A seca alastra pelo país mas em pleno Alentejo desperdiça-se água

A seca e a escassez de recursos hídricos passaram ao lado da campanha eleitoral para as autárquicas. Nenhum partido incluiu o tema no debate político e nas propostas eleitorais.

Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria

 O Outono chegou mas a chuva não há maneira de se fazer anunciar. Tarda a reposição das reservas de água nos aquíferos subterrâneos e de superfície, que, de dia para dia, se vão tornando mais escassas, sobretudo na bacia do Sado. Mesmo assim, o concelho de Beja parece um oásis no meio da secura. Na capital do distrito, o problema não está na falta de água, mas no seu desperdício.

O quotidiano dos residentes na cidade de Beja passou a incluir ao longo dos últimos quatro anos uma expressão que se tornou repetitiva: “Olha! Mais um cano roto!”. Com efeito, as fugas nas condutas da rede pública de abastecimento são frequentes e abundantes e obrigaram a autarquia a avançar com o Plano Estratégico de Renovação das Redes de Água de Beja, apresentado em 2013 para se prolongar até 2020. Mas foi, sobretudo, em 2017 que se intensificaram as obras de remodelação dada a inusitada frequência de roturas e de interrupções que ocorriam e continuam a ocorrer, tanto na zona mais antiga da cidade, como nas novas urbanizações e nas freguesias rurais.

A dimensão do problema que tem merecido um crescendo de críticas dos munícipes nas conversas de rua ou de café e nas redes sociais, forçou a Empresa Municipal de Água e Saneamento de Beja (EMAS) a publicar uma brochura onde refere que, “apesar do elevado número de roturas na rede de distribuição desde 2013 (...), foi possível reduzir as perdas totais de água”. E adianta que entre 2015 e 2016 “foram detectadas 485 roturas não visíveis”. A sua reparação, prossegue o documento da EMAS, “reduziu as perdas de água em cerca de 628 mil metros cúbicos”. Não é feita qualquer referência às estimativas dos volumes perdidos nas roturas visíveis, as que os cidadãos continuam a observar, todos dos dias, nas ruas e passeios do concelho.

João Rocha, o ainda presidente da Câmara de Beja (que perdeu a presidência da autarquia para o PS), adianta ao PÚBLICO que as ocorrências estão relacionadas com mais do que um factor: “a idade de algumas das redes, a natureza dos materiais de tubagem e as temperaturas elevadas que se fazem sentir em grande parte do ano” e ainda “problemas de natureza hidráulica”.

As reparações entretanto efectuadas já obrigaram a um investimento de cerca de três milhões de euros que “se prevê que possa atingir até 2020 um valor aproximado de seis milhões de euros”, antecipa o autarca.

Manuel de Oliveira vereador (CDU) da Câmara de Beja com o pelouro do saneamento básico, em declarações prestadas ao PÚBLICO em Julho de 2016, assumiu que as fugas de água estão na maior parte dos casos associadas a “uma herança do passado”, frisando que, nalguns casos, foram tomadas decisões na instalação de ramais da rede pública de abastecimento de água que vieram a revelar-se “desadequadas”.

Intervenções “casuísticas”

Rui Marreiros, administrador da Empresa Municipal de Água e Saneamento (EMAS) de Beja, entre 2009 e 2013 e actual vereador (PS) no executivo municipal, imputa a causa das anomalias que se verificam no sistema de abastecimento às intervenções “casuísticas” que estão a ser efectuadas na rede, destituídas de planificação. O anterior responsável da EMAS adiantou ao PÚBLICO que as “elevadas perdas de água”, resultam da “pressão” descontrolada que existe nas tubagens e que provoca roturas por vezes a poucos centímetros umas das outras. Num dos casos, o PÚBLICO contou sete abraçadeiras (que são colocadas para tapar a fuga) numa secção com cerca de um metro. É uma situação recorrente. E o resultado observa-se diariamente nas ruas da cidade ou nas freguesias rurais: a água a gorgolejar nos passeios e estradas e a serpentear pelas valetas até desparecer nas sarjetas, um problema que decorre durante dias e, por vezes, semanas.

