Concerto Fado Barroco dos Músicos do Tejo lançado na íntegra em disco

O espectáculo que uniu no palco da Gulbenkian Os Músicos do Tejo, o fadista Ricardo Ribeiro e a soprano Ana Quintans é agora editado pela Naxos. O lançamento é esta sexta-feira, às 18h, na Fnac Chiado em Lisboa.

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Os Músicos do Tejo no final de Fado Barroco no Grande Auditório da Gulbenkian. À frente, da esquerda para a direita, Marco Oliveira, Jarrod Cagwin, Ana Quintans, Miguel Amaral, Marcos Magalhães e Ricardo Ribeiro MARCIA LESSA
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Marcos Magalhães num concerto MIGUEL MANSO
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Ana Quintans e Ricardo Ribeiro em dueto num dos momentos de Fado Barroco MARCIA LESSA
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Capa do disco editado pela Naxos DR

No palco chamou-se Fado Barroco, em disco é From Baroque To Fado, A Journey Through Portuguese Music. Com a chancela da Naxos, o disco, gravado ao vivo na Gulbenkian nos dias 14 e 15 de Dezembro de 2016, é lançado esta sexta-feira em Lisboa, na Fnac Chiado, às 18h. Reproduzindo com admirável fidelidade a ambiência sonora daqueles concertos, o CD apresenta o espectáculo na íntegra (em 84 minutos e 32 segundos). Ali, Os Músicos do Tejo, dirigidos por Marcos Magalhães (órgão) e Marta Araújo (cravo), tiveram por convidados e solistas Ana Quintans e Ricardo Ribeiro (vozes), Miguel Amaral (guitarra portuguesa), Marco Oliveira (viola de fado e vocais) e Jarrod Cagwin, colaborador habitual de Rabih Abou-Khalil (percussões).

O projecto Fado Barroco nasceu de um convite, como recorda ao PÚBLICO o cravista e maestro Marcos Magalhães, fundador do grupo de música antiga Os Músicos do Tejo: “Um amigo nosso, finlandês [Aapo Häkkinen, cravista], quis fazer um programa que misturasse a orquestra barroca dele com fado.” Ele tinha ouvido o disco Sementes do Fado, dos Músicos do Tejo, que contava com a guitarra portuguesa de Ricardo Rocha e a voz da soprano Ana Quintans, e inspirou-se nele. “Então eu convidei o Ricardo [Ribeiro] e a Ana Quintans, que ele já conhecia. O Ricardo sugeriu o Marco Oliveira e o Miguel Amaral e depois tratámos de criar um programa para fazer lá.” Esse programa acabou por integrar composições de Francisco António de Almeida, José Palomino, António da Silva leite, António Cláudio Pereira, Carlos Paredes, Alain Oulman, Carlos Gonçalves, Rão Kyao, Rabih Abou-Khalil, MiguelAmaral e dos Madredeus.

“Foram ideias que me foram surgindo, possíveis interacções musicais”, diz Marcos Magalhães. “Fui buscar uma mini-história da música portuguesa. Começamos com uma coisa que nem é bem portuguesa, que são as cantigas de Santa Maria [com o excerto Como Déus fez vinno d’agua ant’Arquetecrinno]; depois como estava o Miguel Amaral, e ele é compositor, lembrei-me de lhe pedir uma peça e ele escreveu um pequeno concerto [Luz de Outono] para guitarra e orquestra; quis também mostrar uma coisa mais pop, para os finlandeses, e acabei por pegar na canção O Pastor, dos Madredeus, que é excelente e achei que ficava muito bem na voz da Ana Quintans.”

Recuperar o espírito do barroco

Levado o espectáculo a palco, em Helsínquia e em Lisboa, e editado o disco numa prestigiada etiqueta internacional (com distribuição em Portugal da Companhia Nacional de Música, CNM), Marcos Magalhães diz que aprendeu imenso com este processo: “Aprendi que a emoção é sempre o mais importante e às vezes a música clássica, com tantas ‘instruções’ na partitura, com tudo tão fixo e decisivo, acaba por deixar a emoção para trás. E a música pode desaparecer facilmente, se nós não temos cuidado. O Ricardo [Ribeiro] está sempre em busca de coisas especiais, de coisas interessantes. No fundo, acho que  era esse também o espírito do período barroco, que talvez se tenha perdido um bocadinho com certas regras do ensino e do conservatório.”

As regras a que Marcos Magalhães se refere têm a ver com o modo de formação dos músicos. “É um processo que é muito antigo, já vem do século XVIII, de ensinar os músicos para serem bons músicos de orquestra e bons técnicos nos seus instrumentos, nessa separação que houve entre criador e intérprete. No barroco isso não existia ainda, a maior parte dos músicos eram também compositores. A partitura não é tudo o que interessa na música, há muitas coisas que não são anotadas, são feitas com base na tradição, na inspiração, na improvisação. No fundo, encontro no fado algumas coisas que eu acho que têm os mesmos processos, as mesmas reacções, da música do período barroco.”