Opinião

Um Douro de Pinot Noir para nos fazer corar de vergonha

A região dispõe de uma grande riqueza ampelográfica, já bem adaptada ao clima duriense, e nenhuma das principais castas estrangeiras lhe faz falta.

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Ricardo Castelo NFactos

A Niepoort vai lançar um vinho DOC Douro da casta Pinot Noir. Leu bem: DOC Douro. Quem olhava para o Douro como uma ilha imune à invasão das castas estrangeiras e criticava o Alentejo ou a região de Lisboa por estarem a “afrancesar-se”, deve fazer um acto de contrição. Eu sou um deles. Nunca imaginei que uma região que nasceu e cresceu com base em castas locais e nacionais, que construiu a sua fama em torno de um vinho, o Porto, feito unicamente a partir de castas com grande história e tradição local, pudesse autorizar e certificar a comercialização de um vinho de Pinot Noir com a denominação de origem Douro. No caso, é Pinot Noir, mas podia estar a falar de Syrah, Petit Verdot ou de outra casta estrangeira qualquer.

Como foi possível chegar até aqui? Poucas pessoas sabiam, mas desde 2001 que é possível fazer um DOC Douro de Pinot Noir. A casta consta do caderno de especificações da Denominação de Origem Protegida Douro. No Instituto do Vinho do Porto e Douro IVDP), ninguém sabe como isto aconteceu. Segundo o director dos serviços de fiscalização e certificação, Alfredo Silva, deve ter havido um engano. Este responsável suspeita que a autorização tenha sido dada a pensar na utilização do Pinot Noir para espumantes.

A situação é antiga, mas o IVDP nunca se preocupou em corrigi-la. O facto de a área de Pinot Noir plantada no Douro ser até há bem pouco insignificante e até o desconhecimento da própria portaria que deu corpo legal ao caderno de especificações das DOP Douro (Douro, Duriense e Porto) pode explicar a ausência de vinhos daquela casta. A Niepoort já produz um Pinot Noir há alguns anos, mas começou por classificá-lo como vinho de mesa, mais tarde como regional e agora como Douro.

Só recentemente é que o Conselho Interprofissional do IVDP, que junta representantes do comércio e da produção, deliberou proibir a utilização da casta Pinot Noir para DOC Douro. Mas a deliberação, por inércia, ainda não ganhou corpo legal. O Douro de Pinot Noir da Niepoort tem, por isso, via aberta para entrar no mercado. Pode é ser o primeiro e o último Douro Pinot Noir.

É uma situação triste e infeliz. O IVDP mostra mais uma vez que anda a navegar à bolina, não possuindo qualquer agenda reformista que adapte o Douro às mudanças que têm ocorrido na própria região e aos novos desafios globais do negócio do vinho. Está tudo a mudar a uma velocidade vertiginosa, mas o IVDP - produção e comércio e também a presidência, que tem abdicado do poder de iniciativa, limitando-se a acções protocolares e de arbitragem – age ao ritmo da tartaruga. A Rioja, por exemplo, região histórica como o Douro, vai começar a autorizar a inserção nos rótulos dos vinhos de quinta dos nomes dos lugares onde os mesmos são produzidos, como acontece em muitas regiões de França, para reforçar a sua identidade. No Douro, isso não nunca foi possível, embora não exista legislação que o impossibilite. É uma zona nebulosa que colide com a protecção de marcas, como se o nome de uma aldeia ou de uma vila pudesse ser protegido e apropriado só por uns quantos. O Douro, gigante e diverso, continua exactamente igual como quando só era uma região de vinho do Porto. O advento do Douro DOC veio criar uma nova realidade na região, mas só o IVDP é que parece não se ter dado conta disso, continuando a actuar como se na sua sigla não existisse a letra “D” e a olhar apenas para o vinho do Porto e os interesses de quem está neste negócio.

A Niepoort também não fica muito bem na fotografia. Como vai Dirk Niepoort, provavelmente o criador que mais tem perorado em defesa da identidade e dos valores da tradição do Douro, o grande defensor das vinhas velhas da região e da sua enorme riqueza de castas, justificar agora um vinho do Douro feito de Pinot Noir? Mesmo que a lei esteja do seu lado, é o princípio que está em causa. Dirk e qualquer outro produtor têm o direito de gostar de castas estrangeiras, de plantarem vinhas com castas estrangeiras e até de fazerem vinhos no Douro com castas estrangeiras, mas promover isso é um tremendo tiro nos pés. Imaginam a Borgonha a autorizar a produção de um Premiere Cru de Touriga Nacional?

Numa altura em que uma das tendências de consumo mais fortes no mundo é a busca da diferença, de vinhos com identidade e baseados na tradição, lançar um tinto do Douro de Pinot Noir é ridículo. Os defensores da “estrangeirização” dos nossos vinhos podem argumentar que as castas sempre viajaram e que muitas das variedades que hoje mais usamos nos nossos vinhos, como é o caso do Alicante Bouschet, vieram de outras paragens. É verdade, mas vivemos um tempo diferente, de concorrência feroz e em que os valores da identidade e da autenticidade são críticos.

Em regiões com uma história mais nova no vinho e com condições climatéricas particulares até se aceita algum investimento em castas estrangeiras. Mas não é o caso do Douro. A região dispõe de uma grande riqueza ampelográfica, já bem adaptada ao clima duriense, e nenhuma das principais castas estrangeiras lhe faz falta. No caso do Pinot Noir, só mesmo para espumante, categoria recente que não afecta a imagem do Douro.