A vida epistolar de Sylvia Plath é publicada para desafiar o mito

São quase 1400 cartas em dois volumes, a maioria inédita. O primeiro volume desta integral acaba de sair nos Estados Unidos e em Inglaterra e revela uma mulher ambiciosa, com sentido de humor, relação obsessiva com a comida, que gostava de moda e queria ser feliz.

<i>The Letters of Sylvia Plath</i> tem cartas que a autora de <i>Ariel</i> escreveu desde os oito anos até às vésperas da sua morte, 
a 11 de Fevereiro de 1963, quando aconchegou os dois filhos, fechou a porta da cozinha e pôs a cabeça no forno depois de ter ligado o gás
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The Letters of Sylvia Plath tem cartas que a autora de Ariel escreveu desde os oito anos até às vésperas da sua morte, a 11 de Fevereiro de 1963, quando aconchegou os dois filhos, fechou a porta da cozinha e pôs a cabeça no forno depois de ter ligado o gás

A perspectiva do leitor é sempre a da tragédia. Ninguém lê hoje Sylvia Plath alheio ao desfecho da vida da escritora que se suicidou aos 30 anos. Mesmo no momento em que se está perante uma carta feliz. "Querido amor Teddy... de hoje a uma semana estarei a apanhar o comboio muito cedo para te encontrar e começar a viver o meu 25º aniversário", escreveu a 20 de Outubro de 1956 ao marido, o poeta Ted Hughes, com quem casara em Junho desse ano depois de um fugaz e apaixonado namoro de pouco mais de três meses. Foi uma Sylvia também feliz a que escreveu à mãe a 25 de Fevereiro: "Conheci (...) um brilhante poeta ex-Cambridge (...). Provavelmente não o voltarei a ver (...) mas entretanto escrevi o meu melhor poema sobre ele: é o único homem que conheci forte o suficiente para se equiparar a mim; a vida é assim." Em Outubro, Sylvia começava o seu segundo ano em Cambridge, onde estudava graças a uma bolsa da fundação Fullbright, e Hughes trabalhava em Londres. Quase todos os dias se escreviam e em todas as cartas Sylvia demonstrava-lhe a sua paixão e a impaciência por viver longe dele.

As cartas de Sylvia a Ted estão no fim do primeiro volume de uma obra gigantesca que dificilmente será publicada em português e são o grande trunfo desta integral. The Letters of Sylvia Plath, com organização de Peter K. Steinberg e Karen V. Kukil, reúne 1400 cartas escritas por Sylvia Plath e dirigidas a mais de 140 pessoas. O primeiro volume acaba de sair nos Estados Unidos e em Inglaterra e torna públicas 838 dessas missivas em 1400 páginas organizadas cronologicamente. O segundo volume contempla a correspondência dos últimos cinco anos da vida de Plath, não deve chegar as 500 cartas, mas é aquele que reserva a maior curiosidade. Deverá sair no Outono de 2018.

A fazer a ponte entre o primeiro e o segundo volumes estão as cartas de Sylvia a Ted. "Amo-te e estou morta para estar contigo, deitada na cama contigo, beijando-te por toda parte & tendo apenas pensamentos selvagens & dando & beijando a tua querida e amada boca (...) Amo-te teddy teddy teddy e gostaria de estar contigo, de viver contigo...", escreveu a 19 de Outubro de 1956. Nessas cartas, estamos perante uma Sylvia mais apaixonada do que a dos diários, mas também de uma Sylvia consciente de estar ao lado de um homem volúvel. Numa carta a mãe, ela descreve-o como "um destruidor de coisas e de pessoas". É apenas um breve exemplo das extensas páginas onde lhe conta o seu dia a dia, descreve as paisagens por onde passa, traça planos de uma vida comum, confessa ambições, relata o trabalho, expõe dúvidas.

