O Alentejo também pode ter turismo ferroviário... se as linhas não fecharem

Comboio gastronómico e cultural ligou a Gare do Oriente ao antigo apeadeiro da Figueirinha (Beja), num evento organizado pelo grupo Vila Galé.

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Promover o Alentejo, o turismo ferroviário e, já agora, o Hotel Rural Vila Galé. Estes os objectivos do Comboio Gastronómico e Cultural do Alentejo, que no passado sábado transportou 150 convidados desde Lisboa até ao antigo apeadeiro da Figueirinha, 25 quilómetros ao sul de Beja.

Não é preciso muito para quebrar o gelo quando se viaja num comboio especial, onde cada carruagem tem dois bares improvisados, com iguarias e vinhos regionais. Circular pela composição, animada por cantares alentejanos, degustar vinhos, conversar, apreciar a paisagem e aproveitar as paragens nas estações para fumar um cigarro ou tirar fotografias, eis a receita para uma viagem de sucesso, que deixa toda a gente feliz.

Jorge Rebelo de Almeida, administrador do grupo Vila Galé, diz que este foi apenas um comboio promocional, mas que gostaria que fosse o embrião de um projecto mais vasto que pusesse o turismo ferroviário na geografia alentejana. Uma ideia que mereceu o aplauso do presidente do Turismo do Alentejo, Ceia da Silva, que considera os comboios turísticos “um segmento de mercado muito interessante”, tendo em conta que muita gente não usa o automóvel por uma questão de opção e que muitos turistas aderem a pacotes que juntam a viagem sobre carris com gastronomia, vinhos, e cultura, como foi o caso desta iniciativa.

A ideia agradou também aos operadores turísticos. Daniel Marchante, director executivo da Lusanova, diz que “esta ideia tem pernas para andar se toda a gente não estiver interessada em ganhar dinheiro logo no início”. E alerta que tem de ser um conjunto de operadores, com parceria com a Vila Galé, a CP e a Infraestruturas de Portugal, a avançar com uma proposta que, para começar, poderia durar de Maio a Outubro, com um comboio aos fins-de-semana. “Trabalhamos muito com o Brasil e, entre os 30 mil brasileiros que trazemos a Portugal todos os anos, era fácil motivá-los para um pacote deste tipo”, diz. “Mas estas coisas são para se fazer já e não para adiar. Eu quero chegar a Janeiro e dizer no Brasil que tenho este produto para o próximo Verão."

Numa antevisão do que poderá ser este produto turístico, a viagem da Gare do Oriente até à Figueirinha durou quatro horas, mas os últimos 25 quilómetros foram feitos a 30km/hora porque entre Beja e o apeadeiro que serve o hotel rural da Vila Galé a linha está desactivada, depois de ter sido encerrada em finais de 2011.

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Jorge Rebelo de Almeida diz que foi preciso mover montanhas para convencer a CP e a Infraestruturas de Portugal a realizar este comboio. Mais de um ano a partir pedra para conseguir levar um comboio a uma linha que tinha sido fechada, mas que se encontra ainda em razoável estado de conservação. “Era muito importante para o Alentejo que esta linha de Beja à Funcheira fosse reaberta”, repetiu o empresário várias vezes. “Não o digo por mim, mas sim pelo interior do Alentejo, pela economia da região”, acrescentou, explicando que esta linha permitiria voltar a ligar Beja ao Algarve, colocando o Alentejo interior mais próximo dos turistas que visitam o Sul. Mais: o patrão da Vila Galé ergue-se ainda na defesa do aeroporto de Beja e rejeita as críticas e anedotas sobre a falta de tráfego. “Deveríamos todos unir esforços e procurar formas de o rentabilizar porque esta infra-estrutura é mais um complemento para ajudar a desenvolver o Alentejo”, disse.

