Dormir numa casa de banho com vista para o castelo

Um hotel que é uma casa de banho ou uma casa de banho que é um hotel? A inspiração é assumida e celebrada em todas as divisões da nova unidade lisboeta, mas não se espere a cosmética de um típico lavabo público. Esta é uma casa de banho sofisticada e singular. Como a rosa do Principezinho.

Foto

Se a sigla recortada a prateado na fachada deixar dúvidas — serão as iniciais infelizes do nome do proprietário? —, então que se olhe para as janelas do rés-do-chão. Através delas espreita sempre a mesma mulher: num banho de espuma, a silenciar-nos com uma venda nos olhos, enrolada numa toalha ou com uma touca de flores sobre os cabelos. As duas letras que dão nome ao novo hotel de Lisboa, inaugurado no final de Outubro, significam mesmo washing closet. Casa de banho. E há muito tempo que a ideia pairava na cabeça de Nini Andrade Silva, a designer de interiores responsável pelo conceito e pela decoração.

“Sempre quis fazer um hotel que fosse uma casa de banho de cima a baixo”, conta a designer madeirense, cujo atelier tem longo palmarés na hotelaria, incluindo o Figueira Beautique Hotel, o primeiro projecto do grupo, inaugurado em 2013 (há mais dois a caminho, ver caixa). “Quando chego a um hotel, vou sempre ver as casas de banho. São muito importantes para mim, porque são pontos que as pessoas não estão à espera”, afirma. Normalmente são meros espaços utilitários, reservados à higiene privada de cada um. Mas deles se pode aferir muito sobre a qualidade de um sítio, diz. E surpreender com um pormenor especial. “Acho importante que, quando uma pessoa pensa que já não há mais nada para ver, apareça uma coisa ‘Uau!’.” No WC Beautique Hotel, o factor do inesperado é levado ao extremo, com o “primeiro hotel que há no mundo” inspirado numa casa de banho.

Foto

Entramos e o balcão da recepção, à nossa frente, é composto por duas banheiras — duas metades, na verdade, que o espelho colocado no fundo dá a ilusão de estarem inteiras, aponta Nini Andrade Silva. Dois chuveiros enormes servem de candeeiros. Ouve-se o som de água a correr junto à parede, enquanto duas recepcionistas tratam do check-in envergando pijama azul claro e máscara de olhos sobre a testa. Só ao sábado e em ocasiões especiais é que trocam de indumentária: vestem roupão e toalha enrolada na cabeça. “Achei que não fazia sentido nenhum estar numa casa de banho vestida de forma normal, a não ser que estivesse para sair. Ora, se estão para ficar, deviam estar de pijama ou de robe”, ri-se a designer. Também ela nos recebe de pijama e de ténis no bar do hotel. É igual à farda do WC, em seda, com colarinho e botões de camisa, mas preto. “Eu gosto de conceitos diferentes e, dependendo do lugar onde estamos, pode ser ridículo ou passar a estar certo”, defende. Aqui, acredita, não só faz sentido como é uma roupa confortável e à qual ninguém fica indiferente. “É engraçado, porque quando as pessoas chegam levam aquele choque e isso é importante.”

Por vezes, o efeito prolonga-se. Nos últimos tempos, Nini Andrade Silva tem ficado alojada no hotel. “No outro dia, estava no quarto e pedi uma tábua para passar uma camisa e quem me levou estava vestida de robe e de toalha. Tive a sensação de que quem estava a servir era eu. Automaticamente pensei que ela é que estava no quarto e eu a chegar, foi uma sensação muito estranha”, recorda. “O mundo já é tão complicado, há tanta coisa a acontecer, que temos de dar sensações novas às pessoas”, defende. É que a vida, diz, é “para se levar alegremente”. E este é um “hotel alegre”, define. “Para gente jovem, não interessa a idade.”

