Sócrates deu três dias à editora para pôr o seu livro no top de vendas

Ex-primeiro-ministro nega ter orquestrado campanha de compra maciça da sua tese de mestrado.

Miguel Manso
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Miguel Manso

O ex-primeiro-ministro José Sócrates deu três dias ao grupo Babel para pôr no top dos livros mais vendidos a sua tese de mestrado sobre a tortura em democracia. Apresentada no Museu da Electricidade a 23 de Outubro de 2013 por Mário Soares e Lula da Silva, a obra despertou a curiosidade dos investigadores da Operação Marquês, que tem o antigo governante como principal arguido. 

O Ministério Público defende que uma parte do dinheiro que José Sócrates recebeu a título de subornos do Grupo Lena serviu para comprar exemplares do A Confiança no Mundo: Sobre a Tortura em Democracia em quantidades industriais, através dos amigos, para ficar conhecido como autor de sucesso. O próprio nega-o.

Foi o fundador do grupo Babel, Paulo Teixeira Pinto, quem decidiu apostar no resultado dos estudos de Sócrates em Paris. Dois anos mais tarde, quando foi inquirido pelas autoridades, o então director comercial da editora ainda não se tinha esquecido das particularidades que tinham rodeado o lançamento e a venda do livro. Tanto José Araújo como uma colega sua da Babel relataram os insistentes telefonemas do autor para saber se já tinha ultrapassado José Rodrigues dos Santos nas vendas, e o seu desapontamento ao saber que isso não sucedera.

Seis minutos “a levar nas orelhas”

Na véspera de a tese de mestrado ser posta à venda, o director comercial recebeu um telefonema do antigo governante que qualificou como “tenebroso”. Uma impressora tinha avariado e havia livros que só tinham sido entregues nos pontos de venda dois dias depois do previsto. Foram seis minutos “a levar nas orelhas”.

“Desligou-me o telefone na cara. Foi muito rude”, descreveu. Mais tarde, havia de lhe estabelecer um prazo: a Babel tinha três dias para colocar a obra no top dos livros mais vendidos. Na realidade, A Confiança no Mundo nunca chegou a bater os livros de José Rodrigues dos Santos, mas havia de conseguir muito boas vendas, tendo em conta que se tratava de um ensaio académico. À primeira edição, de seis mil exemplares, seguiram-se várias outras de menor dimensão.

Mas mesmo antes de estar na rua uma nova edição, com um posfácio de Eduardo Lourenço e capa de Júlio Pomar, Sócrates já sonhava mais alto: perguntava ao director comercial quais eram os maiores prémios literários em Portugal. Porém, nunca veio a ganhar nenhum.

Livros despejados no lixo

O livro vendia-se como pãezinhos quentes. Até na FNAC de Viseu, a que menos sucesso livreiro tem no país. Facto a que ali não seria alheia, segundo o Ministério Público, a compra de vários exemplares pelo pai de um antigo chefe de gabinete de Sócrates. Noutro caso, explica o Ministério Público, um casal adquiriu 236 exemplares de uma assentada, a 17 euros cada um, que despejou logo a seguir no lixo.

Logo no primeiro interrogatório judicial a que foi submetido, em Novembro de 2014, o antigo primeiro-ministro admitiu ter sido a vaidade a fazê-lo preocupar-se tanto com o livro, cuja versão final os investigadores garantem ter sido redigida pelo professor universitário Domingos Farinho: “Sou muito vaidoso, como todos os políticos. Aliás, a única motivação ao longo da minha vida que encontro para a actividade política é essa”. Nega, porém, ter gasto uma fortuna a comprar a sua própria obra: “Desculpem-me a imodéstia, mas assinei centenas de livros para o camarada fulano de tal, com amizade, ou para a querida camarada Amélia não sei quantos”.