepara para o exame nacional que empresta metade do nome à app — a outra metade deve-se aos flashcards (uma espécie de "cartões" que compilam ideias-chave), o método escolhido para rever os principais conteúdos dos cinco módolos testados: gastrenterologia, cardiologia, pneumologia, nefrologia e hematologia. 

 

A nossa ideia foi sempre apresentar uma forma de aplicar tecnologias que já são utilizadas todos os dias e simplificar o processo de revisão, tornando-o mais intuitivo, automatizado e personalizado”, descreve Diniz. “Uma das principais queixas durante o período de revisão é que os estudantes se perdem nas milhares de páginas de estudo, porque não têm conteúdos oficiais de apoio nem feedback sobre a evolução do seu desempenho”, complementa Bruno. “Por exemplo, nós n'Os Maias temos à volta de 500 páginas das quais 200 são descrições", estima. "Se nós passássemos essas 200 páginas à frente, provavelmente continuaríamos a ter uma excelente história, mas muito mais breve e fácil de ler e reler. E é um bocadinho esse o nosso princípio."

 

“[Muitas vezes] nós estamos a estudar com o livro e o livro simplesmente não fala connosco. E esse feedback que faltava é muitíssimo proveitoso”, exemplifica Bruno. Com a aplicação, de forma interactiva e quase automática, o estudante consegue organizar e saber quais os temas em que apresenta maiores dificuldades. São estes que mais vezes irão surgir durante o estudo, ao passo que os conhecimentos mais consolidados irão ser revistos menos vezes. “Cada utilizador dedica o tempo que desejar, tempos mortos, no metro, depois das aulas, onde quer que esteja, às questões que mais lhe importam”, diz Diniz.

 

Em 2019 vão apagar a luz ao "papão"

Até agora, estão disponíveis na HarriFlash mil perguntas das últimas provas nacionais de seriação (actualizadas para a 19.ª edição do manual, que saiu em 2016) e cerca de doze mil "cartões", número que vai aumentar já esta semana quando for lançado o módulo de cardiologia que, sozinho, terá cerca de seis mil flashcards. “É uma prenda de Natal para os utilizadores”, brinca Bruno, acrescentando que a aplicação conta, para já, com cerca de 3500 instalações e está em constante actualização.

 

Em Novembro último, cerca de 2700 estudantes realizaram o exame, sendo que apenas existem perto de 1700 vagas distribuídas pelas diferentes especialidades. Os alunos que vão realizar a prova em 2018, o último ano antes de esta ser reformulada, já começaram a estudar e os investigadores contam que estes já estejam a utilizar a app. “Estimamos que cerca de 90% dos estudantes que vão fazer a prova fizeram o download.”

 

O exame actual vigora há 40 anos e é muito contestado, tanto pelos estudantes como pelos profissionais de medicina. “Basicamente estudamos seis anos e temos uma média de final de curso que apenas é usada como critério de desempate em caso de igualdade de nota deste exame”, denuncia o médico que está a doutorar-se em Medicina na FMUP, com um projecto sobre o uso de novas tecnologias no ensino da anatomia. “Imagina: vou fazer a prova com o Diniz, temos ambos 90%, chegamos ao final e a nossa média de curso desempata.” 

 

O diagnóstico? “Uma prova que se está a tornar cada vez mais específica ao ponto de perguntar percentagens e conhecimentos muito minuciosos que praticamente não contribuem para a prática do médico, mas sim para ser uma prova muito objectiva, para diminuir o grau de contestação”, explica.

 

O novo modelo já está delineado e objectivo é que, em 2018, haja um primeiro teste-piloto para que, no ano seguinte, o exame Harrison veja, oficialmente, “o seu óbito declarado”. Em 2019, a prova passará a ter 150 perguntas com resposta de escolha múltipla que partirão sempre de um caso clínico e, mais do que a capacidade de memorização, vai ser testado o raciocínio clínico. É já este exame que José Miguel Diniz terá de superar. 

 

“Ainda não sei qual vai ser a especialidade, estou muito aliciado por este tipo de trabalho relativamente incomum em Portugal, que é o trabalhar em prol da medicina sem ser só através da profissão tradicional do médico”, afirma o estudante que, ao contrário do colega, demorou até perceber o que seguir. "Houve ali uma fase, entre workshops de dança, teatro, astrofísica, inovação e a medicina que eu não sabia bem se queria ser o Billy Elliot ou o Elon Musk", ironiza. Escolheu ser médico e, até à data, com uns passos de dança pelo meio, não se arrepende. “Medicina foi a melhor decisão que poderia ter tomado porque tem uma causa: tratar pessoas que assumem que precisam da nossa ajuda. E acho que isso é a causa mais nobre que poderíamos vir a servir.”

 

“Por isso é que nós queremos que os estudantes sejam, acima de tudo, bons médicos, independentemente de serem os quinquagésimos ou os milésimos na ordenação. E com a HarriFlash oferecemos uma oportunidade para que, em vez de ficarem até às 2h a estudar, fiquem até à 1h ou à meia noite”, diz Diniz, bem-disposto, mesmo sabendo que o “papão”, como lhe chama, está para chegar.