O que causa nojo aos chimpanzés? O mesmo que a nós

O nojo é uma emoção que nos protege do risco de doenças. Mas não tem essa função só em nós: pela primeira vez, essa reacção foi observada em chimpanzés. Também eles tentam assim estar longe das bactérias.

Chimpanzés no Parque Nacional de Kibale (Uganda)
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Tal como nós, os chimpanzés também sentem nojo Julie Rushmore

Antes de mais, é necessário avisar que esta será uma história repugnante. Afinal, é sobre comida em cima de fezes, uma imagem que nos deixa logo enojados e cheios de repulsa. E se nós ficamos neste estado, outros seres vivos também podem ficar. Cientistas do Japão e do Gabão quiseram perceber se isso acontece nos nossos parentes mais próximos, os chimpanzés. Será que estes primatas, que conseguem comer sementes nas suas próprias fezes, sentem nojo das de outros indivíduos? Depois de várias experiências com bananas, dejectos, sémen ou réplicas de fezes, concluiu-se que sim e que os motivos são semelhantes aos nossos.

É quase instintivo. Quando algo nos causa nojo, afastamo-nos e lançamos logo a expressão: Ugh! Mas, o que é afinal o nojo? Se quisermos definições, podemos recuar a 1872, quando o naturalista Charles Darwin publicou o trabalho A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais. E definiu-o assim: “Uma sensação […] referente a algo repulsivo, principalmente em relação ao sentido do gosto, como realmente percepcionado ou vividamente imaginado; em segundo lugar, como algo que causa um sentimento semelhante, através do sentido do cheiro, do tacto ou até da visão.”

Já no século XX, um dos pioneiros na investigação do nojo foi Paul Rozin, agora professor emérito da Universidade da Pensilvânia (Estados Unidos). Foi ele um dos responsáveis por introduzir o nojo como emoção no discurso corrente. “Era sempre a outra emoção”, dizia em 2012 ao jornal New York Times. Ora, de forma simplificada, uma emoção é um conjunto de reacções corporais, automáticas e inconscientes. Paul Rozin defende então que esta emoção foi sendo adquirida pela evolução cultural e baseada também na nossa natureza animal.

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Nas experiências, os chimpanzés tentavam manter-se longe do que poderia ter parasitas e agentes patogénicos Cecile Sarabian/HELP Congo/Universidade de Quioto

Mais recentemente (em 2004), Val Curtis, especialista em higiene da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres (Reino Unido), e que se autodescreve como uma “nojóloga”, trouxe-nos uma nova definição de nojo através de um artigo científico na revista Proceedings of the Royal Society B. “O nojo é uma emoção humana poderosa que tem sido pouco estudada até ao momento”, lê-se no início do artigo.

Como tal, fez-se um inquérito online a 40 mil pessoas usando “estímulos fotográficos”. Em todas as regiões do mundo, as pessoas associavam as imagens com um maior potencial de doença a algo nojento. Observou-se ainda que as mulheres apresentavam mais sensibilidade ao nojo, havia um decréscimo desta emoção ao longo do ciclo de vida e os fluidos corporais dos estranhos eram considerados mais nojentos do que os dos parentes próximos. “Estes dados fornecem provas de que a emoção do nojo humano pode ser uma resposta, que evoluiu, aos objectos no ambiente que representam uma ameaça às doenças infecciosas”, definia então a equipa de Val Curtis.

Há ainda quem encare o nojo como algo divertido. Em 2014, o cientista inglês Glenn Murphy lançou o livro Ciência Nojenta (publicado em Portugal pela editora Gradiva) para explicar aos mais novos (e mais velhos) o que nos causa nojo. “Está relacionado com as doenças e com o nosso medo de infecções com bactérias, vírus e parasitas perigosos. É por isso que não nos importamos assim tanto com os nossos fluidos corporais (que contêm os nossos próprios microrganismos), mas não suportamos a ideia de ranho, baba ou suor das outras pessoas em cima de nós”, escreveu. Explicava ainda que o nojo está associado ao medo de comermos coisas que nos fazem mal e ao perigo de coisas desconhecidas, tóxicas e de animais venenosos.

Ao longo do livro são vários os exemplos de objectos repugnantes dados por Glenn Murphy, como o suor, o ranho ou as fezes. E fiquemos por aqui: pelas fezes. Em média, um humano adulto faz 100 a 250 gramas de fezes por dia. Cerca de 75% delas são constituídas por água, já os restantes 25% são matéria sólida, onde se incluem alimentos não digeridos, gorduras, proteínas, minerais, bactérias e outros micróbios. São estes últimos que estão na base da nossa repugnância pelos dejectos (nossos e dos outros). “Com a experiência, aprendemos que o contacto com as fezes de outros é uma óptima maneira de desenvolver uma terrível doença nos intestinos”, lê-se no livro. Mas nem todos os seres vivos sentem este nojo.

Fezes como comida

Muitos insectos comem, põem ovos ou vivem nas fezes, como os escaravelhos dos excrementos. E há mais. Por exemplo, os coelhos comem as suas fezes para digerirem melhor a comida. Também os elefantes bebés e os hipopótamos o fazem para encher os intestinos com bactérias e para assim conseguirem digerir as folhas e as ervas que os seus pais também comem. A estes comportamentos damos o nome de coprofagia. Também os gorilas e chimpanzés se comportam assim, comendo as suas próprias fezes e as dos outros. “Não se sabe se é para melhorar a digestão, obter mais vitaminas ou apenas por diversão”, refere ainda Glenn Murphy.

