Que Deus perdoe Trump!

É preciso que as pessoas decentes se mobilizem para impedir que a insensatez e o fanatismo trumpiano triunfem.

Trump foi discursar à Assembleia Geral das Nações Unidas e aproveitou a ocasião para dizer o que pensa sobre o seu país e o mundo.

Os diplomatas dos EUA conhecem seguramente o preâmbulo e os artigos da Carta das Nações Unidas, nomeadamente o seu n.º 2, alíneas 3) e 4). Na verdade, o preâmbulo constitui uma exortação à defesa e manutenção da paz. Os povos do mundo inteiro consagraram, naquele diploma, a paz como valor primordial de toda a Humanidade. E apelam à interdição da guerra. A guerra, à luz da Carta, é ilegal, salvo em casos absolutamente excecionais.

As alíneas 3) e 4) do artigo 2.º determinam que todos os membros da ONU resolvam os seus conflitos por meios pacíficos, repudiando a ameaça a todo e qualquer Estado-membro. A ONU, como explicitou o seu novo secretário-geral, tem sete desafios, sendo o primeiro a ameaça nuclear.

Trump, sempre com Deus na boca, fez lembrar os mais insanos pecadores, que por tudo e nada invocam Deus para levarem a cabo condutas reprováveis. Trump, que sempre ridicularizou a ONU por ser uma Assembleia que representa os povos e Estados do mundo (nem sempre coincidentes com os da América great), onde são necessários negociações e consensos a todo o tempo, não consegue imaginar outro mundo que não seja o dos seus apaniguados, cujos valores esbarram frontal e grosseiramente no espírito fundador das Nações Unidas.

Trump foi às Nações Unidas ameaçar a Coreia do Norte de destruição total, não lhe bastava ameaçar destruir a Coreia do Norte, tinha de ser totalmente, o que não se consegue imaginar, dado que a destruição total da Coreia do Norte certamente implicará a destruição da Coreia do Sul, e causará aos vizinhos China, Rússia e eventualmente ao Japão grandes destruições, dado que a tal destruição total será feita com bombardeamentos nucleares.

É revelador da estirpe do Presidente dos EUA o aproveitamento da tribuna da ONU para insultar o Presidente da Coreia do Norte, ameaçar de destruição total aquele país e colocar um conjunto de países na mira das suas ameaças.

Trump diabolizou o Irão e a Venezuela e remeteu para as profundezas do inferno o ideal socialista que o deve fazer ter grandes pesadelos extensivos a todos os seus ministros, secretários, assessores e colaboradores.

É o mesmo Trump que afirmava chegar a acordo com Kim Jong-un comendo um hambúrguer. É o mesmo Trump que valoriza a soberania das nações fortes que ameaça a soberania da Venezuela e do Irão.

Trump saberá o que Merkel, Macron, Putin e Xi Jinping pensam sobre a solução para a Península Coreana, e da qual resulta uma unanimidade em torno de uma negociação que tenha em conta os interesses do Norte, do Sul, da China, do Japão, da Rússia e dos próprios EUA.

Trump foi à sede da ONU apresentar um manifesto belicista, com invocação do nome de Deus, em vez de uma proposta para a saída das múltiplas crises no mundo. O Presidente dos EUA quis afirmar o que o move, na sua ambição desmedida, de fazer regredir as relações diplomáticas ao tempo dos “bons e maus”, dos “crentes e não crentes”, dos “fiéis” e dos “infiéis”. Parecia o califa do Daesh.

Trump classifica os países que não aprecia e que combate de regimes desonestos, ligando-os ao terrorismo. Insultou Obama, considerando o acordo com o Irão uma vergonha, dando conta que os acordos assinados não são para respeitar.

Advoga nações soberanas e fortes que “permitem que os seus povos sejam donos do seu futuro [...]”, “que os indivíduos floresçam na plenitude da vida tal como foi planeada por Deus [...]” e, acrescentou, “[...] não queremos impor o nosso modo de vida a ninguém”.

Trump não explicou como era a vida planeada por Deus, mas sendo Cristo o Deus que diz seguir, não se imagina o que possa ter professado Cristo que tenha a ver com a vida e a política do multibilionário Donald Trump. E não se alcança como pode um homem do alto das suas torres em Nova Iorque, agora inquilino da Casa Branca, invocar princípios religiosos para dar conteúdo ao seu discurso.

Trump está cego pela ilusão de querer impor à América e ao mundo uma visão retrógrada e profundamente injusta acerca das relações diplomáticas entre os países que dão corpo à ONU. Trump fala de terrorismo e esquece aqueles países a quem vende biliões de dólares em armas e que apoiam o terrorismo interno e internacional, a começar na Arábia Saudita e a acabar em Israel.

Para ele, Deus é uma espécie de ente superior que existe para o defender a ele e aos multibilionários ao cimo da terra. Quem não for rico não tem direito ao Deus que ele diz seguir.

É tão fundamentalista como todos os fundamentalistas que em nome de Alá, de Cristo, de Buda ou Jeová matam inocentes em todos os cantos do mundo.

Trump é um caso sério de ameaça à paz. Depois do seu discurso na ONU, o mundo ficou muito mais inseguro e é preciso que as pessoas decentes se mobilizem para impedir que a insensatez e o fanatismo trumpiano triunfem.