Fernando Relvas (1954-2017): o talentoso boémio da BD portuguesa

Autor do Espião Acácio, na revista Tintin, ou da série Karlos Starkiller, no Se7e, foi um dos nomes mais inovadores da BD portuguesa contemporânea.

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Fernando Relvas dr, cedida pela Mundo Fantasma
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Sangue Violeta, 1984, Se7e,Sangue Violeta, 1984, Se7e dr,dr
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Uma das suas histórias na capa da Tintin dr

Morreu esta terça-feira em Lisboa, aos 63 anos, o autor de banda desenhada Fernando Relvas, um dos criadores mais importantes e inovadores da BD portuguesa contemporânea. Fez capa da revista Tintin com o seu Espião Acácio, crónica humorística da I Guerra Mundial, atravessou os anos 80 no Se7e, levando os acontecimentos da semana para as histórias do "jornalista de ponta" Karlos Starkiller, falhou por um triz a prestigiada revista francesa Metal Hurlant, e o seu inovador thriller suburbano L123, de 1981, revelava uma “sintonia com a realidade quotidiana” que praticamente não tinha precedentes na BD portuguesa da época, observa o crítico e ensaísta João Miguel Lameiras.

Tanto Lameiras, que comissariou a exposição Fernando Relvas: retrospetiva/outra perspectiva, que esteve patente até há poucos dias na 28.ª edição do festival internacional Amadora BD, como o jornalista e escritor Viriato Teles, seu amigo de décadas, e que acompanhou no Se7e aquele que foi talvez o seu período mais pujante, descrevem um artista que trabalhava bem com a adrenalina dos prazos curtos.

“O Relvas era um bocado boémio, como o Stuart Carvalhais, trabalhava muito bem com a pressão da imprensa”, diz João Miguel Lameiras, lembrando que o desenhador português chegou a ser convidado a publicar na Metal Hurlant, uma das mais importantes revistas de BD dos anos 80, mas “quando mandou o trabalho, a revista tinha acabado, o que é um pouco a história da vida dele”.

Com fama, provavelmente merecida, de boémio, o autor do Espião Acácio era também um incansável experimentador. “Quando o Se7e começou a publicar páginas a cores, logo na primeira história experimentou as técnicas todas: cor directa, lápis de cera, ecoline [aguarelas líquidas]”, conta Lameiras. Mas o seu inconformismo, reconhece, também o levava a impacientar-se com alguma facilidade: “Cansava-se um bocado das histórias e começava a divagar, o que funcionava bem na imprensa, mas às vezes se nota quando as histórias são recolhidas em álbum”.

Fernando Relvas, que nos últimos anos tinha trocado o desenho em papel pelo digital, não só nunca se fixou em técnicas e materiais específicos, como não é fácil reconhecer uma linha estilística muito nítida na extrema variedade das obras que nos deixou ao longo de uma carreira de quatro décadas. “Admirava alguns autores, como Hugo Pratt, mas um dos aspectos importantes da obra de Relvas é o facto de nunca ter seguido uma escola e de ter mantido sempre um percurso muito próprio”.

Trajecto que começou em meados dos anos 70 em fanzines, jornais e revistas como O Estripador, a Gazeta da Semana, ou a Fungagá da Bicharada, e que deu o seu primeiro passo decisivo em 1978, quando foi convidado a colaborar no Tintin, oportunidade que, diz Viriato Teles, ficou a dever ao autor de O que Diz Molero: “O Dinis Machado era o responsável da revista e o Relvas apareceu lá um dia com uns bonecos a que ele achou piada”.  

A série que primeiro lhe conquistou leitores fiéis no Tintin foi o Espião Acácio, uma visão humorística da I Guerra Mundial inspirada nas reportagens da Ilustração Portuguesa. Eram breves histórias de duas páginas, que deverão sair em breve em formato de álbum com a chancela da editora portuense Turbina, adianta João Miguel Lameiras.

Ainda no Tintin, Relvas fez a sua primeira incursão na ficção científica com Rosa Delta Sem Saída (editado em álbum pela Polvo em 2013) e publicou aquele que Lameiras considera um dos seus melhores trabalhos, L123 (nome de um passe combinado de transportes colectivos que abrange Lisboa e arredores), uma história de luta entre gangues de tráfico de droga no submundo lisboeta, no qual Relvas recorre a documentação fotográfica, utiliza como cenários os locais que ele próprio frequentava e empresta o rosto dos amigos às suas personagens, descreve Lameiras no texto que redigiu para a recente exposição na Amadora, sublinhando ainda os “diálogos extremamente coloquiais e credíveis” e o inovador uso “dramático e cinematográfico”que o autor faz de excertos de letras de canções de Lou Reed, dos Beatles ou de Kim Wilde, dotando a série de uma espécie de banda sonora. L123 Cevadilha Speed (as duas histórias partilham algumas personagens) foram publicadas conjuntamente em 1998 pela Associação Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto.

Com o fim do Tintim, em 1982, Relvas irá embarcar numa nova e duradoura aventura nas páginas do Se7e. Num texto escrito para o catálogo da exposição do Amadora BD, Viriato Teles evoca a energia criativa do autor nesses anos épicos: “Pelo traço de Relvas passaram a Violeta e o Carlos Starkiller, a Olga Punk, o Capitão Latino-América, o Hermano Lince, uma aranha chamada Mao Tse-tung, uma osga de nome Heidegger”. Uma lista a que se poderiam somar muitos outros personagens, “criados ao sabor das circunstâncias e da própria actualidade, acompanhando o ritmo semanal da produção”, acrescenta o jornalista, concluindo: “Tudo isto à mistura com alguns copos e boémia q.b., que o Relvas nunca foi de deixar para amanhã o que pode viver hoje”. 

Vários dos seus trabalhos foram entretanto editados em álbum, como Em DesgraçaÇufoO Nosso Primo em Bruxelas ou, mais recentemente, nas edições El Pep, Sangue Violeta e Outros Contos (2012) e Nau Negra (2015). Mas João Miguel Lameiras lamenta que não tenha sido possível publicar-se “o seu melhor trabalho”, O Rei dos Búzios, que Relvas desenhou para a revista Sábado e que nunca completou, embora exista uma versão em CD-rom para a qual o autor improvisou um final. Os originais de O Rei dos Búzios foram comprados pela Bedeteca de Lisboa e estão hoje perdidos, explica Lameiras, que tentou encontrá-los para a exposição que agora comissariou.

Casado com a pintora croata Nina Govedarica, Fernando Relvas viveu alguns anos na Espanha e na Croácia, e só tinha regressado a Portugal em 2010. Nos últimos anos publicou alguns trabalhos em regime de print on demand, realizou uma curta-metragem animada, Fado na Noite, iniciou uma webcomicThe World of Miss Li, e foi mantendo o blogue Urso Relvas.

O artista, a quem fora diagnisticada há algum tempo a doença de Parkinson, tinha sofrido duas quedas, fora operado à coluna e estava internado no Hospital Amadora-Sintra, onde veio a morrer na sequência de uma infecção. O seu velório está marcado para quinta-feira, na antiga galeria municipal da Amadora.