Crítica

Ilusões que mostram o caminho

Mesmo com uma parca longevidade, Monument Valley 2 é a descoberta da atenção ao pormenor e ilusão em cada puzzle.

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Monument Valley 2 numa folha de vidro na palma de mão é uma constante descoberta da geometria. Cenários talhados de filinagra colorida, o mais cinzento é a massa que usamos para resolver os puzzles propostos pela produtora ustwo Games. Enquanto pensamos para superar um nível, os olhos vão a passear pela inspiração técnica que transversa a obra.

Primeiro disponibilizado nos dispositivos iOS e agora lançado para aqueles que optaram pelo Android como Sistema Operativo, a sequela não tem o impacto da obra de estreia, mas ainda assim é um videojogo notável, capaz de nos envolver nos seus mundos e de não dar descanso até que os créditos deslizem à frente do rosto emudecido.

Dispensando linhas de diálogo, a comovente história é contada apenas pelas acções que se desenrolam no ecrã - uma mãe, Ro, e a filha numa jornada de aceitação, de separação; uma mãe e uma filha que não precisam da prosa para revelarem a sua aventura. Uma relação translúcida de gestos que importam pelo sacrifício e pela luta.

Decorrendo no mesmo universo do primeiro jogo, Monument Valley 2 combina de forma exímia a arquitectura colocada ao serviço do design dos níveis com os seus departamentos técnicos. Como se fosse um truque de magia aliado a um passo de dança, cada cenário do jogo brinca com a nossa percepção do cenário, alterando a ideia que temos dos caminhos abertos para revelar o curso do puzzle.

Mais: como muito do cerne das mecânicas estão ligadas ao cenário, com o progredir pela aventura o pano vai subindo um pouco mais, revelando novas camadas da jogabilidade. Na prática, em vez de termos um jogo de puzzles estanque após revelar ao que vem nos primeiros momentos, Monument Valley 2 vai-se reinventando e com isso revigorando o nosso interesse no que temos em mãos.

As ilusões ópticas fazem lembrar imediatamente um jogo de M.C. Escher - olhamos uma vez e temos um quadro interactivo que nos convida a experimentar mexer nas suas partes móveis. Além de podermos tocar no cenário para fazer deslocar a personagem, há objectos que podemos arrastar, tal como podemos fazer com o próprio palco de vários níveis.

Em derradeira análise, são puzzles em que a personagem tem que ir do ponto A ao ponto B. O encanto de Monument Valley 2 está na viagem e não no destino. Nutrindo o arco narrativo, há cenários em que jogamos com mãe e filha, em que o destino depende das acções conjuntas. São mecânicas para estourar com o impossível, onde a gravidade não se aplica, onde é possível ver a personagem andar na horizontal e na vertical.

Quando pensamos que já vimos tudo por ter deixado vários níveis para trás, Monument Valley 2 introduz árvores. Parece uma decoração banal para alicerçar o grafismo, contudo, ao dar ao jogador a possibilidade de controlar a luz solar, fazendo as árvores despontar ou mirrar enquanto giram sobre si e servem de plataformas, é inquestionavelmente mais um ajuste à jogabilidade.

Durante o meu tempo com o jogo nunca senti estar a ser atirado às feras, ou seja, sempre que há uma destas novidades, há também uma curva de aprendizagem. Cada cenário é uma demonstração de cálculo e design, mas nunca se sente que a obra está num patamar sobranceiro a atirar migalhas ao nosso discernimento: evoluímos com o jogo e não sozinhos até estarmos ao seu nível.

Infelizmente, é uma lição de design que não é muito longa. Cada momento é o desfrutar do que a produtora preparou, mas é uma aventura que termina após quatro ou cinco horas. Deixa saudades pouco depois, claro, mas sente-se também que há aqui matéria-prima para bastante mais. O preço não é propriamente baixo e depois de terminado não há muito mais que nos leve a jogar novamente. Queria saber mais desta mãe e filha, queria sentir a emoção a tomar conta dos dias e não apenas das horas.

Jogar Monument Valley 2 é pedir que coloquem auscultadores, pois a sonoplastia é excelente, encaixando na perfeição no tom do grafismo. E essas imagens são a atenção ao detalhe, não só na certificação que os puzzles funcionam mas como as cores da paleta garrida são mescladas até a obra ter uma identidade inconfundível.

Está dependente da qualidade do ecrã do vosso dispositivo móvel, mas é navegar por entre verdes e fuchsias, por entre o torrado do amarelo e pelos vários degradês; navegar por entre um arco-íris estilizado, até que chegue o negro, até que os olhos sejam surpreendidos pelo preto e branco; o preto e o branco numa apresentação que sabe a importância do cinzento como corte.

Monument Valley 2 está aqui para assaltar os vossos sentidos e para espicaçar o cérebro, provando novamente que é possível jogar um bom videojogo num telemóvel. Mesmo com as suas falhas, particularmente a longevidade, é facilmente recomendável. Se gostam de puzzles agilizados em pano cuidadosamente estendido, é provável que já tenham ouvido falar da obra, é até provável que já o estejam a jogar enquanto percebem que às vezes um abraço de mãe é a transformação de um caminho impossível na sua resolução.