Maestro da Metropolitan Opera suspenso por acusações de abuso sexual

Teatro de ópera de Nova Iorque cancela concertos de James Levine, o seu histórico director musical. depois de, num artigo do jornal The New York Times, três homens o terem acusado de abuso praticado quando eram ainda adolescentes.

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James Levine no final de um concerto, em 2013 Ralph Daily

A investigação externa está a decorrer, mas enquanto não produz resultados, a Metropolitan (Met) Opera de Nova Iorque suspendeu o maestro James Levine, recentemente acusado de abuso sexual.

Peter Gelb, o director geral deste teatro de ópera, um dos mais prestigiados do mundo, anunciou no domingo que a relação de quatro décadas que a instituição mantinha com Levine – que foi seu director musical e é um dos mais venerados maestros da casa – foi interrompida e que todos os concertos já agendados com o director de orquestra foram cancelados.

Depois de atenuados alguns problemas de saúde, Levine deveria estar à frente da orquestra na próxima e muito aguardada Tosca, de Puccini (curiosamente a ópera com que entrou na Met), com estreia marcada para a noite de Ano Novo, e em outras duas produções nos meses seguintes.

A decisão foi tomada depois de a revista do jornal The New York Times ter publicado este fim-de-semana um artigo em que três homens descrevem uma série de avanços sexuais de James Levine, quando eram ainda adolescentes, factos que começam em 1968 e que terminam no começo da década de 90.

“Enquanto esperamos pelos resultados da investigação, e com base nestas notícias, a Met decidiu agir já”, disse Peter Gelb numa entrevista citada pelo New York Times. “Isto é uma tragédia para todos aqueles cujas vidas foram afectadas.”

A Metropolitan Opera pediu já a uma firma de advogados para investigar o comportamento de James Levine.

Parte das acusações de que é alvo, feitas em 2016, consta de um relatório policial do estado do Illinois. Nele Ashok Pai, que cresceu perto do Festival de Ravinia, dirigido pelo maestro, atesta que Levine começou a abusar dele sexualmente no Verão de 1986, quando tinha apenas 16 anos.

No artigo do New York Times, as denúncias de Pai fazem corpo com as de outras duas alegadas vítimas. Chris Brown, que foi músico da St. Paul Chamber Orchestra durante mais de 30 anos, garante que Levine o obrigou a deixar que o masturbasse no Verão de 1968, levando-o a fazer-lhe o mesmo em seguida. Brown tinha 17 anos e era aluno da Meadow Brook School of Music, no Michigan, ao passo que o maestro tinha já 25 e era considerado uma estrela em ascensão no mundo da música. James Lestock também tinha 17 anos quando ocorreu o primeiro dos alegados abusos e humilhações sexuais de que terá sido vítima, e descreve um comportamento semelhante por parte de Levine.

Chris Brown, que tem hoje 66 anos, disse ao jornal norte-americano que os alegados avanços indesejados de Levine o traumatizaram profundamente e que o terão conduzido a um estado de depressão.

De olhos vendados

Até à tarde desta segunda-feira, James Levine não tinha feito ainda qualquer comentário público sobre o artigo da revista do New York Times e as alegações nele contidas.

Levine conduziu a orquestra daquele teatro de ópera em mais de 2500 concertos, incluindo 85 óperas, tendo-se ali estreado em 1971, dirigindo a Tosca, de Puccini. Dois anos mais tarde era já maestro principal, assumindo a direcção musical logo em 1976.

Os muitos rumores e suspeitas que nas últimas décadas rodearam o comportamento do maestro começaram, pelo menos na Metropolitan Ópera, logo na década em que ali chegou. Mas muitos acreditavam que as alegações sobre a sua vida privada careciam de fundamento e eram postas a circular por rivais, destinando-se apenas a travar a sua ascensão meteórica.

Uma dessas alegações de que a Met terá tomado conhecimento data de 1979, quando o então director executivo, Anthony A. Bliss, recebeu uma carta anónima contendo “acusações não especificadas” contra o maestro, carta que remeteu para um dos administradores com uma mensagem em que diz que a direcção conversou “longamente” com Levine e com o seu agente e que não seriam verdadeiros os factos relatados. Na mesma mensagem admite, no entanto, que os rumores de comportamento impróprio por parte do maestro “circulam há meses”.

Diz o actual director geral que só tem conhecimento de terem chegado à administração daquele teatro de ópera duas alegações de conduta imprópria por parte de Levine.

A segunda delas data de Outubro de 2016, já depois de James Levine, 74 anos, ter deixado de ser director musical. Peter Gelb foi contactado pela polícia de Lake Forest na sequência das acusações feitas por Ashok Pai, 48 anos, agora noticiadas. O maestro voltou, então, a ser confrontado com as alegações de abuso sexual, e voltou a negá-las. A Metropolitan Opera, por sua vez, voltou a fazer o que já antes tinha feito e manteve a sua relação de trabalho com aquele que é um dos maestros históricos da casa. Ficou à espera de uma decisão policial. Só neste domingo tomou uma atitude, depois de as acusações terem vindo a público.

A confirmarem-se as acusações feitas agora por estes três homens, haverá muitas outras vítimas de James Levine ainda em silêncio. James Lestock, o adolescente que estudava violoncelo quando terá sido pela primeira vez abusado sexualmente pelo maestro, voltou a encontrá-lo quando ambos trabalhavam com a Orquestra de Cleveland. É Lestock que conta que, em 1969, Levine encorajou um grupo de músicos que estudavam no instituto da mesma cidade a colocarem vendas e a masturbarem, em seguida, um dos colegas. Ninguém se recusou a fazê-lo. “Isto é para se ver até que ponto ele tinha o controlo das pessoas”, disse ao jornal norte-americano este homem de 67 anos que continuou a trabalhar com Levine, mesmo depois de episódios que descreve como autênticas violações: “Se eu tivesse deixado o grupo naquela altura, não teria carreira, nem rendimentos, nem amigos, e teria ficado totalmente sozinho no mundo.”

Na sequência do artigo do New York Times, alguns dos festivais e orquestras que trabalharam com Levine já se pronunciaram. O Festival de Ravinia, por exemplo, considera as “alegações muito perturbadoras” e tomará “todas as acções que considerar apropriadas na sequência dos resultados das investigações [policiais]”. A Orquestra Sinfónica de Boston, a que Levine esteve ligado entre 2004 e 2011, garantiu no domingo, em comunicado, ter revisto “todos os aspectos profissionais e pessoais da candidatura” do maestro ao cargo de director musical e que nunca recebeu quaisquer acusações de comportamento inapropriado.

James Levine é mais uma figura destacada do meio artístico a ver-se envolvida na avalanche de denúncias de abusos sexuais desencadeada pelas acusações feitas contra o produtor de cinema Harvey Weinstein.