Entrevista

Já não é preciso mandar doentes para transplante de pulmões em Espanha

Estamos a fazer cada vez mais transplantes de órgãos. Mas há cerca de duas mil pessoas à espera de um rim em Portugal, diz o presidente do Instituto Português do Sangue e da Transplantação.

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MARIA JOÃO GALA

Nos primeiros dez meses deste ano, os hospitais fizeram 736 transplantes de órgãos, mais treze do que no mesmo período de 2016, adianta João Paulo Almeida e Sousa, presidente do Instituto Português do Sangue. O número de transplantes pulmonares aumentou bastante e já não tem sido necessário enviar doentes para Espanha, como antes acontecia.

Como estamos este ano na colheita de órgãos e nos transplantes? Há órgãos em número suficiente?
Quando comecei há 28 anos na medicina intensiva, a esmagadora maioria dos dadores, cerca de 80%, era proveniente de situações de traumatismos crânio-encefálicos em resultado de acidentes. Agora, as situações traumáticas representam à volta de 20% e a maior parte dos dadores são actualmente cidadãos que tiveram acidentes vasculares cerebrais, etc.

Mas 2016 foi o ano em que houve maior número de dadores e  de transplantes. Vai ser possível replicar ou aumentar este ano?
Estamos a fazer um esforço com vários focos de atenção e medidas. Uma destas frentes foi o despacho de Junho que passou a obrigar todos os hospitais que têm colheita de órgãos (e são 53 em todo o país) a ter normas hospitalares de doação elaboradas a partir de uma matriz. Mas cada hospital, de acordo com a sua realidade e cultura, elaborará as suas normas, que terão de ser reportadas até Dezembro ao instituto. O objectivo é que haja mais atenção para o circuito dos potenciais dador, de forma a que não se perca nenhuma oportunidade de doação. Face à escassez, que é previsível que se venha a acentuar, temos que nos precaver.

E os transplantes de rins, em que há uma grande lista de espera?
Também avançamos no programa de doação renal cruzada (a partir de dadores vivos disponíveis para fazer cruzamento com outros pares de dadores, que não são compatíveis). Alargamos ainda a um protocolo [que se baseia num programa], o South Alliance for Transplant. Este incide maioritariamente na doação renal cruzada e envolve quatro países do Sul da Europa: França, Espanha, Itália e Portugal.  Em Portugal é o Hospital S. António que vai entrar no programa. Termos mais rins é muito importante, porque significa que teremos menos doentes a fazer diálise. Em Portugal, ainda há à volta de duas mil pessoas em lista de espera para transplante renal. Infelizmente, há cada vez mais situações de insuficiência renal crónica.

A nível global, estamos a fazer mais transplantes de órgãos este ano?
Este ano, entre Janeiro e Outubro, em comparação com o mesmo período do ano passado, fizemos mais quatro transplantes cardíacos, mais sete transplantes renais e menos quatro transplantes hepáticos, o que não tem significado e também acontece porque estamos dependentes da qualidade dos órgãos que são colhidos. Fizemos ainda mais oito transplantes pulmonares e menos dois pancreáticos. No total, fizemos mais treze transplantes até Outubro [em comparação com o mesmo período de 2016, 736 transplantes de órgãos no total]. Nós não estamos preocupados com a estatística ou com rankings. A questão é que esta é sempre uma situação dramática para as pessoas, a esperança que põem de construção da sua vida e do futuro é um carga maior do que podemos imaginar.

Também há pessoas em lista de espera para transplantes cardíacos. O caso de Salvador Sobral tornou este problema mais mediático. Por que é que isto acontece?
Sim, há pessoas em lista de espera. Mas é preciso encontrar um dador compatível e depois há os critérios clínicos e de gravidade e as equipas estabelecem prioridades [em função disso]. Por outro lado, isto tem a ver com a idade dos dadores. Este ano a média de idade dos dadores é de  53.7 anos. Enquanto um rim se aceita até 70 anos e, porventura, poderá ser mais desde que seja feita uma biópsia, um fígado não, o que interessa é a capacidade funcional do órgão. Mas o mesmo não se passa para o coração e o pulmão.

Para os transplantes pulmonares, tínhamos que mandar doentes para Espanha.
Sim, maioritariamente para a Galiza. Agora não, não tenho conhecimento [de envio de doentes para Espanha]. Tem havido um esforço da unidade de transplantação pulmonar do Hospital de Santa Marta [o único do país a fazer este tipo de transplantes].

E já há muitos dadores em paragem cardio-circulatória?
Foi o Hospital de S. João [Porto] que arrancou com um projecto-piloto [para colheita de órgãos em dadores que estão em paragem cardio-circulatória, condição que é irreversível], mas em Outubro passado saiu um despacho que estende esse programa ao Centro Hospitalar de Lisboa Norte e ao Centro Hospitalar de Lisboa Central, que já começaram e já tiveram dadores este mês.