E se John Ford filmasse Harry Dean Stanton no deserto?

Harry Dean Stanton morreu em Setembro, deixando-nos o “testamento” de actor chamado Lucky – um filme que evoca o cinema americano dos anos 1970, dirigido por alguém que é também um actor de composição, John Carroll Lynch.

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O que é que passa pela cabeça de um actor secundário de composição, que nunca realizou antes um filme, para se abalançar a estrear-se atrás da câmara – e logo a dirigir Harry Dean Stanton?

“Repare, não há muita gente que comece logo a realizar,” sorri John Carroll Lynch (n. 1963), que conhecemos como o marido de Frances McDormand no Fargo dos irmãos Coen (1995) ou como o mais forte suspeito do Zodiac de David Fincher (2007), que vimos no Gran Torino de Clint Eastwood (2008) ou no Jackie de Pablo Larraín (2016), ou em séries como Os Americanos e American Horror Story. “As pessoas podem vir da fotografia, da montagem, da representação, e para o primeiro filme provavelmente vão confiar naquilo que sabem fazer. Se eu chegar a um produtor e disser 'sou um actor, mas queria mesmo era fazer um filme com perseguições de carro'… A primeira coisa que eles vão dizer é: 'Hmmm, está bem. Já fez alguma que eu possa ver?'

Portanto, nada de corridas de carros, nada daquilo que um actor não tem forçosamente de dominar. A ideia de dirigir andava já a ressoar-lhe na cabeça. “Não sei bem quando comecei a prestar atenção ao que os realizadores estavam a fazer,” avança, “mas foi uma coisa que foi aparecendo aos poucos. Como comecei no teatro, passei de um ambiente muito calmo, onde está pouca gente em palco a ensaiar, para a cacofonia do plateau, onde toda a gente está sempre a falar e tens de decidir ao que é que vais prestar atenção. E, aos poucos, percebi que tudo é importante: onde estão os projectores e as câmaras, quais são os acessórios, o que está a fazer o cenógrafo. Tudo isso tem influência no modo como interpretas uma cena.”

O projecto de Lucky surgiu através da sua amizade com um dos argumentistas, Drago Sumonja, também ele um actor com quem se cruzara em rodagens – e amigo de longa data de Harry Dean Stanton, o actor que inspirara abertamente o guião. “Sabia que podia contar esta história, que tinha o necessário para o fazer. E, quando começámos a falar com possíveis produtores, alguém me disse isto: 'Gosto da ideia de um actor de composição a contar uma história sobre um actor de composição. Isso parece-me muito interessante.' Não tinha pensado nisso, mas...”

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Portanto, Lucky: primeira longa-metragem de um dos mais respeitados actores secundários americanos, que nela filma o mais respeitado dos actores secundários americanos, Harry Dean Stanton (1926-2017), falecido aos 91 anos de idade em Setembro, poucos dias antes da estreia comercial do filme nos EUA. História de um velho ateu e rabugento numa pequena cidade na orla do deserto, que não estamos a ver interpretada por outra pessoa, é inevitável ver em Lucky o “testamento cinematográfico” do seu actor principal.

Em Agosto, o filme fez parte da competição do Festival de Locarno, onde Carroll Lynch teve uma convivial mesa-redonda com a imprensa à mesa de um café ruidoso. A conversa entre meia dúzia de jornalistas e o realizador andou sempre a esquivar-se ao estado de saúde de Stanton, que não fez a viagem até ao festival suíço. Mas Carroll Lynch não escondeu que a rodagem de Lucky, que decorreu no Verão de 2016, levou em conta a idade avançada do actor: “Distendemos o calendário de produção. Tínhamos 18 dias de rodagens, mas em vez de trabalharmos no duro durante três semanas, espalhámo-los por seis semanas, para lhe permitirmos trabalhar dois, três, quatro dias de cada vez. Também queríamos limitar os dias a dez horas, e rodámos em Los Angeles para ele poder ir todos os dias dormir a casa. Mesmo assim foi difícil! Um papel principal como este já é muito trabalho para alguém na flor da idade, e portanto sabíamos que tínhamos de ter cuidado com ele.”

O mais sensível de gerir, como Carroll Lynch acaba por confessar, foi a proximidade que a história de Lucky, acompanhando a consciência da mortalidade deste velhote ateu e rabugento, tinha com a vida real do seu actor principal – história que Sumonja e o co-autor, Logan Sparks, enriqueceram com momentos que apanharam, frases que ouviram, tiques que reconheceram a Stanton durante os anos de amizade. “Uma das coisas de que mais gosto é que nunca vimos o seu corpo filmado desta maneira, com a fragilidade da idade, mas ao mesmo tempo com uma vitalidade sem medo que é espantosa,” admite o realizador. “A vontade dele de abordar as questões da mortalidade, a sua coragem de se expor desta maneira, a sua presença… Sentimos a sua fragilidade, mas também percebemos que ele não vai sair dali. É como se estivesse ali, teimoso, a desafiar a morte: 'Vem buscar-me se quiseres, mas eu por mim não vou'.”

