Fotogaleria
Lisa Kerner (Argentina)
Fotogaleria
Subversión Marica (Medellín, Colômbia)

Da América Latina para Portugal, o festival ¿Anormales? é para todxs

Da América Latina para a Europa, o festival ¿Anormales? vai ocupar a Disgraça, em Lisboa, até 3 de Dezembro. A organização espera que haja “algo que fica, que se transforma, que continua” quando o festival itinerante partir

O ponto de partida é uma “maleta gigante” que Stéphane Jacob começou por levar a várias cidades da América Latina em 2010. Stef chega “normalmente com um mês de antecedência” com o que chama de “material de base” — alguns documentários e uma exposição — e começa a fazer contactos para trazer participantes locais.

É assim que nasce cada edição do ¿Anormales?, um “festival transfeminista do-it-yourself itinerante” que reúne filmes, performances, música, oficinas e debates ligados à temática LGBT e feminista.

Com um sotaque mesclado entre o francês e o castelhano, Stef conta que a ideia nasceu em conversas na Casa Brandon, em Buenos Aires (cidade onde vive), e repete-se em mais do que uma edição por ano — a última foi em Abril, na Bolívia. Depois de quase oito anos a circular pela América Latina, o belga — que viveu em Portugal durante 16 anos e fez parte do colectivo Panteras Rosa — volta a atravessar o Atlântico para trazer o festival a terras lusas. A partir desta quarta-feira, 29 de Novembro, e até domingo, 3 de Dezembro na Disgraça, em Lisboa, e de 9 a 12 de Dezembro na república Rosa Luxemburgo, em Coimbra.

Com o passar do tempo, Stef foi juntando materiais dos países por onde passou e o espólio cresceu. O material do festival ¿Anormales?, em particular os documentários, será “quase todo inédito em Portugal”, reunindo uma série de filmes activistas que muitas vezes ficam à margem dos grandes festivais.

“Quando o festival se vai, há algo que fica”

Em Lisboa, a organização conta com dois “cúmplices”: o colectivo Panteras Rosa e a TransMissão, uma associação trans e não-binária criada neste ano. Estes colectivos ajudam nas traduções, no apoio a pessoas com mobilidade reduzida e a fazer a ponte com os espaços e artistas da cidade. Para Stef, esta participação é essencial: “Quando o festival se vai, gosto quando há algo que fica, que se transforma, que continua”.

O ¿Anormales? promove o debate sobre questões como a despatologização das pessoas trans, as operações de normalização impostas às pessoas intersexo, a legalização e a descriminalização total do aborto — que é ilegal na maior parte dos países da América Latina —, o trabalho sexual, o impacto do VIH.

Na programação para Lisboa, as noites são pontuadas com cinco performances “escolhidas a dedo” pela organização: “Se repetir muitas vezes, se repetir muitas, se repetir”, de Zé Luis C; “Conferência Anal”, de Jota Mombaça; “inSANO”, com Rose Mara Kielela, Thais Zaki e John Kalagary; “Every man kills the thing he loves”, com Ann Antidote e Lun Ário; e a performance de drag king de Joaquim Fónix.

Em três momentos haverá conversas com convidados depois da projecção dos documentários: os activistas intersexo Vincent Guillot e Loe depois do filme Entre dois sexos (Régine Abadia), na sexta-feira, 1 de Dezembro, às 18h; Alessandro Avellis, realizador de A Revolução do Desejo (Alessandro Avellis e Gabriele Ferluga), no sábado, dia 2, às 16h30; e Irmã Rosa, co-protagonista do filme E a tua irmã (Sylvie Leroy e Nicolas Barachin), também no sábado, às 21h.

“Tenho vontade de dizer que queremos tudo”

Um dos temas aos quais o festival aponta holofotes é o debate sobre as questões trans. “Chegámos a uma geração que não está para estar calada”, nota Sérgio Vitorino, activista LGBT e fundador das Panteras Rosa há mais de dez anos. E o debate que terá lugar no sábado à tarde serve para dar voz às pessoas trans sobre a lei que está em discussão na Assembleia da República. “Para que elas possam intervir.”

Sacha Montfort é um dos participantes nessa conversa sobre “como pessoas trans vêem a política”, onde se junta a Eduarda Santos, Daniela Bento e Laetitia. Activista trans, Sacha é um dos membros da associação TransMissão, criada no Verão deste ano para dar mais visibilidade às questões da comunidade trans. Sacha, 32 anos, explica que o ponto de partida foi a “Declaração Colectiva Trans pela nossa Auto-Determinação”, uma carta aberta assinada por mais de 80 pessoas trans entregue no início do ano à secretaria de Estado para a Cidadania e Igualdade, às comissões parlamentares da Saúde e de Assuntos Constitucionais e aos grupos parlamentares.

A TransMissão espera manter o assunto em agenda, “dando espaços de visibilidade a existências que normalmente são apagadas”. “Queremos fazer algo agora, quando está a ser feito o debate da lei, falar na nossa própria voz para obter a autodeterminação, para obter todos os nossos direitos humanos”, defende Sacha.

“Tenho vontade de dizer que queremos tudo”, desabafa. “Há muitas coisas para fazer, seja a nível de consciencialização, do trabalho da lei, mas talvez o mais importante seja o trabalho comunitário para não deixar ninguém isolado.”