A Humanidade é sobrevivente de Auschwitz. Como dizer isto?

Para nós Auschwitz é o indizível. Para cada um dos que o viveu não foi mais do que absurdo da normalidade. Só eles podem dizer o que mais ninguém consegue. A partir do diário da mãe, a brasileira Noemi Jaffe faz um exercício sobre a importância do testemunho.

Filha de dois sobreviventes dos campos de concentração, a consciência dessa herança é tão antiga em Noemi quanto a noção de si mesma
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Filha de dois sobreviventes dos campos de concentração, a consciência dessa herança é tão antiga em Noemi quanto a noção de si mesma Nuno Ferreira Santos

O que se pode dizer de novo sobre o Holocausto, Auschwitz? “Desorganizar a língua” como fez Paul Celan? Ir repetindo as palavras, Holocausto, Auschwitz até serem apenas um som? “Um dos problemas da repetição da palavra Auschwitz é o esvaziamento do significado. Digo no livro que sei que daqui a algumas décadas Auschwitz vai ser igual ao Peloponeso. Não vai significar nada, vai ser uma palavra perdida na História. Isso é doloroso.” 

O olhar de Noemi Jaffe (n. São Paulo, 1962) baixa e aterra na pedra da mesa onde se apoia. Mármore branco onde incide a luz verde do candeeiro. Lá fora, há a luz do sol num Chiado de Outono. “Hoje, quando falo desse nome a pessoas mais jovens, elas reagem como se nunca tivessem ouvido falar; vai ser só mais um dado perdido nos livros de História. É uma metáfora. Da II Guerra, do nazismo, de todos os campos de concentração.”

Jaffe escreveu um livro a partir do diário que a mãe, então a jovem de 19 anos Lili Stern, escreveu na Suécia, pouco depois de ter sido libertada dos campos por onde passara um ano enquanto prisioneira judia. Mas a ensaísta, crítica e professora de Literatura Brasileira não se limita a reproduzir a escrita da mãe. Além do testemunho diarístico, elegeu palavras-chave através das quais disseca a experiência que não foi a sua e problematiza-a num volume que cruza géneros e a que chama “ensaio literário”. Foi publicado em Portugal pela Relógio d’Água sob o título O Que os Cegos Estão Sonhando? Nesse livro, Lili é a mãe e Noemi a filha. Uma e outra chegaram a esse título assim, como Noemi escreve: “Um dia, ao telefone, ela, que gosta de ficar imaginando situações, perguntou à filha: ‘Filha, o que os cegos estão sonhando?’ De início a filha não entendeu. Parecia que se tratava de cegos específicos numa situação específica e que aqueles cegos estariam sonhando alguma coisa naquele instante. Ela acrescentou: ‘Sim! O que eles estão sonhando, se eles não enxergam? Como podem ver imagens nos sonhos?’ Então a filha entendeu e se lembrou que a mãe confunde os usos do presente simples e do presente contínuo. ‘O que os cegos estão sonhando?’, na verdade, é ‘ Com o que os cegos sonham?’. Mas uma forma inesperada e subitamente bela (...) sintetiza exactamente a forma de estar no mundo da mãe (...), em que a percepção das coisas importa mais do que as coisas mesmo.” Noemi fala deste processo de decisão como de um poema na conversa que temos em Lisboa. E fala de si mesma como uma personagem, a “filha”, uma terceira pessoa em que suprime o seu eu, apesar de esse eu ser evidente. Porquê? “Por pudor”, e porque a história não lhe pertence, mas à mãe. 

O pai de Noemi também é sobrevivente de um campo, lugar, no entanto, sem a carga metafórica de Auschwitz. Noemi volta sempre à linguagem para explicar. “As palavras acabam se tornando fétiche, sendo carregadas de mais força, significado, simbologia do que o facto”, continua. E enumera mais palavras como as que entre os alemães ultrapassavam o seu próprio conteúdo: liquidação, solução final, selecção, chamada, povo. “Entre os judeus, Auschwitz é uma dessas palavras maiores do que elas mesmas.”          