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Esse núcleo de 16 cartas onde Sylvia Plath se revela dominada por uma paixão invulgar foi disponibilizado por Frieda Hughes, a filha sobrevivente do casal – Nicholas suicidou-se em 2009 –, uma atitude que a própria justifica no preâmbulo deste volume, um texto que parece feito em defesa do pai. "Sempre foi minha convicção que a razão pela qual a minha mãe suscita o interesse dos leitores se deve ao meu pai, porque, independentemente do modo como o casamento de ambos terminou, ele honrou o trabalho da minha mãe e a sua memória ao publicar Ariel, a colectânea de poemas que a lançou no conhecimento publico, depois da sua morte. Ele, talvez mais do que ninguém, reconheceu e percebeu o seu talento extraordinário". Peter Steinberg agradece: "Eu estava muito nervoso por ter de falar com Frieda. Acho muito corajoso da parte dela escrever o que escreveu e estou muito grato por nos ter facultado as cartas a Ted Hughes. Foi um acto de confiança e de generosidade, dar ao mundo essas cartas privadas", admite numa conversa com o Ipsilon, confirmando a emoção que o segundo volume promete. "O segundo volume pode ser difícil para muitos leitores. Foi muito emotivo do ponto de vista editorial porque sabemos sempre o que está para vir. No fim do volume I, temos Sylvia Plath e Ted Hughes muito apaixonados e a começar uma bela relação e a criar uma parceria. Nós temos a perspectiva de já saber o que se segue, mas ler as cartas só por si é duro", salienta.

Neste, o dos primeiros anos de Sylvia, é preciso, pois, passar as mil páginas para chegar ao auge de um livro que, ao querer inclui tudo, é de leitura irregular e questionável quanto ao interesse que podem ter para o público todas as cartas de uma criança ou adolescente, por mais brilhante que tenha sido, sem passar pelo crivo da selecção ou edição. The Letters of Sylvia Plath tem cartas que a autora de Ariel escreveu desde os oito anos até às vésperas da sua morte ocorrida a 11 de Fevereiro de 1963, quando, separada de Ted há seis meses, aconchegou os dois filhos, Frieda, de três anos, e Nicholas, de um, fechou a porta da cozinha e pôs a sua cabeça no forno depois de ter ligado o gás. Ainda casada, Hughes herdou o espólio e entre a culpa e o dever moral, foi publicando a obra, então quase toda inédita, da mulher que conhecera seis anos antes e tinha uma ambição suprema: ser uma poeta aclamada. Em 1965, publicou Ariel, e em 1981 The Collected Poems, com toda a produção poética de Sylvia desde que o conheceu. Um ano depois, saiam The Journals of Sylvia Plath. A vida e a obra de Plath ficavam, assim, indissociáveis não apenas do suicídio, mas da depressão em que parece ter vivido parte da vida e, sobretudo, da relação com Ted Hughes. "Mergulhar neste trabalho foi ter acesso a um olhar muito íntimo sobre como Plath se relacionava e se comportava com determinadas pessoas: a mãe, os namorados, as amigas, o marido, os editores. Em cada pessoa com quem se correspondeu dá-nos uma visão única da natureza das suas relações", diz Peter Steinberg, o responsável por ler e digitar cada uma das palavras escritas por Sylvia Plath, um trabalho tão intenso, como capaz de mudar a sua visão da mulher que as escreveu. Um ser humano. Não uma lenda, não um mito. "Nas cartas temos tantas vozes diferentes e tantos aspectos diferentes da sua personalidade que dizer 'humano' é como que desafiar qualquer outra classificação. Não é apenas uma poeta, não é apenas uma irmã, não é só uma filha ou sobrinha. É tudo isso. É tudo o que cada um de nós também é. À medida que as pessoas vão lendo o livro ela vai ficando mais acessível", acrescenta este académico que descobriu a obra de Plath depois de um desgosto amoroso e teve uma ambição: contribuir para acabar com alguns estigmas e ajudar a ultrapassar o mito que surge inseparável de Sylvia.

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Um dos objectivos desta edição em dois volumes é ajudar a ultrapassar o mito que surge inseparável de Sylvia Plath

Temos Sylvia em relação a Ted Hughes, em relação ao pai, Otto Plath, que morreu tinha ela oito anos; Sylvia em relação à poesia, à ambição, à maternidade, à depressão, ao suicídio. Mas quem foi Sylvia além do que todos os biógrafos já escreveram e os intérpretes da sua obra têm afirmado? É uma pergunta que atravessa este livro em dois volumes, mas a que o livro não dá resposta, embora queira contribuir para chegar perto da essência dessa mulher que um dia disse à mãe que gostaria que a família tivesse orgulho nela, a visse como "uma pessoa versátil, responsável, feliz", mas que deixou uma sombra densa na sua passagem pela vida. "Sylvia Plath foi muitas coisas para muita gente: filha, sobrinha, irmã, aluna, jornalista, poeta, amiga, artista, namorada, mulher, romancista, colega e mãe; mas talvez a característica mais ignorada da sua vida é a de que foi humana e, enquanto tal, falível. Ela deu erros ortográficos, fez pontuação incorrecta, mentiu, citou mal, exagerou, foi sarcástica, e por vezes brutalmente honesta. Todos estes aspectos, e mais alguns, estão em Letters of Sylvia Plath", lê-se logo no início da introdução ao primeiro volume, como um quase aviso ao leitor de que ele, leitor, vai ser deixado só com o ser humano e não com o mito ao logo das centenas de páginas preenchidas por cartas reveladoras de uma complexidade que o mito, como qualquer mito, simplifica.

