Crónica

Os senhores gatos

Os habitantes de Istambul são civilizadíssimos com os gatos, compreendendo a sorte que eles trazem e a maneira inspiradora como interrompem o dia-a-dia, distribuindo sorrisos e exemplos de liberdade e de idiossincrasia.

É incrível: não há bons filmes sobre gatos. Os gatos são dificílimos de filmar. Só se for com uma webcam. Uma, particularmente viciante, capaz de animar qualquer pessoa felino-susceptível é a da Friends of elines' Rescue Center em Defiance, no Ohio.

Muitos dos gatos foram atropelados, mas safam-se lindamente, arrastando as pernas traseiras como se já tivessem nascido assim. Dir-se-ia que não pensam mais nisso.

Só este ano é que apareceu, finalmente, um bom filme sobre gatos: Kedi de Ceyda Torun. Torun teve a brilhante ideia de seguir alguns gatos de rua de Istambul. Se os gatos fugiam ou não apareciam, ela não insistia, considerando que eles não tinham dado licença para serem filmados. Se eles deixassem filmar, vamos embora, senhores dons gatos: é favor mostrar o caminho.

O trailer do documentário é muito bem feito e dá uma ideia justa do filme, coisa rara. Torun gosta muito de gatos e o respeito e a curiosidade dela fazem Kedi luzir e iluminar a alma.

Os habitantes de Istambul são civilizadíssimos com os gatos, compreendendo a sorte que eles trazem e a maneira inspiradora como interrompem o dia-a-dia, distribuindo sorrisos e exemplos de liberdade e de idiossincrasia. Acham que os gatos ajudam a curar as pessoas – as solidões, as depressões, os desesperos – e fazem questão de agradecer, tomando conta deles e aprendendo com humildade as lições que os gatos dão.

Kedi é um filme que é um gato. Não conheço outro.