A fotografia de Georges Dussaud tem uma segunda vida no palco

Joana Providência coreografou as imagens em que o fotógrafo francês tem vindo a registar uma região e uma forma de vida comunitária em extinção. A estreia é este sábado em Bragança, com passagens já agendadas por Vila Real e Porto.

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Momento do ensaio de Rui Teles
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Georges Dussaud Paulo Ricca
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Joana Providência Paulo Pimenta
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Em 1981, o segundo ano em que visitou Portugal, o fotógrafo francês George Dussaud (n. Brou, Bretanha, 1934) passava pela aldeia de Agrelos nas terras do Barroso, perto de Montalegre, quando foi surpreendido pelo chamamento de uma mulher. “No postigo de uma casa muito antiga, a mulher pôs a cabeça de fora e perguntou-nos, com um gesto, se queríamos beber alguma coisa. Dissemos que sim, entrámos, deram-nos de beber, ela e a filha, e no fim perguntei se as podia fotografar. De imediato sentaram-se na cama como estavam vestidas, sem nenhuma preocupação com o avental roto ou as botas desapertadas; a filha com o cão ao colo. Na sua pose, tinham uma dignidade extraordinária, pareciam duas princesas. Esta tornou-se uma das minhas fotografias preferidas entre a centena de reportagens que já fiz em Portugal desde 1980."

Georges Dussaud recordou esse momento ao PÚBLICO, esta quinta-feira, no foyer do Teatro Municipal de Bragança, enquanto folheava o livro-programa do espectáculo Vestígio, onde Joana Providência (n. Braga, 1965) coreografa e recria as imagens com que ao longo das últimas quatro décadas o fotógrafo bretão foi cartografando um mundo em extinção acelerada.

Essa fotografia faz não só a capa do livro-programa desta nova co-produção dos teatros municipais de Bragança e de Vila Real e ainda do ACE/Teatro do Bolhão, no Porto, como fecha a sequência coreográfica que abre Vestígio: quando, a partir do instantâneo de outra mulher do Barroso a preparar o almoço na cozinha, se faz um fundido-encadeado com o gesto primordial de amassar a farinha que vai dar o pão e se pega num bebé ao colo do mesmo modo que se pega no cão para ele entrar também na fotografia de família.

“A fotografia de Georges Dussaud traz-nos vestígios de uma vida e de histórias que já não existem, e de uma memória colectiva que está também a desaparecer”, diz Joana Providência a justificar o título da sua nova criação, e também a escolha da obra do artista francês.

A coreógrafa tomou contacto com o trabalho de Dussaud precisamente em Bragança – onde, desde 2013, existe um centro de fotografia com o seu nome. “Quando vi a obra dele, o que achei mais impressionante foi a maneira muito especial de ele chegar às pessoas e aos lugares”, diz. Uma faceta que foi confirmada no trabalho de campo que Joana Providência, Raquel S. – dramaturgista do espectáculo, muito apoiado também nos textos de Miguel Torga – e os cinco actores e bailarinos de Vestígio fizeram com Georges e Christine Dussaud, em Fevereiro, junto dos lugares onde as fotografias foram sendo realizadas ano após ano.

“Eles falavam-nos não apenas das fotografias, mas também das pessoas fotografadas, de quem sabiam ainda o nome e as histórias pessoais”, recorda Raquel S. “O Georges e a Christine eram capazes de reproduzir o contexto desses encontros e desses lugares, onde muitas vezes moraram com as pessoas à espera que nevasse no Inverno, ficando a conhecer por dentro a austeridade dessa vida”, acrescenta a coreógrafa, vendo aqui a raiz da humanidade que atravessa toda a obra do artista.

De uma primeira selecção de várias centenas de imagens proposta por Dussaud, Joana Providência e Raquel S. escolheram uma vintena. “Escolhemos aquelas em que as improvisações dos intérpretes nos pareceram mais consistentes”, diz Joana Providência, acrescentando ter pretendido deste modo recriar “a força do humano e a poesia” que se entrevê nas imagens do fotógrafo.

Vestígio constrói-se, assim, a partir de transparências, sobreposições e sequências em que cinco intérpretes compõem e desconstroem retratos e quadros de um quotidiano de outros tempos, abordando temas como o pão, o trabalho, a matança do porco, a infância, a escola, o recreio, o campo, as estações do ano…

Dançar com artistas

Ao longo da sua carreira, Joana Providência trabalhou já com outros vultos das artes plásticas, como Paula Rego (Mão na Boca, 2004), Graça Morais (Terra Quente, Terra Fria, 2011), Alberto Carneiro (Território, 2014). Destes, a peça criada a partir da obra de Graça Morais é a que tem mais proximidade com a experiência de Vestígio, dado tratar-se de uma artista transmontana com uma presença igualmente forte em Bragança – onde existe também um centro de artes com o seu nome, e um grande painel seu decora o foyer do teatro municipal. “Tratou-se, no entanto, de um percurso diferente, pois a pintura dela não aparece em Terra Quente, Terra Fria; apenas os temas e a fisicalidade que encontrámos na sua obra”, justifica a coreógrafa, realçando que em Vestígio, pelo contrário, “há uma contracena e um diálogo directo com a fotografia de Georges Dussaud”.

A estreia de Vestígio acontece este sábado, às 21h30 em Bragança (com repetição domingo, às 15h). Será antecedida, à tarde, pela inauguração de uma exposição das fotografias de Dussaud usadas no espectáculo no (seu) centro de fotografia (que expõe também, até 31 de Dezembro, a sua mais recente exposição, A Cidade e as Serras), e também pela performance Histórias que ficam, envolvendo alunos da Universidade Sénior da cidade. “São 12 pessoas, entre os 65 e os 80 anos, que trazem as suas memórias de um universo que já não existe, que não conhecemos mas reconhecemos, e que faz parte da memória colectiva de todos nós, transmontanos”, diz Helena Genésio, directora do Teatro Municipal de Bragança.

Vestígio será depois apresentado em Vila Real (3 e 4 de Novembro) e no Porto (Teatro do Bolhão, 16 a 25 de Novembro).

Esta criação, acrescenta Helena Genésio, abre um ciclo de novas produções patrocinadas pelo programa comunitário 20/20, ao abrigo da parceria estratégica dos teatros municipais de Bragança e Vila Real, e subordinada ao tema Algures a Nordeste – título de um livro do poeta da terra A.M. Pires Cabral. Segue-se, já a 17 de Novembro, em Vila Real, a coreografia Barro, pela Companhia Instável, com direcção de Mafalda Deville; depois, na Primavera de 2018, o Teatro da Garagem regressa a Bragança para nova residência artística, desta vez sobre a obra de Torga, e, em Novembro do próximo ano, uma produção do Circolando sobre os rituais populares de Inverno na região.