E volta ao início da conversa: até quando a palavra Auschwitz faz soar uma emoção em quem a lê? A pergunta está sempre no livro e por isso uma das respostas é que nunca é de mais pôr os sobreviventes a falar, mesmo quando se diz que já não há nada de novo a dizer. “Essa ideia irrita-me. O assunto nunca se esgota. Dizerem que o que aconteceu foi um facto é não entender nada. O que aconteceu foram pessoas que morreram e pessoas que sobreviveram e pessoas que mataram e pessoas que denunciaram outras e outras que ajudaram e outras que se omitiram”, diz em tom de voz mais alto, punho cerrado. E, finalmente: “Enquanto houver histórias sobre essas pessoas, é preciso falar.”

Noemi concorda com a ideia de que não se consegue nunca dizer o que foi aquilo. Fala de uma nova era pós-Auschwitz, citando o escritor Gonçalo M. Tavares na apresentação do livro em Portugal. Segundo essa era, estamos no ano 72 pós-Auschwitz. “Nunca tinha havido uma indústria racional, criada com a finalidade de liquidação, extermínio humano. Então não há como esgotar o tema, transformá-lo em facto, ou em tragédia, ou em catástrofe. Cada história tem um valor necessário para que as pessoas se conectem consigo mesmas e com o outro. A única forma de se criar o vínculo com o que aconteceu é pela história concreta e não pela análise filosófica. É válido reflectir, mas não é dessa forma que as pessoas vão criar vínculos com o terror.”

Necessidade da linguagem

O vínculo de Noemi é estreito. Filha de sobreviventes dos campos, a consciência dessa herança é tão antiga quanto a noção de si mesma. “Ser filha de sobreviventes é constitutivo da minha personalidade, assim como ser mulher, judia, brasileira. Não existe a possibilidade de não pensar sobre isso, de isso não fazer parte de alguma coisa que eu faça ou escreva. Os meus pais nunca se preocuparam em me poupar. Era com essas histórias que eu dormia. Agradeço-lhes. Não os culpei nem por essas histórias nem por ter folheado o diário da minha mãe desde os dois anos.” Nunca foi um interdito? “Não. Nunca se preocuparam em calar nada disso.”

Mas em adulta o pudor assaltou-a: como se relacionar com aquelas confissões da rapariga de 19 anos que era a sua mãe? “Quando me comecei a interessar por literatura, ficou mais difícil, mas quando era mais pequena era só um brinquedo. As minhas irmãs, mais velhas, não sabem as mesmas histórias. Quando eram pequenas, eles estavam tão interessados em sobreviver e não contaram as histórias. Sou muito mais jovem, quando nasci já estavam bem estabelecidos, tinham tempo e contaram tudo.”

Permanecia a questão. Como falar do indizível? Primo Levi escreveu sobre isso. Levi, volta e meia, surge no livro, o pacto dessa verdade atroz só possível com quem esteve lá. E os outros? E nós? “Para quem esteve lá há a concretude dos acontecimentos”, refere Noemi. “Se Primo Levi contar: ‘Começou a chover, houve uma tempestade, refugiei-me dentro de um cano de ferro que estava no pátio e dentro do cano de ferro encontrei um jovem que estava comendo um pedaço de nabo e começámos a conversar e vimos que éramos da mesma cidade e fazíamos anos no mesmo dia e era naquele dia e tínhamos a mesma idade, os dois gostávamos de música lírica...’ Isso aconteceu, ele contou e é uma história é tão linda! Tão inacreditável! Mas ao mesmo tempo é narrável. Mas depois de ser contada torna-se quase impalpável.” Torna-se literatura? “É. E é nesse nível, é nesse lugar que acho que se pode falar de Auschwitz”, conclui Noemi Jaffe.