Mas voltemos à viagem. Da gare do Oriente à ponte 25 de Abril é um pulinho e é ali que toda a gente pasma com a paisagem magnífica do rio e de Lisboa. Seguem-se as cidades da margem sul, que passam velozes enquanto se prova um vinho e se degusta uns presuntos, enchidos e queijos alentejanos. A doçaria, por seu lado, é uma tentação. Segue-se o Pinhal Novo e depois Vendas Novas, onde o comboio especial pára pela primeira vez.

A CP, que mal sobrevive com falta de comboios, disponibilizou ao grupo Vila Galé a composição possível: uma velha automotora a diesel, desta vez limpinha e sem grafittis, que foi devidamente decorada com publicidade ao Alentejo. No seu interior, um pouco de imaginação e de bom gosto permitiu um ambiente acolhedor, pontificado pelas bancas com produtos regionais e vinhos, destacando-se ainda um bar exclusivamente de gins. A bordo, o grupo de cantares Rastolhice tratou da animação, mas havia também bordadeiras de Arraiolos e um cortador de presunto vindo da Amareleja, que ali mesmo teve de improvisar para conseguir fatiar o pata negra entre os balanços do comboio.

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Quanto aos vinhos, além das marcas Santa Vitória e Versátil (produzida pela Vila Galé), Jorge Rebelo de Almeida foi generoso e quis mostrar também o que fazem os seus vizinhos das herdades em redor, pelo que havia Herdade dos Grous, Adega Mayor, Herdade do Sobroso e Monte da Peceguina.

Uma das características do Vila Galé Clube de Campo, como se designa o hotel rural da Figueirinha, é que a unidade hoteleira é rodeada de 1620 hectares, dos quais 127 são vinhas, 160 olivais e várias dezenas de pomares. O hotel oferece passeios de charrete, de moto-quatro, canoagem, actividades equestres, enoturismo. O administrador diz que foram as receitas do turismo que permitiram investir na componente agrícola do complexo, mas que, graças a isso, produz já um milhão de garrafas de vinho por ano e exporta 30% da produção.

Regressemos ao carris. Depois de Casa Branca o comboio especial parou em Cuba para cruzar com outra composição. A linha é de via única, perde-se tempo nestas paragens, mas para um grupo de 150 passageiros composto por agentes de viagens, operadores turísticos, jornalistas e outros convidados, a viagem foi tudo menos aborrecida. Assistir ao fim de tarde numa remota estação do Alentejo tem o seu quê de nostálgico, invulgar e até de romântico. Sobretudo porque se aproveita para fumar um cigarro e para passear pela gare com um copo na mão.

Em Beja a paragem é breve e logo a seguir, já rodeado por uma total escuridão, o “especial” lança-se numa velocidade louca de 30km/hora para percorrer – agora na linha desactivada – a parte restante do percurso. A chegada à Figueirinha demonstra que esta aposta de Jorge Ribeiro de Almeida faz sentido: o antigo apeadeiro fica precisamente ao lado do hotel e constitui uma excelente porta de entrada para o Vila Galé Clube de Campo.

Hotel em Elvas inspirado nas fortalezas militares

O hotel que o grupo Vila Galé está a construir no Convento de São Paulo, em Elvas, terá como mote as fortalezas militares portuguesas espalhadas pelo mundo. Jorge Rebelo de Almeida diz que o facto de esta cidade alentejana ter a maior fortificação abaluartada terrestre do mundo serviu-lhe de inspiração para aquilo que será o elemento diferenciador deste hotel.

A nova unidade hoteleira, a inaugurar em 2018, representa um investimento de cinco milhões de euros e terá 64 quartos, dois restaurantes, bar e adega, piscina exterior, spa e salão de eventos.

O administrador do grupo diz que Elvas ainda não é um destino turístico e admite uma elevada dose de risco neste investimento, mas repete insistentemente que o desenvolvimento do interior é uma das suas prioridades no âmbito da responsabilidade de um grupo “que está bem na vida”.  

A Fugas viajou a convite do grupo Vila Galé