Crítica

Quadro em branco, diamante em bruto

O que é Mãe!, a delirante alegoria surrealista de Darren Aronofsky? Temos a impressão que não é, ainda, agora que o vamos saber.

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Mãe!, objecto propositadamente divisor mas que tem lá dentro um qualquer diamante em bruto à espera de ser limado

Ponto primeiro (e ponto a favor): é impossível falar de Mãe! a quente, tal é a sensação de estarmos perante “qualquer coisa” que se coloca consciente e deliberadamente fora de quaisquer parâmetros convencionais. Nada a que Darren Aronofsky já não nos tenha habituado, é verdade (podemos recordar The Fountain – O Terceiro Capítulo ou mesmo Noé), mas que aqui é levado a um ponto quase extremo de alegoria surrealista (as referências Buñuelianas não são casuais, bem pelo contrário).

Ponto segundo: é impossível falar de Mãe! agora, neste momento, sem levar em conta o sururu que se tem gerado à volta do filme - o aparente ódio de um público americano que ia à espera de um filme de terror doméstico e apanha com uma espécie de “quadro em branco” onde se pode projectar tudo, das relações abusivas aos males da religião, e a profunda divisão por parte de uma crítica que oscila entre a rendição e o nojo.

Ponto terceiro: “gostar” não é a palavra certa para definir a experiência de endurance que é ver Mãe!, objecto-limite propositadamente divisor mas que tem lá dentro um qualquer diamante em bruto à espera de ser limado. (É, aliás, por aí que o filme começa e acaba.)

Certeza, agora, só temos uma: ainda mal começámos a falar, e a pensar, sobre Mãe!