O que a mãe de Noemi fez foi então algo próximo da literatura. Esteve lá, mas foi já fora desse lugar que escreveu, para preencher a falha desse ano em que deixou de saber do pai, da mãe, do irmão. “Quando chegou à Suécia, levada pela Cruz Vermelha, podia contar o que tinha acontecido porque tinha sobrevivido.” Ri-se. Ri-se outra vez: “Conta como estava sendo atacada por comida, só lhe davam comida, porque estava recuperando a feminilidade, a sexualidade, o desejo, e porque não tinha noção de que era indizível. Para quem é que é indizível? Para quem não esteve lá”, continua, rindo sempre. “É dizível para quem não tem noção da indizibilidade. Para nós, que não estivemos lá, é indizível.”

Os outros quando falam uns com os outros sabem do que falam. Quando o pai e a mãe de Noemi conversavam entre si, entendiam-se. “Nathan Englander, escritor americano, tem um conto maravilhoso sobre o pai dele trocando a roupa num vestiário num clube de Miami onde moram judeus aposentados. Ele olha para o número do pai e olha para o senhor ao lado do pai que tem o mesmo número só com um algarismo de diferença. E ele diz: ‘Vocês estiveram no mesmo campo, no mesmo ano, e foram vizinhos!’ E o senhor ao lado do pai diz: ‘É, eu sempre chego atrasado.” E prossegue o que estava a fazer. É normal. Eles não têm essa ideia de indizibilidade. Isso é adorno.”

No livro, numa entrada com o título “raiva”, pode ler-se que em alemão Paul Celan e Bruno Schulz escreveram a desordem. Foi numa das línguas do dizível: “Leite negro da madrugada nós o bebemos de noite: nós o bebemos ao meio-dia e de manhã, nós o bebemos de noite, nós o bebemos, bebemos, cavamos um túmulo nos ares, lá não se jaz apertado, um homem mora na casa, bole com cobras escreve, escreve para a Alemanha, quando escurece teu cabelo de ouro, Margarete...” Nesse mesmo livro, depois do diário da mãe, Noemi elege palavras, as tais que nos ajudem a entender. Cada palavra, um subcapítulo; selecção feita após Noemi visitar Auschwitz. Matutava acerca de como organizar o livro. “Não queria seguir uma ordem cronológica, não queria falar de mim e tive a ideia de falar por temas.” Pensou em quais seriam as palavras importantes para quem está num campo. Pão, banho, frio... “Uma das minhas teorias é a de que a minha mãe sobreviveu porque tinha um sentido de dignidade forte. Dignidade é uma das palavras. Como raiva, pedra [que Lili teve de carregar sobre a cabeça], ou dinheiro.” Noemi elege uma palavra e começa a especular; há a raiva no campo e a raiva por si só, as diferenças entre os tipos de mal. Há também o amor no campo, mas o amor em si. “À medida que ia escrevendo, foram acontecendo coincidências que me fizeram sentir pesada, como se estivesse a invadir a história das pessoas. Achei que não tinha o direito de escrever e acabei a escrever também sobre isso.” É quando fala de outra palavra: porta-voz. “O porta-voz é o guardador da voz. Ele ouve a voz que outra pessoa não emitiu, pega, guarda no bolso e porta. Como uma carteira ou uma chave”, escreve. Mais à frente indaga: “O porta-voz é um invejoso?” 

