Crítica

Dido e Eneias são nossos contemporâneos

Há muito que não víamos na dança portuguesa uma abordagem contemporânea à música erudita tão bem urdida: São Castro e António Cabrita souberam adequar o seu estilo ao elenco da Companhia Nacional de Bailado.

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BRUNO SIMÃO

Há muito que não víamos na dança portuguesa uma abordagem contemporânea à música erudita tão bem urdida. Para a dupla António Cabrita (n.1982) e São Castro (n.1976) o repto foi notável: vindos de pequenas produções independentes, criaram, para um elenco extenso (24 bailarinos), uma versão própria de um expoente maior da música barroca, Dido & Eneias (1689) – primeira e única ópera totalmente cantada de Henry Purcell (1659-1695) – que, ademais, foi já alvo de inúmeras visitações coreográficas e operáticas.

Celebrizou a ópera o inigualável talento de Purcell para moldar as palavras do libreto à música, combinando coros, árias e melodias de matiz popular num todo de excepcional concisão. Cabrita e Castro apostaram numa dança contida e desafectada, num estudo profundo da partitura que não se sobrepôs à sua orgânica, expondo um metabolismo comum entre esta e a coreografia, numa dança que pulsa com as cadências da música reconstruindo-a num plano imagético, ou melhor, sensório-emocional. A magnífica dinâmica da luz de Nuno Meira foi um precioso aliado: dançou, literalmente, com nuances vocais e melódicas, e respirou com os corpos; vestiu o palco nu (visíveis, a maquinaria e os acessos aos bastidores, e dois grandes painéis translúcidos suspensos) de sucessivas atmosferas (novas cromias, súbitas visões rasantes ou em contraluz, a sombra da dança projectada na lateral da plateia); apoiou separadores de quietude e escuridão, remissões subtis aos actos da ópera. E foi transfigurando os tons fúcsia e carmesim pontuados a azul petróleo das calças e túnicas do figurino unissexo, que diluía diferenças de género e as personagens principais no colectivo, afastando a peça do registo narrativo.

O amor trágico e breve de Dido, rainha de Cartago, e Eneias, o herói troiano que a abandona, dilacerado entre a trama dos deuses, as razões do Estado e as do coração, cantado no poema épico de Virgílio, foi, aqui, depurado quase até à abstracção. A peça retém sobretudo o seu âmago emotivo: aglomerados humanos que ecoam o coro da ópera, qual organismo latejante a expelir e a reabsorver figuras a solo ou duetos. Parecem encarnar, a passos, vozes e palavras das árias: mãos ocultam faces em atitudes de lamento, dorsos curvados em expressões de abandono, miradas perdidas no horizonte… Cenas como a do corpo despido de Eneias transportado pelo coro, ou alusivas a danças populares, convocam ápices da iconografia clássica ou barroca.

No emblemático epílogo (O Lamento de Dido), a imagem da mulher a arrastar-se tolhida pela dor, os tornozelos manietados pelo grupo; na direcção oposta, um homem afasta-se, de costas, olhando errático um qualquer futuro infinito. A luz decai, e o seu corpo içado numa barra invisível baloiça no vazio sobre o painel suspenso; escutamos o som pendular do embate, cada vez mais distante; a vida segue o seu curso, o drama de Dido e Eneias intemporal.

Cabrita e Castro esquivaram-se ao risco de uma ilustração plástica da ópera ou de certa planura dramatúrgica, através de uma dança intensa mas não expansiva. Com gozo genuíno, e num imenso e contagioso respeito pela grandeza de Purcell, souberam adequar o estilo autoral ao elenco da Companhia Nacional de Bailado. Revelaram invulgar apetência para compor à escala de um grande grupo, assinalável na sua geração, que cresceu artisticamente em criações intimistas e de menor dimensão.