Santana: "Se dissesse mal das cativações estaria a criticar o meu Governo"

Candidato à liderança do PSD esclarece que há governos que "descativam" mal.

LUSA/PAULO NOVAIS
Foto
LUSA/PAULO NOVAIS

Um político pode elogiar o seu adversário? Pedro Santana Lopes considera que sim e já o tem feito relativamente à política do Governo socialista. No passado sábado, ao DN, enalteceu o trabalho “meritório” do ministro socialista das Finanças “nas poupanças” ou nas “cativações”. Do lado de Rui Rio, um dos deputados apoiantes assinalou a divergência de Santana face à linha do partido, mas o candidato reitera que se recusa a dizer mal de tudo. Mesmo quando isso parece colidir com o que tem sido defendido pela actual direcção de Pedro Passos Coelho.

Nesta segunda-feira, quando confrontado pelos jornalistas com as suas declarações sobre Centeno, Santana Lopes desabafa – “já vi que não posso fazer um elogio” – mas insiste em esclarecer que o que o PSD tem criticado é o “mau uso” das cativações e também “alguma falta de transparência”. “Nisso eu estou de acordo”, disse o candidato aos jornalistas, à saída de uma reunião com a Confederação Empresarial de Portugal, referindo que a sua posição “não significa menos consideração pelo grupo parlamentar”. “Se eu dissesse mal das cativações, estaria a criticar o meu próprio Governo que fez cativações de 15%”. O ex-primeiro-ministro lembrou ainda figuras como António Lobo Xavier, ex-dirigente do CDS, que condenou as cativações. O problema é quando um Governo “não é lesto” a descativar quando é preciso. Por isso, remata, “todos os Governos cativam, há uns que descativam mal”. 

Só que as palavras de Santana Lopes do passado sábado surpreenderam o deputado Carlos Peixoto, líder da distrital da Guarda, apoiante de Rui Rio nas directas. “O PSD, o seu ainda presidente e todos os seus deputados andaram - e muito bem - a criticar o actual Governo pelas cativações que tem feito, designadamente na área da saúde. Hoje ouvi e li um dos candidatos a líder do PSD a dizer o contrário disto, elogiando o socialista ministro Mário Centeno. Há qualquer coisa que não bate certo nesta narrativa”, escreveu numa nota publicada no Facebook.

Os elogios à política orçamental do Governo não são novos nas declarações de Santana Lopes. O candidato já assumiu que a proposta do Orçamento do Estado para 2018 (OE) “tem aspectos positivos”. Uma posição que contrasta com a que tem sido tomada pela direcção de Passos Coelho, que é muito crítico da política orçamental do Governo não só relativamente às cativações mas também sobre o ritmo de devolução de rendimentos.

Santana Lopes reiterou a sua disposição de fazer elogios quando considerar necessário. “Quem não for capaz de dizer que Portugal tem seguido uma política financeira positiva - mérito do anterior e do actual Governo – não está a ver a realidade”, afirmou. Santana Lopes reconheceu que a área da saúde “tem problemas de financiamento” e defendeu que nas cativações devem deixar de fora as “despesas com pessoal, os juros da dívida e a saúde”. Sem querer pronunciar-se sobre o papel do Estado no caso do surto de Legionella por ainda não ter certezas sobre o que aconteceu, o ex-primeiro-ministro não tem dúvidas de que os incêndios deste Verão são um “falhanço do Estado”, mas que nesta “sucessão de acontecimentos” nem todos têm a ver com dinheiro. Alguns “insólitos – como a interrupção de velórios” – revelam “desnorte desta maioria” desde as autárquicas. “A maioria parlamentar está a recompor-se”, afirmou.

Pedido de bom senso a Governo

Pedro Santana Lopes mostrou-se preocupado com a possibilidade de o Governo - por causa do apoio parlamentar do BE e PCP - poder vir a fazer alterações à legislação laboral que "desanimem os investidores" e pediu "bom senso" ao Governo.

O candidato à liderança do PSD falava aos jornalistas no final de uma reunião com o vice-presidente da Confederação Empresarial Portuguesa (CIP), Almeida Lopes, no âmbito de uma ronda de encontros com os parceiros sociais. "Preocupa-me bastante que possa vir da parte actual maioria parlamentar um conjunto de medidas que desanimem os investidores e Portugal precisa como de pão para a boca de investimento", afirmou, referindo-se ao banco de horas e aos contratos a termo quer para jovens quer para desempregados de longa duração. 

Santana Lopes destacou a importância da "estabilidade fiscal" para atrair investimento externo, já que o "investimento público tem estado retraído". O ex-primeiro-ministro reiterou a sua proposta de criar estímulos fiscais para as zonas mais atingidas pelos incêndios deste Verão e que também já eram afectadas pelo despovoamento. São necessárias "isenções fiscais para encaminhar as empresas para lá", defendeu.