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Nas cartas, muitas delas ilustradas, há desenhos de alimentos, como há de modelos de vestidos e casacos, flores, gente a praticar desporto. Há nisso tanto de pueril quanto de manifestação de outros talentos

Subjacente a esta edição encontramos a ideia de autenticidade, que, alegam os organizadores, editores e colaboradores, dificilmente se encontra em todo o material escrito ou divulgado de e sobre Sylvia. As cartas estão transcritas tal qual foram escritas, sem edição ou qualquer espécie de contextualização, com minúsculas onde a norma estipularia o uso de maiúsculas, sublinhados, incorrecções. Como auxiliares de leituras apenas 3600 notas de rodapé que não procuram ser exaustivas. E os autores insistem num ponto: com esta edição integral das cartas estamos perante uma "autobiografia", "narrada pela autora através da sua correspondência". Afirmar isto no prefácio é outro desafio: uma autobiografia, e conhecendo melhor Sylvia Plath também depois destas cartas, teria decerto sido submetida a edição pela autora. Esta não foi. Frieda Hughes diz mais ou menos o mesmo no preâmbulo a esta edição: "Ela esta melhor explicada através das suas próprias palavras", sublinha, acrescentando que capta o espírito real do tempo em que viveu, bem como a sua "paixão pela literatura e vida – e pelo meu pai, Ted Hughes". Na senda dessa fidelidade, Peter Steinberg digitou cada erro, gralha, falha, incoerência em cada carta, deixando a nu toda a contradição e, subjacente, a ideia de construção: Plath escondia a autenticidade num jogo que dominava, o das palavras que alinhava de forma a ajustarem-se ao interlocutor. Era inautêntica ou a sua autenticidade era indissociável desse ser duplo que ela tão bem entendeu na obra com o mesmo título de Dostoiévski?   

Deixar tal qual Sylvia escreveu foi uma opção. "Tudo começou em 2012. A co-autora, Karen V. Kukil, recebeu um convite da editora para organizar um livro com as cartas de Plath e pediu-me para fazer o trabalho de transcrição", conta Steinberg, acentuando a intensidade da sua missão. Ele lera Letters Home, uma compilação das cartas de Plath editadas pela mãe em 1975 com o escrutínio de Ted Hughes. Consta que com isso, também ela queria humanizar a filha, resgatá-la da sombra da doença e do mito.

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Aqui, pelo contrário, esta tudo. "Li o volume de cartas de uma vez, nos anos noventa, e fiquei muito desiludido. Não voltei a trabalhar com as cartas de Plath", refere Peter Steinberg que chegou a Plath no que classifica como um momento infeliz da sua vida. "Foi em 1994, a minha namorada deixou-me e em consequência disso fui frequentar aulas de poesia. Lemos Lady Lazarus, Daddy e muitos outros poemas. Fiquei muito interessado em Plath e pedi ao meu professor mais informação; ele disse-me que não queria que eu lesse Plath. Nunca me deu uma razão, mas um dia um amigo levou-me à biblioteca e mostrou-me mais obras e quanto mais lia mais interessado eu ficava no trabalho e na vida dela. Lembro-me de muitos amigos me dizerem que isso era uma fase pela qual todos passavam. Já estou nessa fase há muito tempo, há 23 anos. Nunca pensei, é mais de metade da minha vida", diz Steinberg para justificar o mergulho profundo que foi este trabalho. "Foi ter acesso a um olhar muito íntimo sobre o modo como Plath se relacionava e se comportava com determinadas pessoas: a mãe, os namorados, as amigas, o marido, os editores, cada pessoa com quem se correspondeu dá-nos uma visão única da natureza das suas relações", continua um dos autores de uma obra que está a suscitar alguma polémica por isso mesmo: a pretensão de, ao incluir tudo, perder a força e interessar apenas a uns poucos investigadores. Mas nunca houve dúvidas quanto ao objectivo. Só não se sabiam a extensão das epístolas de Sylvia Plath, a remetente atenta. "Acho que algumas das cartas foram escritas de forma muito consciente, para uma audiência muito particular, soubesse ou não que alguém poderia trabalhar essas cartas no futuro. Não sei. Não sei quanto do que ali esta é uma representação, uma performance, ou quanto é só o produto natural da sua vida. Acho que os biógrafos no futuro vão ter muito mais para chegar perto do que foi Sylvia Plath quando trabalharem estas cartas em conjunto com os seus diários. Temos duas pessoas diferentes; nos seus diários estão os seus pensamentos privados e ela usa-os de formas muito distintas, com imaginação até, mas as cartas foram escritas não só para ela mesma, mas também para as pessoas a quem são endereçadas", refere.

