Os estrategos da sensibilidade em matéria de desgraças

O que o CDS quis, e conseguiu, foi ultrapassar o PSD e assumir a vanguarda no desgaste do Governo.

Há mais de 50 anos que o país vai caminhando do nascente para o poente. Alguns ficam a aguardar, como o sol, a queda final. Ficam com a memória cheia de lugares e coisas antigas e a alma amputada. Outros regressam para o lado do nascente para morrerem e encontram os lugares já quase sem nada, sem a alegria das vidas que nasciam. Agora quase só há mortes.

Esse é agora um país abandonado, cheio de velhas e velhos, de reformados a tratar de angariar mais uns euros tratando de porcos, cabras e de ovelhas, de vazios, entre as povoações, preenchidos por tudo quanto nasça e cresça; um país de eucaliptos, de pinheiros, de matas e de matos criado ao sabor da vontade de cada um; como se o país de repente surgisse do fogo e não o contrário.

Esse é agora um país ao deus dará, sem escolas, sem salas de cinema e teatro, sem centros médicos, pobre, com gente a viver de uma reforma pequena e do que apanha; como se o país totalmente esquecido nascesse do fogo e as televisões nos espetassem esse país a arder e a chorar a todos os minutos.

Esse é o país dos foguetes, das queimadas, dos incendiários loucos e enlouquecidos; um país que investe em auto-estradas a passar no interior, ao mesmo tempo que foge para o litoral e fecha serviços; como se este país surgisse inusitadamente das chamas e não tivesse sido fabricado por décadas de uma política global que responsabiliza todos os que nos últimos 40 anos, a nível do poder central e local, tiveram altas responsabilidades no status quo.

Como se o país onde no interior se habituaram a atirar para a floresta inertes sem que ninguém corrija esses comportamentos, como se o país onde cada um se sente totalmente livre para fazer o que lhe der na gana em relação à floresta, como se este país fosse uma surpresa e tivesse surgido do fogo. Esse é o país vazio de almas e cheio de eucaliptos, de mata e de matos, esvaziado para uma curta faixa de terreno ao longo do mar, onde está tudo ou quase tudo.

O país passou a ter a cabeça de um gigantone sem corpo, apenas cabeça, o que revela muita falta de cabeça. A emigração para França e outros países na década de 1960, a fuga para o litoral no fim dos anos 1960 até hoje, criaram esta situação.

Neste contexto, a apresentação da moção de censura para derrubar o Governo porque o Governo e o seu primeiro-ministro tinham responsabilidades, sem especificar quais e se essas tais responsabilidades eram responsáveis por que mortos ou por quantos bens ardidos e destruídos, é apenas uma jogada política com invocação de causas desprezadas por quem apresentou a moção.

Uma das características do ataque a António Costa, a propósito dos incêndios, funda-se na exploração ad nauseam das perdas de vidas humanas e do desespero de quem fica à mercê das chamas e da solidão quase absoluta, entre morrer e fugir sem saber para onde. O sofrimento dos outros faz sofrer. E faz querer alcançar culpados.

Envolto o centro do país num mar de chamas que levaram à morte de dezenas de concidadãos, só podia ser o Governo o responsável, tal como no caso de Tancos (e logo que as armas apareceram todos fugiram do caso que tanta tinta deu para o CDS e o PSD gastarem), pois não é admissível, segundo esta alegação, que não haja responsáveis, independentemente do grau e da gravidade dessas eventuais responsabilidades; houve até quem alegasse que podia não ser por todas as mortes, mas por algumas havia de ser.

E o bolo em cima de cereja — Costa não tem sensibilidade. Marcelo a dar abraços a todos os que encontrou e que, desesperados como é natural, mal viam o PR sentiam-se confortados; Cristas pôs aquela cara de luto e gastou palavras sussurradas à cabeceira dos mortos, embora em voz mais alta para ser ouvida; Passos, esse, esse sentia vergonha, sem especificar de e do que é que tinha vergonha... Houve sensibilidade política para Cristas passar a perna a Passos e de todos para se aproveitarem dessa grande desgraça nacional para encostar o governo às mortes.

Na verdade, o contraste com Marcelo, todo cheio de televisões, rádios e jornais a segui-lo por entre um mar de desgraças e uma multidão de desgraçados, e António Costa, chefe do executivo, a minimizar a envergadura do desafio, deu a Cristas a possibilidade de se fazer apresentar muito tocada pela desgraça e, zás trás, tentar derrubar o Governo, bem sabendo que nunca o PS, o PCP, o BE e o PEV o permitiriam. Ela é que tinha de apanhar o comboio da oportunidade política e deixar o PSD entregue ao candidato que se chama Pedro Santana Lopes e ao outro do Porto que acha que o nome não é assim tão importante...

Se todos sabiam, incluindo o PR, que a moção de censura não vingaria, por que motivo foi montado todo o espetáculo mediático em que os bons têm piedade, sensibilidade, abraços, choros e os outros, os maus, insensibilidade e sobranceria? O que o CDS quis, e conseguiu, foi ultrapassar o PSD e assumir a vanguarda no desgaste do Governo.

Enquanto o PSD se desgasta no debate interno a saber os nomes dos candidatos e a elogiarem Passos, o CDS, que partilhou tudo o que PSD decidiu no Governo, corre, corre, sem obstáculos. Até a fugir do passado para onde parece correrem Santana e Rio. O PPD/PSD é um partido de poder, segundo Pedro Santana Lopes. O mal é que o país abandonado há décadas continua abandonado.