Vamos reencontrar os Luar na Lubre "no melhor momento de toda a história da música galega”

Cultor exímio das raízes galegas e celtas, o grupo celebra os seus 30 anos (e o seu percurso invulgarmente internacional) num espectáculo único em Lisboa, esta quarta-feira.

Os Luar na Lubre: da esquerda para a direita, Pedro Valero, Xan Cerqueiro, Patxi Bermúdez, Xavier Ferreiro, Bieito Romero, Belém Tajes e Antía Ameixeiras
Foto
Os Luar na Lubre: da esquerda para a direita, Pedro Valero, Xan Cerqueiro, Patxi Bermúdez, Xavier Ferreiro, Bieito Romero, Belém Tajes e Antía Ameixeiras DR

Estrearam-se em palcos portugueses no Porto, mas voltaram depois várias vezes. Foi no saudoso Festival Intercéltico, sexta edição, a 9 de Abril de 1995. Em Lisboa já não actuavam há muitos anos, mas essa ausência é agora colmatada com um espectáculo em que celebram os 30 anos do grupo. Será no Tivoli BBVA, esta quarta-feira, às 21h30.

Nascidos em 1986, na Corunha, Galiza, os Luar na Lubre já tocaram em mais de 30 países, somando mais de 1200 concertos. “Somos a banda mais internacional de toda a história da música galega”, diz ao PÚBLICO Bieito Romero, gaiteiro e co-fundador do grupo. O objectivo inicial de fazer música tradicional galega com raiz celta continua a nortear o grupo, diz Bieito. “Entendemos que a Galiza é um país atlântico muito conectado culturalmente com o âmbito celta, independentemente da pegada celta que possa ter nas suas raízes históricas. Há uma forte relação artística, cultural, tanto com a Bretanha como com a Irlanda ou a Escócia, fundamentalmente com as duas primeiras.”

Isso situa-os, a nível mundial, num patamar mais vasto. “A música celta é uma invenção moderna, mas é um modo de fazer música que se identifica em todo o mundo e é muito válido. E nós estamos dentro dessa estética.” Para além dos fundamentos geográficos e históricos, há ainda as migrações. “Das músicas de raiz, esta é provavelmente a mais difundida a nível mundial. Porque é muito atractiva, melodicamente falando, e porque, por outro lado, a imigração escocesa, irlandesa, galega ou asturiana existe em todos os lugares do planeta. E levou a música. Hoje é possível escutar música celta na Argentina, no Uruguai, no México, na Venezuela, na Austrália, em qualquer parte, pela imigração galega.”

O nome do grupo nasceu, por sua vez, de uma necessidade de trilhar caminhos novos: “Na Galiza, todos os nomes acabavam em ‘eiro’ ou em ‘oiro’. A ideia era buscar uma coisa que soasse diferente e que estivesse de acordo com o que queríamos fazer. E isso veio do panteísmo, do culto da natureza. A lua é dos elementos mais importantes da natureza e dos mais venerados pelos nossos antepassados, pela gente do campo, e 'lubre' é uma palavra que eu descobri num dos primeiros dicionários de galego, que se perdeu no idioma mas se manteve na toponímia, e que nomeia o bosque onde os druidas celtas faziam os seus rituais. Juntámos as duas palavras e ficámos com o galego da lua no bosque sagrado dos celtas. É uma espécie de poema.”

Um jeito que não mudou

Em 1992, os Luar na Lubre conheceram Mike Oldfield, que fez uma versão do emblemático tema O son do ar, que rebaptizou de The song of the sun. Esta versão foi incluída agora pelos Luar na Lubre a abrir o duplo CD comemorativo dos seus 30 anos, onde regravaram 29 temas (o 30.º é a versão de Oldfield) com a colaboração de músicos como Ismael Serrano, Coral de Ruada, Nani Garcia, Irene Cerqueiro, Victor Iglesias, entre outros. “É uma colectânea diferente. Fizemos uma no 15.º aniversário, fizemos outra dividindo os temas por cantados, instrumentais, colaborações, com três discos e um DVD, e agora esta retoma temas menos conhecidos, regravando canções antigas com um toque novo.”

Mantendo o núcleo fundador estável, o grupo tem mudado alguns elementos. Hoje conta com Belém Tajes (voz), Bieito Romero (gaitas, acordeão e sanfona), Antía Ameixeiras (violino), Patxi Bermúdez (bodhran, tambor e djambé), Pedro Valero (guitarra acústica), Xavier Ferreiro (percussões latinas e efeitos) e Xan Cerqueiro (flautas). “Muita gente pensa que o Luar na Lubre é um grupo feito para uma voz. Não, a voz tem de adaptar-se a uma função, a um jeito de trabalhar que é o do próprio grupo. Mudámos cinco vezes de cantora e o grupo nunca sofreu com isso, pelo contrário, enriqueceu-se.” Quando ao resto, as alterações são sobretudo etárias, físicas, mantendo-se vivo o objectivo da sua criação. “Mudámos, evidentemente. Eu era novinho e agora tenho barbas brancas. Muda-se no jeito de pensar, de tocar, mas há um caminho traçado que se mantém desde o início e que é um jeito de fazer as coisas que acolhemos muito bem, senão o grupo já não estaria vivo. O Luar na Lubre é uma máquina que funciona com muito bons equilíbrios internos.”

Já viveram bem só da música, em tempos. Mas isso mudou, diz Bieito Romero. “Hoje sobrevivemos da música, mas a par de outras actividades. Eu faço rádio, sou professor de gaita, combinamos umas coisas com outras.” O que contrasta com o momento musical: “Estamos no melhor momento artístico de toda a história da música galega, nunca houve tantas propostas como agora, nunca houve tão bons músicos como agora. Falta é dar o salto, para que se transforme numa música exportável, com carácter internacional. Há muitos grupos que saem, formações pequenas que vão a festivais importantes, mas não é a projecção que se esperava para a nossa música. Basicamente porque não temos uma plataforma que mova tudo isto. Nós, músicos, somos tremendamente desunidos. O minifúndio na Galiza não existe só nas terras, existe também nas mentalidades, e isso impede que haja um movimento musical forte e com capacidade de exportação.”