Editorial

O PSD sabe o que quer?

Digamos que, para princípio de conversa, o “novo PSD” parece um bocadinho a medo.

A campanha começou há um mês, mas ainda não aprendemos nada de novo. Ouvindo os dois candidatos, ouvindo também os coordenadores dos respectivos programas, sabemos que Rui Rio pretende ter um défice zero — mas com outras medidas que não as mais pesadas; e sabemos que Santana Lopes quer contas equilibradas, mas centrado no crescimento. Ouvindo as duas partes, percebemos que querem diferenciar-se do “passismo”, mas sentimos que nenhum deles o quer colado à pele.

Nestas primeiras semanas, soubemos também que Rio e Santana têm abertura para falar com Costa, mas nenhum quer um Bloco Central; que os dois acham que é preciso ter um discurso mais social — o que não é diferente do que a esquerda tem feito. Digamos que, para princípio de conversa, o “novo PSD” parece um bocadinho a medo.

É ainda confuso, se olharmos para o Orçamento deste Governo. Nele, Mário Centeno aponta para um défice de 1%, baixando défice e dívida, mas redistribuindo mais uns milhões com a folga que ganhou da economia. Rui Rio diz que faltam medidas para “acarinhar” a poupança e o investimento; Santana Lopes acha que nem tudo é mau, mas falta. investimento. E, claro, ninguém arrisca uma única opção de redistribuição que não tivesse tomado.

Assim sendo, o que sabemos hoje dos candidatos é pouco — porque nenhum dos candidatos quer arriscar uma opinião. Percebemos porquê: fazer escolhas e tomar posições implica um risco: o de ficar exposto à crítica, não só do adversário, como à do Governo. E um outro: a de entrar com o pé esquerdo (salvo seja), afastando potenciais eleitores. 

Porém, não o fazendo, Rio e Santana correm um risco pior: o de mostrarem um taticismo que já cansa. E outro: o de manter o PSD sem diferenças face ao seu passado, com poucas relativamente ao próprio PS. Seria um passo atrás, porque nenhum dos dois tem a virtude que podemos apontar a Passos: a da coerência de quem acredita no que fez — e de que era preciso manter o rumo. 

Há um mês, no tiro de partida, defendi aqui que a campanha pela liderança do PSD só seria esclarecedora se os candidatos nos dissessem ao que vinham: em que matérias aceitam negociar com Costa; o que teriam feito de diferente no tempo da troika; o que fariam de diferente agora na oposição. E acabava assim: “Se até àquele sábado, dia 13, o país vir estes passos cumpridos, talvez o PSD tenha um dia de sorte. Senão, será a sorte de Assunção Cristas.” E, acrescento agora, também a sorte de António Costa. 

david.dinis@publico.pt