Crítica

Divertimento para piano, guitarra, voz e muita arte

Músicos em perfeita sintonia, Mário Laginha e Tcheka apresentaram no palco do Teatro da Trindade, na noite de sexta-feira, um espectáculo admirável, de um prazer imenso.

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Mário Laginha e Tcheka no Trindade ADRIANO SILVA/INATEL
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Mário Laginha e Tcheka no Trindade ADRIANO SILVA/INATEL
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Laginha num momento a solo ADRIANO SILVA/INATEL
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Tcheka num momento a solo ADRIANO SILVA/INATEL
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Mário Laginha e Tcheka no Trindade ADRIANO SILVA/INATEL
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Mário Laginha e Tcheka no Trindade ADRIANO SILVA/INATEL

Mário já avisara do “prazer genuíno” que existe em fazerem música juntos, ele e Tcheka, mas só ao vê-los (e sobretudo ouvi-los) em palco se percebe o verdadeiro significado de tal aviso. Há um prazer evidente nesta partilha, feito de expressões, sinais, mas sobretudo de música. E apesar de parte considerável dos temas ali apresentados já terem sido gravados nos discos de Tcheka (cinco ao todo, desde 2003), todos eles renascem com nova alma e vigor desta parceria. Mário Laginha, pianista e compositor, “fã incondicional” de Tcheka (como reafirmou, ao público do Trindade), encontrou no seu parceiro cabo-verdiano, também ele compositor, um aliado criativo incrível.

Por isso, é verdade: mesmo quando não tocam originais já criados a dois, eles fazem música nova a partir de temas pré-existentes, porque o piano de Laginha e a guitarra e a voz de Tcheka fluem juntos numa harmonia torrencial (como torrencial é o modo de tocar deste último), levando-nos para territórios inesperados. O arranque, com Paja he he, já fruto da sua parceria, marcou desde logo o território: se no CCB, em 2016, se tinham apresentado em sexteto (Tcheka foi convidado de Laginha num concerto de Carta Branca), aqui, em duo, haveria uma maior liberdade e diálogo. E isso cumpriu-se, de forma admirável, ao longo da noite. Tcheka nas suas erupções vocais, do grito ao falsete, e na sua espantosa abordagem à guitarra, percussiva, sincopada, complexa; Mário Laginha numa sábia colocação do piano ao serviço do duo, às vezes “africanizando-lhe” as notas, outras recorrendo a vocalizos para melhor acentuar melodias ou rítmicas. Antuneku e Tchoro na morte antecederam Mizanga (um dos temas novos, não gravados) e Makriadu, antes de Mário e Tcheka ficarem, sucessivamente, a sós, o primeiro para um poderoso exercício pianístico, de acentuada rítmica, o segundo para cantar Madalena como só ele sabe. Depois veio Peito na peito, o primeiro tema do mais recente disco de Tcheka (Boka Kafé, 2017), seguido de Nu monda, Agonia e um tema de Tcheka que Mário Laginha adora, Rozadi Rezadu. Um segundo tema de Boka Kafé, que aliás deu título ao concerto, fechou a noite de forma entusiástica: Strada. O público que praticamente enchia a sala do teatro aplaudiu-os, de pé e com insistência, o que levou a dois encores: Ana Maria, do disco Lonji (de 2007), e mais um tema nascido do trabalho a dois.

A dada altura, Mário Laginha, interpelando a assistência, disse qualquer coisa como isto: “Não sei se repararam, mas nós estamos a divertir-nos imenso.” Era impossível não reparar. Grande parte do brilho da actuação de ambos deveu-se, certamente, a esse visível gozo de partilhar a música em palco como nos ensaios, em casa ou numa reunião de amigos; mas com um empenho profissional, reconhecível no resultado, de ali proporcionarem o melhor espectáculo possível.

Por isso, mais do que um concerto, foi um divertimento para piano, guitarra, voz e muita arte. Se a promessa de um disco a dois for cumprida, há-de ter muitos “pretendentes”. Assim seja.

P.S.: Com passagem também pelo Trindade, mas com maior frequência n’A Barraca, um outro duo merece atenção e aplauso. Não nestes espaços, onde terminou uma rodagem de dois meses, mas noutros palcos onde futuramente surja. Falamos da cantora (e também actriz) portuguesa Mariana Abrunheiro e do cantor e bandoneonista argentino Walter Hidalgo. O seu recital Los Pájaros Perdidos é uma pequena pérola de energia musical. Mariana está a cantar melhor do que nunca e Walter, seu parceiro nesta aventura, encanta pela poesia e pelas artes do bandonéon. Se surgirem um destes dias na agenda de espectáculos, tentem ir vê-los. Não se arrependerão.