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Ellen Page acusa realizador Brett Ratner de comportamento “homofóbico e abusivo”

A actriz conta que Ratner revelou a sua orientação sexual de forma “pública e agressiva”, contra sua vontade. O realizador é acusado de assédio sexual e violação por outras mulheres.

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O episódio relatado por Page aconteceu no início das filmagens de X-Men 3 Danny Moloshok/REUTERS

A actriz canadiana Ellen Page acusou nesta sexta-feira o realizador Brett Ratner de ter tido um comportamento “homofóbico e abusivo”, em 2005, depois de este ter tecido comentários sobre a sua orientação sexual numa altura em que esta ainda não se tinha assumido como homossexual — nem publicamente, nem para si mesma.

“Devias f***-la para ela perceber que é gay” (“You should fuck her to make her realize she’s gay”, em inglês), disse o realizador a outra actriz, falando sobre Page, num evento no início das filmagens de X-Men: O Confronto Final, filme que Ratner realizou e em que Page interpretou Kitty Pryde. Na altura, tinha 18 anos. A actriz revelou o incidente numa mensagem partilhada esta sexta-feira nas redes sociais, em que relata também outros casos de assédio que sentiu na pele durante a sua carreira de actriz, que começou quando tinha dez anos.

“Senti-me violada quando isto aconteceu”, confessa, revelando que ninguém se pronunciou sobre o comentário de Ratner, que não teve qualquer preocupação com o seu “bem-estar”. Na mensagem partilhada no Facebook, a actriz de 30 anos considera que cada um tem o direito de descobrir a sua orientação sexual de forma privada. A exposição “pública e agressiva” da sua identidade fez com que se sentisse envergonhada e perseguida pela memória do incidente.

“Eu estava lá quando esse comentário foi feito. Estou do teu lado”, escreveu no Twitter a actriz Anna Paquin, em apoio a Ellen Page.

A canadiana assumiu a sua homossexualidade em 2014 por estar “cansada de esconder e de mentir por omissão” — deste então, tornou-se também activista dos direitos LGBT. A actriz que participou em filmes como Juno e A Origem contou ainda que assistiu, nos bastidores do filme, ao realizador a dizer “coisas degradantes” a outras mulheres.

Na última semana, o realizador Brett Ratner foi acusado de violação e de assédio sexual por várias mulheres: uma antiga funcionária de uma agência de talentos, a Endeavor Talent Agency, disse que o realizador a violou há cerca de 12 anos, e pelo menos cinco outras actrizes, como Natasha Henstridge e Olivia Munn, revelaram ao Los Angeles Times que tinham sofrido assédio sexual da parte de Ratner. Henstridge conta que o realizador a obrigou a fazer sexo oral na década de 1990 e Munn conta que ele se masturbou à sua frente.

Em resposta, Ratner contestou as acusações e disse que as alegações da antiga funcionária eram “deliberadamente falsas e maliciosas”. À revista Variety, o advogado de Ratner, Marty Singer, diz que o realizador é inocente e afirmou que nunca recebeu nenhuma queixa de assédio sexual contra o produtor de Hollywood. A produtora Warner Bros já anunciou que se iria afastar do realizador norte-americano de 48 anos, que produziu filmes como X-Men: O Confronto Final, Hora de Ponta, Dragão Vermelho ou The Revenant: O Renascido e ainda a série de televisão Prison Break.

Já em 2011, Ratner ficou na mira pública depois de fazer um comentário homofóbico em que dizia que fazer ensaios antes de filmar era para “fags” (calão inglês para homossexual). O episódio fez com que o realizador se afastasse da produção da cerimónia dos Óscares, acabando por fazer com que o seu amigo Eddie Murphy — que iria apresentar a edição das estatuetas douradas de 2012 – também saísse. Foi substituído por Billy Cristal. 

Depois de dezenas de mulheres terem acusado o famoso realizador de Hollywood Harvey Weinstein de assédio sexual e violação e de surgirem outras denúncias em torrente sobre outras figuras públicas, Ellen Page sentiu-se na obrigação de falar, por se encontrar numa posição privilegiada (ao poder contratar seguranças ou pagar ajuda psicológica, diz, se assim considerar necessário), para alertar e proteger aqueles e aquelas que, por estarem numa situação mais vulnerável, não se consigam defender. “A violência contra mulheres é uma epidemia neste país [EUA] e por todo o mundo”, escreveu ainda a actriz, acrescentando que este tipo de comportamentos não pode ser “normalizado”.