Reportagem

Um brinquedo de luxo recheado de sabores bem reais

Da Estação de São Bento, no Porto, ao Vesúvio, em pleno Douro — com Ljubomir Stanisic e a "tropa toda" no vagão cozinha. Sejam bem-vindos ao The Presidential - Gourmet Train Experience.

Dentro do envelope azul prussiano com letras douradas está um pequeno bilhete — como os antigos bilhetes de comboio. Sejam bem-vindos ao The Presidential - Gourmet Train Experience, que, nas próximas dez horas, desfilará entre as estações de São Bento, no Porto, e Vesúvio, Douro acima.

Construído em 1890, o comboio Presidencial, que transportou os chefes de Estado e seus convidados até 1970, tem hoje uma brigada especial. Escondido num vagão transformado numa cozinha, Ljubomir Stanisic faz-se acompanhar pela "tropa toda" (chefs do 100 Maneiras e do Six Senses) para preparar um menu de degustação de quatro pratos, cereja em cima do bolo da Edição Vindimas desta viagem. "Abanámos um bocadinho", disse à Fugas já na Quinta do Vesúvio, propriedade da família Symington e das poucas quintas do Douro que não está aberta ao público. "É como cozinhar com os copos."

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Luís Octávio Costa

A longa refeição, com presença da Niepoort junto ao xisto do Douro (Dry White, Espumante Água Viva, Extra Bruto 2013, OLO 2016, Conciso Tinto 2014 e L.B.V. 2013) acompanha o rio Douro e dá a volta ao mundo do chef jugoslavo. Da Bósnia chegaram os nomes e os sabores mais raros (ajvar, mleram, lepinja, pão flor e pasteta). Itália serviu burrata com espuma de ricotta, crocante de pão, pó de beterraba e falsos tomates. França colocou à mesa peito de pombo recheado com foie gras, pernas a baixa temperatura, salada de mostardas e vinagrete de pinhão com frutos vermelhos. O Brasil despediu-se com Romeu e Julieta. A refeição, que começou com folhas de videira com queijo, cone com truta e queijo de cabra, ainda teve pelo meio um creme de castanhas e funcho com trufa Périgord e carabineiro.

Dificilmente nos abstraímos da paisagem e da imponente e elegante presença do comboio, um brinquedo também. "Quase que parece", admite Gonçalo Castel-Branco, fundador e curador executivo do projecto. "Sinto-me um miúdo quando estou cá dentro. É um comboio mágico e o que nós fazemos é uma espécie de Disney para adultos, é quase um brinquedo de luxo. É um pedaço de história de toda a gente que está em movimento, que está viva." Apesar das distracções, a peça central é o comboio, que Gonçalo quer que seja "uma carta de amor a Portugal". "Quero que cada pessoa saia daqui genuinamente apaixonada. E quero que tudo o que está a bordo, todos os pormenores, estejam ao nível do comboio, uma peça magnífica."

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As cores originais foram recuperadas e o lustro puxado às madeiras originais. Tudo está funcional — inclusive o piano e a guitarra portuguesa. "Tenho muito pouco mérito aqui. O Douro já era magnífico antes de eu chegar e continuará a ser depois de eu morrer. O comboio já era magnífico antes sequer de eu ter nascido. A única coisa que faço é juntar as peças e tentar que outros vejam o Portugal que eu vejo.Quanto mais viajo mais acho que é o melhor país para se viver. Costumo dizer que a melhor maneira de aumentar a auto-estima dos portugueses era dar-lhes um bilhete de avião a cada um. Quanto mais viajas mais entendes o luxo que é viver num sítio com esta qualidade de vida, história e riqueza humana. Não há um sítio aqui que não tenha gente com história, com cultura, com hábitos, com sabores e cheiros que nos enriquecem o coração."

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Luís Octávio Costa

Este ano, o comboio desfilará mais duas vezes (no último fim-de-semana do mês) com pacotes de um (500 euros), dois (2 mil euros) ou três dias (4 mil euros).