“Todas as mulheres poderiam fazer uma tese como eu fiz”

Na sua tese de doutoramento, Cristina L. Duarte escreveu sobre o género como espartilho. O trabalho da socióloga surge agora no formato de livro e é apresentado esta quinta-feira, pelas 18h30.

Cristina L. Duarte
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Cristina L. Duarte Rita Carmo

“Não sei se alguma vez pegou num espartilho do século XIX...”, atira Cristina L. Duarte. Não foi por acaso que a socióloga escolheu uma peça que pode parecer obsoleta aos olhos de hoje para ilustrar a sua tese de doutoramento (defendida em 2016) e mais recente livro. Na realidade, explica, apesar de não ter as varetas de ferro que moldavam completamente a forma da mulher — antes uma estrutura mais elástica —, o espartilho que vai aparecendo nas actuais colecções de criadores de moda “aperta da mesma forma o busto”.

Daí surge o ponto de partida para o trabalho sobre a relação entre a moda e o género, que a autora expõe agora na forma de livro. Moda e Feminismos em Portugal — O Género como Espartilho (19,90 euros) é lançado, esta quinta-feira, na livraria Bertrand das Picoas, em Lisboa, com apresentação da socióloga Ana Roque Dantas, pelas 18h30.

Cruzando narrativas das dezenas de mulheres, entrevistadas entre 2012 e 2014, com documentos históricos — nomeadamente excertos de imprensa e iconografia do decorrer do século XX e primeira década do século XXI —, o estudo analisa como a moda reflecte a construção de género no feminino. 

Desta forma, Cristina Duarte construiu uma manta de retalhos de narrativas relativamente à evolução dos hábitos de vestir — com especial enfoque no período antes e após o 25 de Abril —, contadas não apenas com documentos históricos mas recorrendo também à memória colectiva de um grupo de mulheres. Um dos capítulos traça, inclusive, o contraste entre diferentes gerações da mesma família, concluindo que “uma avó pode ter mais gostos em comum com a neta do que com a filha”, relativamente ao acto de se vestir.

“Todas [as mulheres abordadas] estavam aptas a fazer uma tese sobre aquilo que é a sua imagem pública, se tivessem as ferramentas exigidas na sociologia”, comenta a socióloga, explicando que cada vez que uma mulher entra no espaço público vai interiorizando as diferentes reacções das pessoas relativamente à forma como se apresenta — seja pelas opiniões que partilham seja por simples olhares.

A autora refere uma das 41 entrevistadas, Madalena Fonseca, que viveu vários anos no Brasil, antes de passar a residir em Lisboa — onde, aliás, todas as entrevistas foram conduzidas. “Uma das coisas que ela sublinha é que em Portugal se olha de uma determinada maneira que é muito característica. Fala desse olhar como um olhar que pesa”, conta.

Logo na introdução, Cristina Duarte avisa que a intenção foi “estudar as mulheres como sujeito (e não como vítima) de moda”. É uma questão que parece disparar em duas direcções opostas. Ao mesmo tempo que a mulheres são vítimas de uma “imagem ideal” que é proliferada, a moda também pode capacitá-las a “dominar a imagem do seu corpo”, descreve a autora. Por moda — repete algumas vezes — entende-se não exclusivamente vestuário, mas sim todo o fenómeno social, que implica uma vontade colectiva de imitação. Se para algumas das entrevistadas “vestir é libertador”, para outras é como “pôr uma máscara”.

O livro estabelece um paralelo com o significado que diferentes peças de roupa tiveram ao longo do último século, desde a saia-calção das sufragistas às calças de ganga nos anos de 1970, passando pela minissaia. No retrato da evolução dos movimentos feministas em Portugal (e lá fora), a autora menciona momentos como a primeira vez que uma mulher (a viúva Carolina Beatriz Ângelo) votou, nas eleições da Assembleia Constituinte, em 1911. Nessa altura, a lei — emendada posteriormente — reconhecia aos cidadãos com mais de 21 anos, que soubessem ler e escrever e que fossem chefes de família, o direito de voto.

“As mulheres, na verdade, não controlam inteiramente o seu corpo”, aponta ainda Cristina Duarte. Por mais que possam decidir tudo aquilo que diz respeito às suas vidas, não deixam de utilizar símbolos cuja força “vai para além da sua força como indivíduo”. Ou seja, uma mulher pode até escolher andar ou não de saltos altos, mas o significado dessa escolha, “do ponto de vista do empoderamento”, tem significados que lhe escapam. Por outras palavras, “posso sentir que dez centímetros me dão mais poder”, mas, na realidade, a nossa imagem não depende só de nós, mas também da interpretação dos outros. A minissaia, por exemplo, “tanto pode significar ‘libertação’ como ‘dominação’”, refere no livro.