Crítica

Uma roda gigante chamada desejo

Woody Allen mergulha nos histrionismos teatrais do grande teatro americano e, na linhagem de Match Point e Crimes e Escapadelas, arranca um dos seus grandes filmes recentes.

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Se Roda Gigante parece histriónico ou barroco, isso é deliberado por parte de Allen que compreendeu como esta história não se compadecia com as meias-tintas do realismo
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Talvez não exista um título mais apropriado para esta fase da carreira de Woody Allen do que Roda Gigante – já há uns anos que domina a sensação do realizador andar, literalmente, “à roda”, em círculo, umas vezes mais inspirado outras menos mas sempre sem sair das coordenadas que lhe são já reconhecidas. Roda Gigante, felizmente, é um filme inspirado – e bastante inspirado por sinal, pelo grande teatro americano de dramaturgos como Tennessee Williams ou Eugene O’Neill, e pelas próprias questões existenciais que perseguem o Allen mais sério de Crimes e Escapadelas (1989) ou Match Point (2005). Depois do bastante subvalorizado Cafe Society (2016), Allen volta a ancorar o novo filme no passado, neste caso na Nova Iorque dos anos 1950 e mais especificamente no enorme parque de diversões ao ar livre de Coney Island, onde instala uma pequena tragédia familiar entre os feirantes.

Ginny (Kate Winslet), actriz frustrada e criada numa marisqueira, vai gerindo como pode a responsabilidade de aguentar de pé uma família disfuncional, entre um filho um pirómano em construção e um segundo marido operador de carrossel e alcoólico em recuperação. No meio do caos cai Carolina (Juno Temple), a enteada, em fuga do mafioso com quem casou e que a quer mandar desta para melhor, à procura de um poiso para refazer a vida. A coisa, escusado será dizer, vai dar para o torto quando as duas mulheres dão por si atraídas por um dos salva-vidas das praias da zona (Justin Timberlake).

Winslet, em grande forma, torna Ginny numa mulher desesperadamente romântica, disposta a tudo para fugir ao destino que a parece tolher, algures entre a Blanche Dubois do Eléctrico Chamado Desejo e o Terry Malloy de Há Lodo no Cais (“I coulda been a contender...”). E é nesse jogo de referências entre o palco, o écrã e a vida que Allen ganha Roda Gigante. A história que criou pode limitar-se a baralhar as mesmas cartas e dá-las de novo, mas tem algo de estufa claustrofóbica ampliada pela cenografia do apartamento como uma espécie de palco teatral onde tudo se revela; o salva-vidas, também ele um romântico candidato à desgraça, tem aspirações a dramaturgo e às tantas oferece a Ginny as obras completas de Eugene O’Neill. Tudo se encaixa numa espécie de “meta-texto” onde a dimensão teatral da história está sempre presente mas é transcendida e prolongada pelo e para o cinema; as suas personagens são seres flagelados pelo destino, condenados a penar pelos erros que cometeram, arquétipos tirados das tragédias clássicas, numa mistura de praga judia e castigo dos deuses gregos (em ambos os casos, tópicos recorrentes no cinema de Allen). Se Roda Gigante parece por vezes histriónico ou barroco, isso é claramente deliberado por parte de um realizador que compreendeu como esta história não se compadecia com as meias-tintas do realismo – tal como a fantasia de Coney Island, exige as luzes e o neon, o simbolismo carregado e puxado ao limite, com riscos formais que não são habituais nos seus filmes.

Nada de novo, é certo, mas feito com uma inteligência e maturidade extraordinária que tornam Roda Gigante num dos melhores momentos da filmografia de Allen, digníssimo sucessor de Match Point e Blue Jasmine (2013).

P24 O seu Público em -- -- minutos

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