Agora, pela primeira vez, os cientistas decidiram analisar o comportamento dos chimpanzés à exposição de réplicas de fezes, sangue e sémen num contexto de alimentação. Ao todo, foi feito um conjunto de três experiências aos chimpanzés (da subespécie Pan troglodytes troglodytes) no Centro de Primatas do Centro Internacional de Investigação Médica de Franceville, no Gabão, tal como vem descrito num artigo científico da revista Royal Society Open Science. O objectivo era perceber através da visão, do olfacto e do tacto – sentidos associados ao nojo – se os chimpanzés escolhiam a comida em cima de fezes ou não.

Na primeira experiência, 20 chimpanzés viram comida em cima de réplicas de fezes de diferentes cores (castanho ou cor-de-rosa) e de uma esponja castanha. Na segunda, o mesmo número de chimpanzés esteve na presença do cheiro de fezes, sangue ou sémen (aqui usaram-se substâncias reais). No último teste, 42 chimpanzés tiveram de tocar em substâncias moles e húmidos e, ainda, num pedaço de corda, que estavam dentro de uma caixa opaca.

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Réplicas de fezes cor-de-rosa usadas na experiência Cecile Sarabian

Quais as suas reacções? Primeiro, os chimpanzés demoraram mais a comer a comida que estava em cima das réplicas de fezes do que da esponja; depois, ficavam mais longe se cheirassem potenciais contaminantes biológicos (como fezes, sangue e sémen). Mesmo assim, isto não os impediu de se alimentarem. Já na terceira experiência a reacção foi mais forte: afastavam-se da comida que estava nas substâncias moles e húmidas. A reacção não era a mesma se os alimentos estivessem em cima da corda. Ou seja, os chimpanzés tentavam manter-se longe do conteúdo que poderia ter parasitas e agentes patogénicos.

“Se os chimpanzés e outros primatas conseguirem detectar o risco de contaminação através dos sentidos, os indivíduos com elevada sensibilidade para fezes e outros fluidos corporais podem ser menos infectados, e isso pode ter importantes benefícios para a saúde”, explica ao PÚBLICO a principal autora do artigo, Cecile Sarabian, do Instituto de Investigação de Primatas da Universidade de Quioto (Japão). “Além disso, estes resultados podem ter implicações no bem-estar e na gestão animal. Podemos informar melhor os tratadores sobre o valor adaptativo de tal sensibilidade e a sua flexibilidade, assim como identificar os indivíduos que podem ter maior risco de infecção e que requerem mais atenção.”

Guarda-costas contra bactérias

E observar esta reacção nos chimpanzés é quase como um espelho para nós. “O que é fantástico nestas experiências é que observámos respostas que são funcionalmente semelhantes às nossas, fornecendo provas de que o mecanismo subjacente ao seu comportamento pode ser parecido com o nosso”, considera Andrew MacIntosh, coordenador do trabalho e também da Universidade de Quioto, num comunicado da sua instituição. Já Cecile Sarabian frisa: “Estas experiências fornecem indícios sobre a origem do nojo nos humanos e ajudam-nos a compreender a função protectora desta emoção.”

Até ao momento, o estudo da repulsa aos contaminantes biológicos já tinha sido feito em humanos, gado, roedores, insectos e macacos-japoneses (da espécie Macaca fuscata). Estes últimos também tinham comportamentos para se proteger do risco de infecções e também foram estudados por Cecile Sarabian e Andrew MacIntosh. Agora foi então a vez dos nossos parentes mais próximos, que vêm preencher mais um espaço na história evolutiva do nojo.

Mas ainda há muito para descobrir nesta história remota. “As raízes do nojo, assim como a função protectora contra os agentes patogénicos, deverão ser mais antigas do que o antepassado comum entre os chimpanzés e os humanos”, explica Cecile Sarabian. “Comportamentos semelhantes de prevenção podem ter sido verificados em espécies mais distantes.” A investigadora diz ainda que este estudo ainda não foi feito com gorilas e orangotangos, mas estes também devem reagir da mesma forma, mesmo com algumas diferenças comportamentais.

Reagir assim tem-nos protegido ao longo da nossa história. Por isso mesmo, esta emoção é explorada em campanhas de saúde pública para convencer as pessoas a lavarem as mãos ou para se reduzir o número de mortes causadas por doenças ligadas a diarreias em países em desenvolvimento, onde ainda há muitos problemas relacionadas com saneamento e higiene. A “nojóloga” Val Curtis também está envolvida em projectos em África, Índia e Inglaterra. “O nojo está na nossa vida diária. Determina os nossos comportamentos higiénicos, como nos aproximamos das pessoas, quem vamos beijar, com quem nos vamos cruzar e com que nos vamos sentar”, dizia numa conferência sobre o nojo na Alemanha em 2012 e citada depois pelo New York Times. Muitas vezes, não damos por ele, mas o nojo acaba mesmo por ser um guarda-costas silencioso que desperta quando as “perigosas” bactérias se avizinham.