Rinoceronte-de-samatra está “por um fio” — mas o problema já começou há milhares de anos

Uma equipa de investigadores descodificou o genoma desta espécie e descobriu que há 900 mil anos o número de rinocerontes-de-samatra diminuiu significativamente. Hoje, pensa-se que existam menos de cem.

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Um rinoceronte-de-Samatra fêmea num parque nacional da Indonésia REUTERS/Supri Supri

Um grupo de cientistas desvendou, pela primeira vez, o genoma completo dos rinocerontes-de-samatra – um dos mamíferos mais ameaçados do planeta – e isso permitiu-lhes compreender melhor a forma como a população foi decrescendo ao longo dos tempos. O problema começou há muito, muito tempo: a população destes rinocerontes começou a diminuir há quase um milhão de anos, depois de uma grande Idade do Gelo, que levou à diminuição (e alteração) dos seus habitats.

O estudo que revela estas conclusões foi publicado na quinta-feira na revista científica Current Biology. “A espécie do rinoceronte-de-Samatra está por um fio”, alerta o investigador Terri Roth, um dos autores do estudo. “Precisamos de fazer mais para os salvar”. Em 2011, estimava-se que existiam cerca de 250 indivíduos à solta; a WWF estima que existam agora menos de 100 rinocerontes-de-Samatra (Dicerorhinus sumatrensis), que habitam no Sudeste asiático. “Esta espécie tem estado no seu caminho para a extinção há muito, muito tempo”, disse Terri Roth.

Os investigadores estimam que os rinocerontes-de-samatra tenham estado no seu auge há cerca de 960 mil anos, quando a população chegava aos 57.800 indivíduos. Mas, segundo os dados obtidos a partir do genoma do rinoceronte, a população diminuiu para cerca de 700 rinocerontes há uns 900 mil anos – altura que coincide com o Pleistoceno (período compreendido entre há dois milhões e 12 mil anos) e uma grande Idade do Gelo.

Com o aumento do nível das águas do mar, o número de habitats dos rinocerontes (assim como de outros mamíferos de grande porte) diminuiu. Segundo o Science Daily, o estudo dá a entender que “as alterações climáticas do passado reduziram a diversidade genética dos rinocerontes-de-samatra, deixando-os ainda mais vulneráveis às pressões posteriores da actividade humana”.

“Os dados da sequência do genoma mostraram que o Pleistoceno foi uma montanha-russa para as populações dos rinocerontes-de-samatra”, explica um dos principais autores do estudo, Herman Mays Jr., da Universidade Marshall, nos EUA. “As populações [destes rinocerontes] foram ao fundo e nunca mostraram sinais de recuperação.”

A amostra de material genético utilizada no estudo veio de Ipuh, um conhecido rinoceronte macho que viveu durante 22 anos no jardim zoológico de Cincinnati, nos Estados Unidos, ainda que fosse originário da ilha indonésia de Samatra — morreu em 2013. A partir de uma única amostra genética, os cientistas conseguiram traçar qual a dimensão da população ao longo dos anos.

O rinoceronte-de-samatra é o mais pequeno das cinco espécies que existem, várias delas também em vias de extinção — e uma das razões é a caça ilegal pelos seus chifres.