Spielberg, o filme

Documentário sobre mais de 40 anos de cinema do realizador que ajudou a criar os blockbusters e tentou crescer apesar disso já se estreou nos EUA - há-de se estrear em Portugal, mas ainda sem data.

Os seus colegas <i>movie brats</i> eram mais <i>cool</i>, mais arriscados, e ele era um <i>nerd</i> antes de os <i>nerds</i> serem <i>cool</i>
Foto
Os seus colegas movie brats eram mais cool, mais arriscados, e ele era um nerd antes de os nerds serem cool Jean-Pierre Muller/AFP (arquivo)

A veneranda crítica de cinema Pauline Kael escreveu sobre Asfalto Quente (1974), o primeiro filme de Steven Spielberg enquanto adulto para o cinema, que este era talentoso mas que lhe faltaria alguma densidade artística. Spielberg não se esquece desse texto, que cita no documentário Spielbergda HBO e que se estreará em Portugal nos canais TVCine (mas ainda não tem data). A crítica sugere que ele pode ser um “entertainer nato” mas compara-o em perda a um dos seus correligionários da Nova Hollywood do início dos anos 1970 - Martin Scorsese – porque, ao contrário do senhor Mean Streets, nele “não há sinal da emergência de um novo artista no cinema”.

Os outros membros dessa geração são o igualmente comercial George Lucas e os mais admirados Francis Ford Coppola ou Brian De Palma. Todos os "movie brats" falam de Spielberg em Spielberg. Todos eram mais cool, mais arriscados, e ele era mais betinho, um nerd antes de os nerds serem cool. Um realizador que teve sucesso com filmes adultos on the road como Asfalto Quente, candidato à Palma de Ouro em Cannes, ou o televisivo Duel - Um Assassino pelas Costas (1971), a história de Steven Spielberg faz-se do seu mega sucesso e impacto de iguais megatoneladas na indústria de cinema norte-americana com filmes que piscavam o olho aos públicos juvenis.

O documentário, escrevem os críticos e a imprensa que já o viu na estreia dia 7, foca muito esse percurso de Spielberg como realizador de miúdos até ao cineasta de graúdos feitos como O Resgate do Soldado Ryan, Munique ou, talvez de forma mais evidente, A Lista de Schindler. Outras tentativas, como A Cor Púrpura, são alegremente escrutinadas por críticos, produtores e pelo próprio Spielberg, que admite que “simplemente não era o gajo certo para fazer” o filme baseado no livro de Alice Walker.

Spielberg é um documentário autorizado, realizado por Susan Lacy, autora da série televisiva American Masters da PBS. Ainda assim, admitiu o realizador na estreia, sentiu-se “desconfortável porque as perguntas desafiavam a recuperar recordações que tinha enterrado”, evocando assim outra parcela da sua história, e da história do cinema com ela, que se prende com os contornos ausentes das figuras paternas em muitos dos seus filmes (de Encontros Imediatos de Terceiro Grau a Indiana Jones e a Última Cruzada, passando por E.T. – O Extra-Terrestre).

“Tenho evitado a terapia porque os filmes são a minha terapia”, diz a certa altura no documentário, onde o autor de Tubarão e Poltergeist também proclama: “A minha principal religião eram os subúrbios”. O divórcio dos pais, o seu próprio divórcio, o judaísmo, o 11 de Setembro são alguns dos temas, bem como a forma como faz a sua magia.

Há imagens das filmagens de Spielberg em conversa com os seus actores, mais pequenos ou mais crescidos e com aliens ou nazis nas imediações, ou detalhes sobre a famosa cena de abertura de O Resgate do Soldado Ryan, filmada em 27 dias graças à constante experimentação do realizador. As entrevistas com cineastas, actores (Leonardo DiCaprio, Daniel Day-Lewis, Harrison Ford, Anthony Hopkins, Tom Cruise, Tom Hanks, Cate Blanchett, Oprah Winfrey) ou com críticos de cinema como David Edelstein, J. Hoberman ou Janet Maslin ajudam a desenhar o quadro de um documentário bem recebido pelos críticos de televisão.