E nesta fase da vida de Sylvia Plath, os seus primeiros 25 anos, a maioria é dirigida à mãe, Aurelia, com que manteve uma relação tão próxima quanto complexa. Cartas literárias, filosóficas, domésticas, íntimas ou meras descrições do quotidiano, são muitas vezes redundantes, mas demonstram a força que Sylvia acreditava ter. Ela não era apenas um ser depressivo, como, aliás, também sublinha Steinberg nesta conversa, salientando o sentido de humor que os leitores conhecem em A Campânola de Vidro, único romance de Plath, publicado pouco tempo antes da sua morte, e podem confirmar aqui. " É um humor muito eficaz", afirma Peter Steinberg. "Numa das primeiras cartas que enviou à família quando estava num campo de férias, ela conta que come muito. Vivia-se a II Guerra Mundial e havia racionamento. Ela escreveu que quando chegasse a casa podiam comê-la em substituição de porco." Steinberg ri. A comida parecia ser uma das obsessões de Plath. Nas cartas, muitas delas ilustradas, há desenhos de alimentos, como há de modelos de vestidos e casacos, flores, gente a praticar desporto. Há nisso tanto de pueril quanto de manifestação de outros talentos. A voz é outra vez de Steinberg: "Uma vez eu estava a falar com uma das melhores amigas de Plath sobre isso, as descrições de alimentos, e ela disse-me que havia sempre muita comida em casa dela e que a comida era sempre preparada com cuidado. Sylvia adorava comer e escrever sobre isso. Quando estava a recuperar da primeira tentativa de suicídio em 1953, 54 [tinha 20 anos] dava grandes jantares e a partir daí tornou-se uma cozinheira confiante; era também uma boa doceira."

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O investigador quer sublinhar o lado desarmante da escritora que o atraiu pelo modo como era capaz "de dar expressão, em prosa como em poesia, às suas experiências pessoais ampliando-as para uma dimensão universal", refere, e não se fica por aí. "É um talento incrível! Sempre me senti intimidado pela Sylvia Plath por ser uma artista tão genial que desde muito cedo sabia exactamente o que queria fazer. Sempre quis ser escritora e trabalhou muito para ser bem sucedida e chegar ao objectivo de ver o seu trabalho publicado. Mas com as cartas podemos ver os bastidores do que foi o desenvolvimento do seu carácter."

Voltamos à autenticidade. As cartas que revelam o que mais nada parece capaz, Sylvia por ela mesma, sem mediação. É o discurso dos editores que já sofreu fortes críticas em jornais como o Guardian ou o New York Times. Questionavam nada mais do que a extensão do livro e o interesse de grande parte das cartas. Sobretudo neste primeiro volume. Até chegar a Ted Hughes. O interesse surge a partir daí. Outra vez Ted. Sylvia em relação a Ted, na relação com Ted, na tragédia em que tudo terminou para ela quando ele foi viver com outra mulher.  O último volume é isso. As cartas de Sylvia nisso. O que trarão? Sobre o regresso a América, os filhos, e a ida para Londres, a decisão da morte. Neste livro, a ultima carta é dirigida a um editor americano; diz-lhe que ira aos Estados Unidos, que quer fazer tudo para que lhe publiquem a obra lá. No país onde nasceu a 27 de Outubro de 1932, Em Boston, Massachussets. Foi para lá que escreveu a primeira carta desta colectânea, ao pai, que morreria pouco depois.