Agatha Christie conseguiu recuperar do divórcio nas Canárias? Este livro diz que sim

A separação deixara a criadora de Poirrot e Miss Marple deprimida e numa situação económica mais instável do que a que lhe era habitual. Em Las Palmas conheceu um médico que a terá ajudado. Um novo livro acompanha-a no seu refúgio, quando ainda lamentava ter perdido o seu primeiro e grande amor.

Agatha Christie com a filha Rosalind
Foto
Agatha Christie com a filha Rosalind DR

O ano de 1926 foi terrível para Agatha Christie. Perdeu a mãe e o seu casamento. Archibald (Archie) Christie, o elegante piloto britânico com quem casara na véspera de Natal de 1914, pediu-lhe o divórcio depois de admitir um romance com outra mulher, Nancy Neele.

O casal Christie tinha-se apaixonado depressa, depois de um baile, e tinha vivido intensamente até ali, com a Primeira Guerra Mundial pelo meio. A escritora tivera já vários namorados e até outra proposta de casamento, mas nunca se deixara encantar. Archie, que terá sido o seu primeiro e grande amor, estava entre as pessoas que mais a tinham encorajado a escrever e nada parecia prever uma separação. Talvez por isso, a mais popular autora de policiais de sempre tenha sofrido tamanho choque. Um choque que chegou à primeira página do diário norte-americano The New York Times quando, na sequência de uma discussão com o ainda seu marido, Agatha Christie desapareceu durante dias, sem que ninguém soubesse onde estava.

O seu desaparecimento impressionou a opinião pública e levou o então secretário do Interior a pressionar as autoridades para que intensificassem as buscas, que chegaram a envolver centenas de agentes e milhares de voluntários que percorreram ruas e campos quando o seu carro, um Morris Cowley, foi encontrado numa pedreira, com algumas roupas e uma carta de condução expirada. Outro grande autor do romance policial – o Arthur Conan Doyle de Sherlock Holmes – chegou até a pagar a um médium para que descobrisse onde ela estava.

Agatha Christie (1890-1976) acabou por ser encontrada dez dias depois, num hotel do Yorkshire, registada sob um nome falso – não sem ironia, escolhera o apelido da amante do Marido, Neele, e fazia-se passar por uma mulher acabada de chegar da África do Sul.

Rumo às Canárias

Se o choque da infidelidade do marido fora grande, o da repercussão do seu desaparecimento não foi menor. Devastada com a morte da mãe e com a separação, que também a afectou economicamente, Agatha Christie refugiou-se nas ilhas espanholas. Passou uns dias em Tenerife e depois foi para a Gran Canaria.

É precisamente na sua estadia em Las Palmas, em 1927, que se concentra a obra agora lançada pela editora madrilena Adarve. Crimen en El Confital by Agatha Christie é um livro ensaio em que o historiador Javier Campos procura reconstituir essa temporada em que a escritora que criou Hercule Poirrot e Miss Marple, dois dos mais célebres detectives de papel, se refugiou na ilha com a sua filha, Rosalind, e a secretária em quem muito confiava.

Nele Javier Campos quer aproximar-se dos mistérios reais que ainda rodeiam a vida desta mulher que acabaria por se tornar um dos escritores mais populares de sempre, com 90 livros publicados, milhares de milhões de cópias vendidas em todo o mundo (as estimativas mais correntes andam entre os dois e os quatro mil milhões), traduzidos em mais de 40 idiomas e frequentemente adaptados ao cinema, ao teatro e à televisão, como o comprova o filme Um Crime no Expresso do Oriente, de Kenneth Branagh, que acaba de estrear.

Segundo o diário La Provincia, de Las Palmas, o novo livro do historiador Javier Campos está organizado em quatro grandes blocos: o primeiro é uma ficção sobre um crime na Playa del Confital (também conhecida como El Confital), em que o autor parte de factos verídicos e procura emular o estilo de Agatha Christie; o segundo tem muitos dados biográficos sobre a passagem da autora pela Gran Canaria; o terceiro debruça-se sobre quem poderá ter sido o Dr. Lucas, o médico que a tratou na ilha; e o quarto é um ensaio sobre as semelhanças entre a obra da escritora de policiais britânica e o crime de El Confital, relativo a uma morte violenta ali ocorrida quando a autora estava em Las Palmas e que, diz o historiador, inspirou um dos seus contos.

O segundo casamento

Cruzando dados da autobiografia da escritora, publicada em 1977, com outros saídos da imprensa regional da época, Javier Campos faz um retrato do enigmático médico que até aqui era conhecido apenas como Dr. Lucas, o clínico que até chegou a tratar-lhe da garganta mas que, sobretudo, a ajudou a recuperar de uma profunda fase de desânimo. É este médico que tira do “poço em que caiu a partir do momento em que o marido, Archibald Christie, lhe pede o divórcio, em finais de 1926, algo que, naquela sociedade britânica com reminiscências vitorianas, empurrava a mulher para um limbo social e económico, que não tinha direito a qualquer pensão de alimentos e que se via como uma fracassada”, disse o autor de Crimen en El Confital by Agatha Christie ao diário espanhol La Vanguardia, sem levantar a ponta do véu que cobre a figura. Quem quiser ir mais além, terá de ler o livro.

O que se sabe sobre a sua vida depois da passagem pela Gran Canaria é que a autora de O Cão da Morte ou de Jogo Macabro acabou por recuperar da sua eventual depressão para reafirmar, uma e outra vez, o seu talento para o romance de crime e mistério, dando corpo a personagens que são hoje eternos.

Em 1930, ano em que lançou o livro que apresentou Miss Marple aos leitores (Crime no Vicariato), voltou a casar-se, desta vez com um professor de arqueologia chamado Max Mallowan, um grande conhecedor das cidades antigas da Síria e do Iraque com quem participou em diversas expedições, uma experiência que relatou em 1946 no livro de memórias Come, Tell Me How You Live (que em Portugal está traduzido pela Tinta-da-China, sob o título Na Síria). Com este arqueólogo Agatha Christie tornou-se Lady Mallowan e a história dos dois foi mesmo “para sempre”. Estiveram juntos até à morte da escritora, em 1976.