A decoração é sobretudo inspirada em água, elemento imprescindível a qualquer tipo de casa de banho. Os tons turquesa e o reflexo dos espelhos inundam todas as divisões e o mobiliário ganha formas fluídas. Nos corredores, as paredes condensam gotículas de água como as portas dos duches e o chão parece revolver espuma entre o musgo, tal como antigamente acontecia nas linhas de água que corriam pela zona da Avenida Almirante Reis. A localização do hotel, aliás, não é indiferente à escolha do conceito. Não só por causa deste pormenor histórico, mas também pelo futuro que Nini Andrade Silva prevê para o bairro alfacinha. “Está tudo a acontecer nesta rua. Estão imensas pessoas a comprar prédios, os hotéis estão a começar a aparecer. Acredito que vai ser uma zona de cultura e de artistas, paralela à Avenida da Liberdade, mas com outro género de pessoas.” Por isso, este tinha de ser um hotel diferente e “um pouco irreverente” para “chamar a atenção”. Ainda tentaram convencê-la a mudar o nome, mantendo o conceito, mas insistiu. “As pessoas vão achar horrível ou bom, mas não ficam indiferentes.” Tanto que, ainda antes de o hotel ser inaugurado, pediu a um taxista para levá-la ao hotel WC e ele deixou-a à porta. No caminho, fizemos o mesmo teste, com igual resultado.

Foto

 

“Será seguro comer numa casa de banho?”

A aposta parece estar a ter o efeito desejado. No restaurante Banho, situado no piso -1, a sala começa a compor-se durante o jantar, apesar de ser uma quinta-feira chuvosa. Na ementa, elaborada pelo chef Hugo Landeiro, desfilam pratos inspirados nos produtos e receituário tradicional, como peixinhos da horta, caldeirada do mar com laranja do Algarve ou barriga de leitão com puré de funcho e couve portuguesa. Ao nosso lado, um casal comenta o conceito do hotel. “WC é só para chocar.” “Sim, é para chamar a atenção. Mas é bonito, gostei”, responde a mulher, olhando em volta. “Será que é seguro comer numa casa de banho?”, riem-se. “A decoração dá uma sensação de limpeza.” “É. É uma casa de banho limpinha”, atira o homem, para nova gargalhada. Os pratos chegam dentro de momentos, enquanto um grupo ocupa a mesa principal. Entram mais dois casais.

A verdade é que estamos constantemente a esquecer-nos que as casas de banho são a principal fonte de inspiração do hotel. Sim, há a analogia evidente na recepção. E, nas estantes, as boleiras não guardam guloseimas mas papel higiénico, pasta e escovas de dentes ou bolas de algodão e outros produtos de higiene. Sem esquecer os 19 frascos enormes de perfume — uma colecção que Virgílio Seco fazia há mais de 20 anos no seu antiquário. Mas nas outras divisões do hotel, incluindo restaurante e quartos, as semelhanças com uma casa de banho diluem-se em azulejos e tons de água. Não há uma interpretação óbvia do conceito, piadas fáceis ou jogos com as imagens de um lavabo comum. Esta é uma casa de banho sofisticada, com cortinas e cadeiras de veludo, móveis espelhados ou de madeira maciça e velas da Portus Cale. Aqui e ali, surgem pequenas jarras com rosas minúsculas, no balcão da recepção ou no bar. No restaurante, apenas uma, simbólica, em lugar de destaque: sobre a mesa comprida desponta um fino solitário com uma flor cor-de-rosa, iluminada por um enorme candeeiro vindo de um bloco operatório. “Lembrei-me do Principezinho. No livro, ele encontra muitas rosas, mas nenhuma como a dele. Também esta casa de banho é única. É o nosso planeta do banho”, ri-se Nini Andrade Silva.

Foto

Depois do jantar, subimos ao quarto. A unidade hoteleira é composta por 41 duplos, divididos entre as tipologias standard (9), superior (26), deluxe (cinco, com cama oval para assemelhar-se a uma banheira ou jacuzzi) e uma suíte premium, no último piso. “Não são quartos, são casas de banho com cama”, define a responsável. Não existem fronteiras entre os dois espaços, à excepção dos compartimentos para o duche e para a sanita. O espelho sobre o lavatório, por exemplo, esconde a televisão, em frente à cama. “Ligo sempre a casa de banho aos quartos para serem salas. É o sítio onde a pessoa vai fazer a higiene, lavar, pôr os cremes. Tem de ser um espaço onde esteja superconfortável”, defende Nini Andrade Silva. Apenas a suíte, onde ficamos alojados, tem uma disposição diferente. A área da casa de banho está separada do quarto por um closet, tem uma pequena varanda e uma banheira aos pés da cama. Nini aponta ainda uma outra “particularidade especial”. A cama tem vista para o castelo de São Jorge. “À noite, desligamos as luzes e só vemos o castelo. É muito bonito.” Imagine como escolhemos adormecer.

A Fugas esteve alojada a convite do WC Beautique Hotel