Torne-se perito

USS James E. Williams, licença para descansar

Baptizado em homenagem ao antigo tripulante James Elliott Williams pela sua bravura na Guerra do Vietname, este contratorpedeiro partiu há quatro meses dos EUA em direcção à Europa. Passou pela capital portuguesa, onde os tripulantes nos disseram que o mais difícil é deixar a família para trás.

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O contratorpedeiro USS James E. Williams leva o nome de um herói de guerra dos EUA, cuja história de vida facilmente se confunde com um guião de Hollywood. Passou por Lisboa no final de Julho, para uma escala programada para reabastecer. Uma pausa aproveitada pela maioria dos 300 tripulantes para umas horas na capital portuguesa enquanto o PÚBLICO descobre aquilo que parece uma “pequena cidade flutuante”, como descreve Alexis Steele, a Oficial de Armas do navio.

O convite para visitar este navio que pesa 9200 toneladas (o equivalente a 26 aviões Boeing 747) chegou à redacção por email. James Elliott Williams – "Willie" para os amigos – era descendente de índios americanos e foi militar dos EUA nas guerras da Coreia e do Vietname. Porém, foi o seu comportamento nesta última que levou a Marinha a dar o seu nome a um navio de guerra fortemente armado. Mais do que isso, valeu-lhe a Medalha de Honra do Congresso dos EUA. Além da mais alta condecoração militar no país, recebeu mais 24 medalhas, o que faz dele o militar mais condecorado dos EUA.

De braços abertos e de sorriso no rosto, é o próprio comandante Allen Siegrist quem recebe as visitas a bordo. Na Marinha há 18 anos – entrou no ano da morte (1999) do herói que baptizou o navio que comanda –, é a figura central do navio. Embora seja dele a responsabilidade geral por tudo o que ali acontece, é Ryan Branham quem tem a função de manobrar o navio, de levar o USS James E. Williams aos diferentes destinos. 

Na sala com a melhor vista

Uma das razões da passagem por Lisboa é “aprofundar as relações [militares] com Portugal”, aponta o comandante. “A outra razão – acrescenta – é para os tripulantes terem a oportunidade de visitar o país.”

“Nós navegamos um pouco por todo o mundo e temos a oportunidade de visitar sítios muito diferentes”, resume Allen Siegrist.

Ryan Branham, natural da Flórida, é pela sua envergadura o que popularmente se poderia chamar um “armário”, alto e encorpado. Aproveita estes dias de descanso para passear por Lisboa e aproveitar o sol por areais portugueses. É na Ponte de Comando que o podemos ver acção, rodeado de computadores, radares, botões e manivelas que servem para controlar o navio.

Há 16 anos na Marinha, diz ter-se alistado para poder viajar pelo mundo e ancorar “em sítios fantásticos como este”, referindo-se a Lisboa.

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O navio pesa 9200 toneladas, o mesmo que 26 aviões Boeing 747 Rui Gaudêncio

Depois de visitar países como a Islândia ou a Alemanha noutros navios, Branham passou para o USS James E. Williams, para trabalhar na sala com a vista mais privilegiada de todo o navio.

Responsável por manobrar o navio, Ryan é quem dita “qual é o próximo destino" da embarcação, "como e quanto tempo se demora”.

A Ponte de Comando já foi o local de trabalho da Oficial de Armas Alexis Steele, oriunda da Califórnia e uma das poucas mulheres a bordo. Guarda boas memórias desse tempo. “Foi aqui que passei os meus primeiros anos na Marinha. Era aqui que costumava estar a navegar o navio”. Agora tem uma missão diferente mas igualmente crucial: é responsável por todo o armamento.

Uma “cidade flutuante”

Steele compara o USS James E. Williams a uma “pequena cidade flutuante”, capaz de produzir a sua própria energia. Mas o que o distingue são de facto as armas.

Na proa do navio está instalado o sistema vertical de lançamento de mísseis. Mais conhecido por VLC, este sistema é composto por diversas células capazes de armazenar diferentes tipos de mísseis. 

Ainda mais chamativo é o grande canhão Mark 45 cinzento, de cinco polegadas. Colocado no centro da proa tem um alcance de 18 quilómetros e é utilizado para proteger o navio de ataques inimigos, quer estes partam de embarcações ou de aeronaves.

O armamento é controlado numa pequena sala bem afastada da luz do dia – o Centro de Controlo. É preciso passar por pequenos corredores para ir desta sala à ponte de comando. A cor dominante por dentro é a mesma que a do exterior, cinzento.

É numa sala iluminada apenas pela luz de inúmeros radares e computadores que Alexis Steele passa grande parte do tempo. A sua função é “defender o USS James E. Williams, ou outras embarcações com quem estejam a trabalhar, dos ataques inimigos”, sintetiza.

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A oficial de armas é uma das poucas mulheres na tripulação de 300 pessoas Rui Gaudêncio

É nesta sala, de luz azul, que se toma a derradeira decisão de disparar – ou não. Apoiados por numerosos radares (para detectar aeronaves ou submarinos) é ali que se garante a segurança desta mini-cidade.

A bordo existem ainda dois helicópteros, equipados com um radar capaz de detectar as ameaças que navegam no fundo do mar.

Os corredores do navio estão vazios agora. A folga da tripulação pelas ruas de Lisboa transformou o USS James E. Williams num navio-fantasma por dentro. Aproveita-se para passear, conhecer e também fazer algo com valor social, como trabalho comunitário, descrevem.

Em Lisboa não foi excepção. A escolha recaiu sobre uma casa que acolhe crianças infectadas com o VIH/Sida, na capital. A instituição foi visitada por um pequeno grupo de marinheiros, que é sempre diferente de cidade para cidade. Tiveram de conquistar o direito a um lugar na equipa que se deslocou à casa de acolhimento para ajudar na limpeza do recreio pintar algumas divisões da casa. “É sempre uma luta para ficarem na lista”, descreve o comandante Siegrist, porque todos querem ir, mas nem todos podem.

Outra equipa foi constituída para esta paragem em Lisboa, desta vez para competir numa partida de voleibol com uma equipa da Marinha portuguesa.

Uma família

Foi há cerca de quatro meses que o USS James E. Williams zarpou da base naval de Norfolk, na Virgínia. Para o comandante a parte mais difícil é “deixar a família para trás”. “Todos temos saudades da nossa família, mas a equipa faz um óptimo trabalho em ‘desligar o botão’ e quando partimos estamos focados no trabalho”, declara. Porém, ninguém é de ferro – e mesmo no gabinete do comandante há fotografias da família que está agora a milhares de quilómetros.

Por isso mesmo, atalha Ryan Branham “os tripulantes tornam-se a família”. E as pequenas paragens que vão fazendo pelo mundo ajudam estes homens e mulheres a lidarem com as saudades. Porque é nessa altura que recebem cartas de casa.

No pequeno refeitório, onde paira no ar um forte aroma a café, encontra-se uma faixa com a frase “Love From The Homefront” (numa tradução livre, "O amor dos que estão em casa"), rodeada por mensagens e imagens das famílias dos tripulantes.

Com mais três meses de viagem pela frente e com uma missão definida – mas que a tripulação não revela por questões de segurança – a embarcação já aportou e levantou âncora em vários destinos desde que passou por Lisboa. O navio USS James E. Williams está pronto para “Liderar da linha da frente” (o seu lema, “Lead from the Front”).

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