Opinião

O Ensino Superior no limiar do futuro

A economia da Indústria 4.0 exige novas formas de pensar e agir.

A aventura da Indústria 4.0 entrou definitivamente no ambiente de negócios e agendas dos processos de industrialização, inovação e competitividade.

A evolução dos sistemas produtivos industriais e, como tal, dos processos de trabalho, representa um desafio exigente de adaptação pró-ativa para as empresas, em especial as indústrias, mas também um desafio para os governos, e de forma incisivamente crítica para instituições de ensino superior (IES).

Os mais recentes desenvolvimentos na inteligência artificial, na nanotecnologia, na biotecnologia, na genética ou na impressão 3D mostram-nos uma rede de interligações e de conexões que transcende a tradicional compartimentação de áreas científicas e tecnológicas. Tal é sinal claro que esta quarta revolução industrial é muito mais abrangente, holística e interdisciplinar do que outras mudanças a que alguma vez assistimos. Os “smart systems”, a economia da partilha, a digitalização de processos industriais e o “cyber-phisical” são conceitos de tal modo amplos e interligados que determinam mudanças substanciais no mercado de trabalho e na vida quotidiana.

Não tenho dúvidas que a economia da Indústria 4.0 é, seguramente, uma economia de mais talentos e, sobretudo, uma economia que exige novas formas de pensar e agir.

Importa, assim, que as instituições de ensino superior e as empresas (no sentido lato do termo: hospitais, fabricas, teatros...) estreitem os elos que já as unem, avançando para modelos colaborativos inovadores, que permitam, por um lado, desenvolver novas competências críticas com os atuais e futuros estudantes e, por outro lado, iniciar um processo de requalificação e reajustamento dos profissionais atuais, preparando-os para as alterações que estão aí.

Com efeito, uma das principais preocupações de hoje é a transformação das profissões e dos tipos de trabalho para uma cultura de base digital, onde novos conceitos, tecnologias e processos se desenvolvem continuamente. Temos refletido muito sobre isso no Politécnico do Porto, pesquisando e ensaiando novas abordagens educacionais de cariz integrador, transversal, centradas no estudante, em sintonia com um mundo global, em rede, onde o conhecimento se produz e gera em múltiplos centros que importa conectar, filtrar e gerir.

Universities of Future é um projecto que integra as Knowledge Alliances, do programa Erasmus+, financiado pela Comissão Europeia, que visa, de forma particular, agir sobre o contexto antes enunciado.

Através de uma verdadeira “community of practice” — liderada pelo Politécnico do Porto e constituída por instituições de ensino superior (P.Porto, Aalto University, Warsaw University of Technology), empresas (IKEA Industry, Consair, Junta Digital, Inova+, Willson & Brown, Platoniq) e instituições públicas (Agência Nacional de Inovação, TeK, Polish Accreditation Comittee, YY Best), o projeto Universities of the Future visa analisar e agir sobre lacunas existentes na oferta educativa de ensino superior, desenvolvendo abordagens inovadoras e multidisciplinares para o ensino e aprendizagem, estimulando o empreendedorismo e as skills empresariais das equipas de docentes do ensino superior e das equipas de trabalho das empresas, facilitando a troca, fluxo e cocriação de conhecimento.

De forma mais específica, o projeto passa pela pesquisa e partilha comum de conhecimento sobre o estado de maturidade dos processos de Indústria 4.0 nas regiões e áreas de negócios e o impacto relacionado com a mudança necessária de skills e conhecimentos (up-skilling e o re-skilling). Neste sentido, é objetivo central do projeto a geração de recursos de orientação e suporte direcionados às IES, às empresas e aos órgãos de decisão, bem como a educadores/formadores, fornecendo dados relevantes para o desenho de modelos de cooperação.

Estruturará, também, este projeto um vasto programa educativo inovador sobre tópicos centrais e principais componentes da Indústria 4.0, dirigido a estudantes de licenciaturas e mestrados, a par com programas de formação contínua tendo como destinatários trabalhadores interessados em melhorar as suas competências digitais, ou o desenvolvimento de estratégias criativas aplicadas à Indústria 4.0 (pós-graduação).

Mas talvez o desafio mais aliciante do Universities of Future seja a criação de uma robusta Virtual Design Factory de ensino e aprendizagem para a Indústria 4.0, povoada de ferramentas e recursos, que permita o contato direto dos grupos-alvo com os principais componentes da indústria e educação 4.0, complementada por instalações físicas/equipamentos de apoio ao desenvolvimento das experiências e projetos-piloto.

A aliança entre IES, empresas e organismos públicos que funda este consórcio é já, em si, a melhor demonstração de um caminho novo, aberto e colaborativo, apostado na cocriação de conhecimento, experiências e resultados inovadores que possam vencer o ciclo de desfasamento entre os diversos stakeholders.

As primeiras atividades arrancam em janeiro de 2018. Esperamos, com entusiasmo, pelo futuro que se possa abrir.

A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico