Um cruzeiro só com memórias felizes

Olhar de Milhões é uma criação de Raquel Castro a bordo de um cruzeiro em que o hedonismo impera. Este sábado em Torres Novas – seguem-se Porto, Lisboa e Ponta Delgada.

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Olhar de Milhões Mariana Silva
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É um pouco como aquelas feiras medievais que se propõem mergulhar cada visitante no ambiente forjado da vida tal como foi há uns bons séculos. É experimentar uma reconstituição de um tempo que já não existe, adultos a brincar ao faz-de-conta e a pagar por uma notável artificialidade que se afirma experiência autêntica. Olhar de Milhões, peça de Raquel Castro em apresentação em Torres Novas (este sábado, 25 de Novembro, Teatro Virgínia), Porto (1 e 2 de Dezembro, Teatro Carlos Alberto), Lisboa (6 e 7, Teatro Maria Matos) e Ponta Delgada (16, Teatro Micaelense), assenta amarras numa viagem de cruzeiro. Um cruzeiro vintage, comercialmente apetecível, onde cinco habitantes de um futuro distante se apresentam para embarcarem numa viagem ao passado glorioso do entretenimento e do hedonismo.

“É igual ao que será um cruzeiro dos dias de hoje”, diz ao PÚBLICO a autora e encenadora, “com a diferença de que eles vivem num mundo um pouco mais frio, mais isolado, sem contacto.” Daí que, elevador abaixo, elevador acima, os cinco se dediquem a uma sequência imparável de actividades que lhes permite reproduzir os comportamentos dos seus antepassados, desde sessões de massagens a fartas refeições que os deixam empanturrados ao ponto de mal se mexerem. Mas há uma certa vertigem neste grupo, como se cada experiência apenas os lançasse para outra cada vez mais extrema, como se num teste sistemático daquilo que, num ambiente controlado e livre de remorsos e de punições, cada um está disposto a fazer.

Raquel Castro começou a pensar numa nova criação em 2015, indecisa entre debruçar-se sobre o turismo e a televisão. Duas pistas parcialmente influenciadas pela leitura de A Supposedly Fun Thing I’ll Never Do Again, livro de ensaios de David Foster Wallace, cuja escrita apaixonou a actriz e encenadora. “Adoro o tom, a ironia que ele põe nos textos, a forma como vê o mundo”, assume. “E gosto muito dos ensaios, que são muito mais concretos.” Foi aí que primeiro se lhe atravessou a imagem do cruzeiro, graças à descrição de Wallace da sua semana a bordo do MV Zenith numa rota pelas Caraíbas, falando de “toda aquela experiência imersiva, do conforto e do mimo, em que se tem direito a ser mimado”. “Por se estar num sítio isolado, tem-se supostamente acesso a tudo, é-se rei e senhor, pode viver-se tudo a que se tem direito de uma forma muito intensa.”

O apoio da Rede 5 Sentidos permitiu que Raquel Castro fosse desenvolvendo o projecto ao longo de dois anos, sem pressões, assente numa série de residências para as quais convidava sempre um grupo diferente de intérpretes, à medida que afunilando o conceito que debatia com os bailarinos e actores que a acompanhavam nesses retiros. Ainda que o seu trajecto esteja umbilicalmente ligado ao teatro, “há muito tempo que tinha imensa vontade de trabalhar com bailarinos”, consciente de que “isso iria influenciar o objecto final”. Só depois dessas residências e das discussões com os vários intérpretes é que Raquel fechou a sua ideia em torno do entretenimento, do prazer e de uma ausência de limites. E só então escolheu o seu elenco.

Memórias selectivas

Se a vontade de integrar bailarinos nas suas criações já vinha sendo adiada, a verdade é que dificilmente poderia haver um contexto tão indicado quanto o de Olhar de Milhões. Todo o foco no hedonismo justifica uma presença intensa do corpo em cena – tanto quando se dedicam a uma aula de zumba (durante a qual se faz uma descrição do Homem no século XXI) como quando passam minutos a fio entregues a coreografias bem desenhadas ou quando comem que nem alarves. “Queria claramente procurar essa fisicalidade e essa corporalidade do prazer ou do excesso”, confirma Raquel Castro. “Embora muitas vezes eles saiam do palco e voltem para narrar o que viveram” longe dos olhares indiscretos do público.

O excesso impetuoso que a peça muitas vezes adopta acolhe “uma certa leveza e uma certa superficialidade” mas, às tantas, escala até um outro patamar de seriedade. Talvez porque a comicidade de algumas cenas acaba por se transformar num incómodo de futuro que tem já algo do nosso presente. Quando a voz off anuncia, quase no fim, que cada um poderá “levar consigo somente as melhores memórias”, é também um espelho do mundo que estamos a construir – e cujo destino possível, parece dizer-nos a criadora, pode muito bem ser este –, um mundo já tão penetrado pela tecnologia que apagar aquilo que não interesse ou cause sofrimento aparenta ser uma escolha válida, guardando apenas aquilo que não desequilibre uma existência tão entregue ao prazer quanto incapaz de lidar com aquilo que não contribua para esse selectivo bem-estar.

Só que nada em Olhar de Milhões adquire um peso moral. “Não há castigo nem redenção”, frisa Raquel Castro. Nada parece ser errado. Que é uma outra forma de dizer que tudo pode estar errado.

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