Opinião

Ninguém sabe por que é que torradas de carcaça são injustamente preteridas mas chegou o tempo de celebrá-las

Como quase todas as carcaças são más, é preciso insistir naquelas que são feitas à mão em forno de lenha. Custam 15 cêntimos cada uma e dão duas torradas formidáveis: uma das grandes pechinchas do nosso tempo

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Ricardo Lopes

As coisas simples são as mais difíceis e leva uma vida inteira aperfeiçoá-las. As que dão mais luta são aquelas que, nas versões mais banais, não são más de todo.

A torrada, por exemplo. A não ser que se queimem, não há torradas completamente más. É por causa disso que o critério para avaliar torradas é tão liberal. Como quase todas as torradas são deliciosas, não nos damos ao trabalho de tentar aumentar a delícia.

No entanto, uma torrada, como uma chávena de café, pode e deve ser trabalhada até ser excepcionalmente boa. É o que tenho feito desde que acabou o Verão.

Em primeiro lugar, é a torradeira. Consultadas as várias revistas imparciais de defesa do consumidor (a Which britânica e congéneres) chega-se à conclusão que cada marca que fabrica uma boa torradeira fabrica também muitas más — e que só por rara coincidência é que as mais caras são as melhores.

As torradeiras mais giras (como a Dualit) são quase sempre, para além de mais caras, piores. O que quer isto dizer? Que os preços nada explicam: temos mesmo de perder duas ou três horas a investigar.

São raras as torradeiras que admitem fatias grossas de pão. Muitas dizem que têm entradas generosas mas mentem. Caso se queira torrar meias-carcaças é indispensável comprar uma torradeira onde elas caibam. Aquela que acabei por comprar — e recomendo, depois de muito usar — é uma chinesa, a Bella Diamond, que custa à volta de 50 euros.

Infelizmente, não há torradeiras boas que só torrem uma fatia de cada vez. A maioria, aliás, torra quatro. Com uma torradeira de duas fatias os resultados são sempre melhores quando se torram duas fatias. Torrando só uma fatia nunca fica perfeita.

As primeiras duas torradas não só demoram mais tempo como variam por causa da idade, qualidade e humidade do pão. Idealmente servem para afinar a torra do segundo par.

Outro preconceito com as torradas é achar que o pão ganha em ser menos fresco, só porque torra mais depressa, tendo menos água. É mentira. A torrada é melhor quando o pão é mais fresco. As pessoas torram o pão velho para recuperá-lo e disfarçá-lo. E preferem comer o pão cru (por assim dizer) quando está fresquinho. Mas a verdade é que, como acontece com quase todos os alimentos, o pão é sempre melhor quando está acabadinho de sair do forno.

O tipo de pão também é importantíssimo. Todo o pão se pode torrar — esta afirmação vale tanto como dizer que toda a fruta se pode cozer.

Em Portugal, para mim, a melhor torrada é feita com pão de carcaça.

Como quase todas as carcaças são más é preciso insistir naquelas que são feitas à mão em forno de lenha. Custam 15 cêntimos cada uma e dão duas torradas formidáveis: uma das grandes pechinchas do nosso tempo.

A única coisa que custa é encontrar uma padaria que trabalha assim. Felizmente ainda há algumas. Vale a pena descobri-las.

Quanto mais fresco o pão, mais tempo levará a obter uma torrada perfeita. As boas torradeiras permitem interromper a torra para observar as torradas e, o que é essencial, têm uma alavanca para levantá-las.

O melhor é ir torrando por acréscimos de 15 segundos. A manteiga tem de estar preparada, à espera das torradas. A manteiga ganha em ser amolecida para se poder espalhar mais depressa. Uma técnica de pastelaria portuguesa é pôr manteiga no rebordo da primeira torrada e depois passar para a segunda. Assim dá-se tempo à manteiga para derreter com o calor da torrada, permitindo que se espalhe, já líquida, para o centro.

A boa torrada de carcaça não precisa de mais nada. O queijo e o doce servem para salvar torradas imperfeitas. Se o pão for muito fresquinho e bom e a manteiga muito boa e fresquinha, aquilo que é preciso é resistir à tentação de complicar aquela maravilhosa simplicidade.

Como todas as simplicidades, dá imenso trabalho — mas isso faz parte do prazer.