Noemi olha para o que escreve, questionando também ficção e realidade. Como se constrói a memória pessoal ou o passado colectivo? Como estabelecer o que no passado é a realidade? E regressa a essa questão limite: como se conta a história do sobrevivente, singular, para chegar à História, do colectivo e ao universal? “A história que a minha mãe conta é ficcional. Ela escreveu o diário no presente, mas já era passado e há coisas que eram impossíveis de lembrar. Ela inventa coisas”, admite a filha. E ela, a mãe, tem consciência dessa invenção? “Não”, responde Noemi. “Para preencher os buracos da memória ela precisou de criar factos. Todo o mundo faz isso. E então inventou mais ainda.” O que está aqui é mentira? “Não”, responde, prontamente. “É uma versão da verdade e um relato de memória e a memória cria preenchimentos e atende aos desejos, aos medos, à fantasia. É uma verdade minimamente ficcional.” Menciona a visita ao Museu do Holocausto, em Jerusalém. “Lá estava Lili Stern numa folha preenchida por um soldado nazi sobre as funcionárias da cozinha.” Emociona-se. Há uma pausa e um sorriso. Quando a pausa termina, vem outra questão, literária. Como se pode tornar isso bonito? “Celan fica na fronteira. A poesia dele é bela porque é incompreensível, nojenta. Em Beckett também. E Kafka conseguiu escrever maravilhosamente sobre a guerra antes da guerra. Previu.” E Noemi conta a história de uma cigana. Está no livro. “A cigana leu na mão da minha mãe que ela teria três filhas, ia morar num país distante, e quando a minha mãe leu essa passagem no livro ficou ofendida por eu ter dito que fora uma cigana. ‘Não foi uma cigana e você não tinha o direito de dizer que foi, você me rebaixou.’ Ela tem preconceito com ciganos, veja bem! Inventei. Ela disse que foi uma amiga que sabia ler a mão.”

A reacção não a impediu de gostar do que a filha escreveu. “O título foi decidido em conjunto. Ela autografou livros no lançamento. Estava eu, ela e a minha filha.” A filha de Noemi, neta de Lili, chama-se Leda Cartum e escreveu as derradeiras páginas de O Que os Cegos Estão Sonhando? Três mulheres e três entendimentos do que é dignidade ou conformismo perante Auschwitz. “A minha mãe é uma conformista. Se eu estivesse lá, não me salvaria”, sublinha Noemi. “Eu não aceito as coisas e para ela é tudo ‘como veio, deve ser; destino’. Ela acredita no destino por causa da guerra. Não sei como ela era antes.”

A palavra sobrevivente não consta da organização do livro, mas Noemi refere-a na conversa. “A humanidade é sobrevivente de Auschwitz. Todos devemos nos preocupar com o nosso lado de sobreviventes. Hoje há uma fuga da consciência da sobrevivência. Essa consciência traz a compreensão do outro. Não fomos nós, mas podemos ainda ser nós. Os que não sobrevivem. Basta ver o que está à volta.  Nós vivemos sobre a vida. Não dá para ficar só vivendo a vida.”

Há o milagre de sobreviver ao terror máximo. Havia a impossibilidade de sair. E depois saíram. Foi essa a falha nazi e dessa falha nasceu o testemunho. Perante isso há uma obrigatoriedade de sentir; sentir o terror máximo quando se visita Auschwitz. Por isso a confissão carregada de frustração, culpa, da filha de Noemi: não ter sentido nada. “Isso foi o maior conflito entre nós. Eu sabia o que queria. Tinha ido para lá com um objectivo claro, documental, de pesquisa. Fomos no Inverno, para não ser fácil. Quando chegámos, com uma família que conhecemos em Varsóvia, a mãe disse que não queria entrar. Sugeri que tentássemos encontrar detalhes, teias de aranha, rachas na parede. Ela aceitou. E a minha filha me acusou de ser ridícula, que era um absurdo tentar encontrar teias de aranha, que eu tinha de olhar os crematórios, as pessoas que rasparam a mão na parede. Disse que eu estava a tentar encontrar poesia em Auschwitz. Não era isso. Eu queria encontrar as marcas da vida e ela ia à procura das marcas da morte. E então rejeitou tudo o que viu. Rejeitou Auschwitz, me rejeitou. Olhei mais para o invisível do que para o visível e acho que vi muita coisa.”

No fim do livro ouvimos a voz de Leda Cartum, é ela quem escreve: “Ser neta de sobreviventes é ter uma relação indirecta com este sofrimento que possibilitou a minha existência.”

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