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O realizador John Carroll Lynch não escondeu que a rodagem de Lucky, que decorreu no Verão de 2016, levou em conta a idade avançada do actor Pier Marco Tacca

Aliás, Stanton fumava como uma chaminé e uma das melhores cenas do filme confronta a sua personagem com um médico. Este diz-lhe, lembra Carroll Lynch a rir, que não percebe como é que Lucky está mais saudável do que ele. “Não estou seguro de que os cigarros tenham alguma coisa a ver com os seus 91 anos, mas a verdade é que se vê no filme o quanto ele gosta de fumar. Lembro-me de uma reunião que tivemos logo ao princípio da pré-produção, eu, ele, os argumentistas e os produtores, e marcámo-la para uma esplanada para ele poder fumar!”

Por puro acaso, a própria longevidade da carreira de Stanton reflectiu-se até na própria dimensão técnica do filme. “A câmara que alugámos à Panavision para o filme tinha uma série de lentes anamórficas de época. Fizemos alguma pesquisa, porque os registos da companhia referem todas as produções às quais as lentes forma emprestadas, e descobrimos que as lentes que usámos na rodagem tinham sido usadas em vários filmes em que Harry também entrou.” 

A ideia do realizador e do director de fotografia Tim Suhrstedt era evocar uma intemporalidade ancorada no cinema americano dos anos 1970: “Em termos de topografia, de imagem, de montagem, de estilo de representação, pensámos muito em gente como Hal Ashby, Don Siegel, Peter Bogdanovich. Pensámos, claro, na Última Sessão, de Bogdanovich [1974], também obviamente no Paris,Texas, de Wim Wenders [1983], mas também nisto: e se o John Ford fizesse um pequeno filme sobre uma personagem como esta? Procurámos o vazio, as cores do deserto, como uma metáfora sobre o ponto em que Lucky está na sua vida. Parece que o deserto está à beira de morrer, mas a verdade é que vai continuar para sempre, e as coisas que nele vivem têm vidas muito longas, como o cágado com que o filme abre. São frágeis e tenazes ao mesmo tempo. Como o corpo do Harry Dean no filme.”

Lucky tem, assim, qualquer coisa de decididamente intemporal – procurada, sim (“como, por exemplo, no telefone de casa do Lucky, de uma cor queimada muito anos 1970”), mas não em excesso. Há três coisas no filme que o incrustam no nosso tempo, explica Carroll Lynch: “Uma são os carros, que são modelos relativamente contemporâneos. Outra é o telemóvel da personagem do Ron Livingston, que vemos muito de passagem. A terceira são os três miúdos que aparecem a certa altura no restaurante, que não podiam vir de nenhum outro período.” 

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A referência a Livingston, outro dos grandes secundários contemporâneos de Hollywood, remete também para o absoluto luxo do elenco, composto por veteranos actores de composição cujos rostos nos são bem conhecidos mas cujos nomes nos escapam: a maior parte dos actores de Lucky só tem uma ou duas cenas com Stanton, mas não hesitou em aceitar estes momentos por pura amizade. E a gente como Ed Begley Jr., Barry Shabaka Henley (que ainda há pouco vimos como o barman do Paterson de Jarmusch), Beth Grant, James Darren ou Tom Skerritt (o superior de Tom Cruise em Top Gun), veio juntar-se nem mais nem menos do que... David Lynch, cuja presença esteve quase até à última em dúvida por estar nessa altura a trabalhar no reboot de Twin Peaks.

Alguém pergunta como é ser-se actor e estar a dirigir David Lynch – Carroll Lynch (que não é da família) sublinha que tudo se passou muito bem e que não houve nenhuma “confusão de papéis”. “Ele não me deu absolutamente nenhuns conselhos e deixou-me completamente à vontade. Aliás, houve uma cena em que o Harry tinha algumas dúvidas e virou-se para o David a pedir ajuda: 'Percebes o que se está a passar nesta cena?' O David respondeu-lhe que sim. 'Então explica-me lá'. E, depois de olhar para mim, o David disse-lhe: 'Não me cabe a mim dizer-to.'”

O que nos devolve ao princípio da conversa, e ao que significa ser um actor que passa para trás da câmara. Sem pingo de falsa modéstia, John Carroll Lynch confessa que a experiência de dirigir Lucky lhe ensinou muito: “Todos os realizadores com quem trabalhei trazem para o seu trabalho aquilo que são, as suas personalidades, as suas sensibilidades peculiares. Eu trouxe a minha capacidade de estar no plateau com prazer, com curiosidade, com voluntarismo. Talvez por eu próprio ser actor, confiei naquilo que os actores me estavam a dar. Podia ter feito outra coisa se estivesse no lugar deles, mas isso deu-me também a alegria constante de ser surpreendido, porque eles iam por caminhos de que eu não estava nada à espera. E tenho tido a sorte de poder ganhar a vida a fazer algo que me apaixona.” Ele e Harry Dean Stanton. Afinal, o filme chama-se Lucky.