Opinião

O remake do fracasso

A previsível reedição da aliança entre os conservadores do Partido Popular e os radicais do Partido da Liberdade, já não irá provocar o mesmo choque nas instituições europeias nem desencadear sanções diplomáticas.

Os resultados das eleições de domingo na Áustria, com a subida incontestável da extrema-direita, fazem soar o alarme na Europa. No entanto, a previsível reedição da aliança entre os conservadores do Partido Popular e os radicais do Partido da Liberdade, já não irá provocar o mesmo choque nas instituições europeias nem desencadear sanções diplomáticas.

O Partido da Liberdade com referências no nacional-socialismo, altamente permeável a divisões internas, tem sido incapaz ao longo do tempo, de gizar uma estratégia política eficaz, o que o tem descredibilizado internacionalmente. As críticas populistas contra o establishment e contra aquilo que considera ser a inoperância da União Europeia na crise dos refugiados, têm-lhe dado gás em períodos cíclicos mas pouco duradouros.

O aborto da aliança entre estas duas forças em 2005 está ainda muito presente na memória de todos, mas a voltar será desconfortável a Merkel e Macron pela resistência destes dois partidos a um fortalecimento dos poderes de Bruxelas.

O futuro chanceler austríaco Sebastian Kurz, é um jovem promissor e criativo, mas que está longe de querer alterar a dinâmica das políticas de imigração, que vozes eufóricas já vaticinam. Embora tenha endurecido o discurso neste tema, não deixou de ser um democrata-cristão ao defender no país mais direitos para os muçulmanos, designadamente aceitando a dieta islâmica e facultando-lhes assistência espiritual nas forças armadas, mas também um humanista ao pugnar por um plano de integração dos refugiados nos domínios da aprendizagem do idioma, do mercado de trabalho e do respeito pelos valores ocidentais.

O Partido Social-Democrata cometeu erros no seu mandato, mas não deixou de provar durante todos estes anos que é possível uma dupla de sucesso muito mais profícua entre socialistas e democratas-cristãos do que entre estes últimos e os radicais de direita.

Esperemos que a História não venha demonstrar, uma vez mais, que os valores defendidos pelos centristas do Partido Popular são inconciliáveis com a demagogia e a ausência de referências éticas e humanistas dos extremistas do Partido da Liberdade. A avançar esta união, a Áustria e a Europa só terão a perder.