A regar ruas

Contudo, o desperdício de água no concelho de Beja não se circunscreve às fugas na rede pública de abastecimento: as escorrências resultantes da rega dos espaço verdes evidencia outra situação anómala que vem contrariar os apelos da empresa Águas Públicas do Alentejo. Esta entidade, em parceria com 13 concelhos do Baixo Alentejo, Beja incluído, avançou com a campanha de sensibilização: “Água, usando bem, mais gente tem”. Em Julho, o Governo e a comissão permanente de acompanhamento da seca, anunciaram um plano de contingência para reduzir o excesso do consumo de água, sobretudo nas regiões do Alentejo e interior do país, para garantir “água nestas regiões dentro de dois anos”. De entre o conjunto de medidas então lançadas, destaca-se a “redução da rega dos jardins e hortas” — operação que deveria passar a ser efectuada em “horários apropriados” —, a proibição do “enchimento de piscinas, as lavagens de viaturas e logradouros” e a “redução de rega nas zonas verdes (rega de sobrevivência) bem como o “encerramento de fontes decorativas”.

Num domingo de meados de Setembro, às 11h30, um grupo de pessoas, observava surpreendida “a ribeira” que corria nas valetas da Rua de Lisboa. Cerca de uma dezena de aspersores regava os canteiros arrelvados que rodeiam à Ermida de Santo André, próximo do cemitério de Beja, mas as ruas e passeios circundantes também recebiam água. Frei Tomás é chamado para a discussão: “Dizem para a gente poupar água e eles (autarcas) estragam-na desta forma”.

Próximo deste local, numa rua do bairro da Cooperativa Lar para Todos, à mesma hora, várias bocas de rega de um canteiro também coberto de relva debitavam água directamente para o asfalto. Os aspersores tinham desaparecido. De uma zona verde próxima (Parque da Cidade) fazia-se ouvir o marulhar de uma cascata de água lançada para um lago com mais de 5 mil metros quadrados de área.

Mais adiante, próximo da ciclovia que contorna o Parque da Cidade, com seis hectares de área, sobressaia um outro lago formado pela água que saía em jorro de uma tubagem que apresentava uma rotura junto a outras quatro que já teriam ocorrido anteriormente, a avaliar pelo número de abraçadeiras que cobriam meio metro de tubo. Todas estas situações que o Governo proibiu estavam a acontecer em simultâneo e são recorrentes noutras zonas verdes da cidade, onde os sistemas de rega revelam elevados índices de desperdício.

A rega “está adaptada”

Reagindo às questões colocadas pelo PÚBLICO sobre a rega dos espaços verdes, João Rocha explicou que a cidade de Beja “dispõe de 115 espaços verdes (...), dos quais 110 (95%) estão equipados com sistemas de rega automática”. O autarca refere que os sistemas de rega automática são programados para prever os “tempos estritamente necessários de rega”, de acordo com as espécies e áreas de cada jardim e época do ano. Em síntese João Rocha garante a rega dos espaços verdes “está adequada aos tempos de escassez de água”.

As ondas de calor já não fustigam o Alentejo como em Junho, Julho e Agosto, mas as amplitudes térmicas (30º de máxima e 16

18º de mínima) continuam elevadas. E ontem voltou o calor em força. Apenas os agricultores e os produtores pecuários persistem nas suas preocupações em relação à seca. Sabem que se tardarem as “outonadas” (chuvas de Outono), as consequências serão dramáticas, sobretudo para o abeberamento do gado e para as sementeiras.  

Os autarcas e os partidos políticos (CDU, PS, PSD, BE e PP) que foram tão assertivos junto do Governo na exigência de soluções para a escassez de água no pico da seca, não levaram este tema, cada vez mais recorrente no país, para o debate eleitoral. Ninguém o procurou discutir. Ninguém o mencionou. Mas o problema da escassez subsiste, apesar da barragem do Alqueva estar a contribuir para se interiorizar a ideia que os problemas associados à falta de água “são coisas do passado”.