Coligação internacional permitiu que combatentes do Daesh fugissem de Raqqa

Investigação da BBC revela que os planos para evacuar a cidade garantiram a saída de membros do grupo terrorista e de muitas das suas armas.

A escolta foi dirigida pelas Forças Democráticas da Síria (na foto)
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A escolta foi dirigida pelas Forças Democráticas da Síria (na foto) Reuters/ERIK DE CASTRO

A coligação internacional que combate o Daesh e que une forças norte-americanas, britânicas e curdas autorizou o transporte de milhares de combatentes do Daesh e das suas famílias para fora de Raqqa, revela uma grande investigação da BBC. No grupo seguiram alguns conhecidos membros do grupo jihadista, que depois prosseguiram para outras paragens na Síria ou mesmo para a Turquia.

O acordo que permitiu a saída dos combatentes do Daesh de Raqqa – a capital do “califado” que autoproclamaram nos territórios que controlavam na Síria e Iraque – envolveu autoridades locais e chegou depois de quatro meses de luta que deixaram a cidade praticamente destruída e deserta. O acordo visava acabar com os combates e poupar vidas em todos os lados do conflito.

“Levámos cerca de quatro mil pessoas, incluindo mulheres e crianças – o nosso veículo e os veículos deles combinados. Quando entrámos em Raqqa, pensávamos que tínhamos cerca de 200 pessoas para recolher. Só no meu veículo levei 112 pessoas”, conta Abu Fawzi, um dos motoristas.

Abu Fawzi foi contactado pelas Forças Democráticas da Síria, um grupo apoiado pela coligação internacional. Foi-lhe dito que teria de transportar centenas de famílias deslocadas por causa dos conflitos para um campo de refugiados a norte, um trabalho que demoraria seis horas, no máximo.

Mas Fawzi percebeu que tinha sido enganado. A viagem demoraria três dias “intensos”, não levava sírios que fugiam da guerra, mas combatentes do Daesh, as suas famílias e toneladas de equipamento de guerra.

Outro motorista conta que o comboio de autocarros e outros veículos se estendia por cerca de seis a sete quilómetros – incluía cerca de 50 camiões, 13 autocarros e mais de cem veículos do Daesh. Imagens recolhidas secretamente mostram combatentes do Daesh em cima dos veículos atulhados.

Apesar de o acordo se referir apenas a transporte de armas pessoais, os combatentes do Daesh levaram dez camiões carregados com armas e munições.

O coronel Ryan Dillon, porta-voz da coligação internacional, disse que a decisão foi dos sírios. “Eram eles quem estava a lutar e a morrer, logo, foram eles a tomar as decisões sobre as operações.”

Os motoristas contaram à BBC que, apesar de terem ajudado os combatentes terroristas na fuga, isso não tornou a viagem mais agradável para nenhum deles, e denunciaram maus tratos e abusos físicos, acompanhados de ameaças.